Você está em: Inicial » Destaques // Galiza // História » HISTORIA DA GALIZA

HISTORIA DA GALIZA

A história da Galiza’ começa com o nascimento da própria Galiza, que é fixado tradicionalmente por volta do século XIX a.C., quando o Império Romano conseguiu anexar definitivamente os povos galaicos (kallaikoi) segundo o autor grego Estrabão, unificando-os pela primeira vez na história e denominando o seu território como Galécia (terra dos callaeci), e que acabou por derivar no actual nome “Galiza”, motivo pelo que é considerada como uma das entidades político-administrativas mais antigas de toda a Europa.

O facto de,  no ano 298 d.C., o imperador Diocleciano ter decidido elevá-la à categoria de província consular -alongando assim também o seu território- fêz um acréscimo da sua coesão política ao estar sob o governo de um cônsul romano. A sua definitiva consolidação estatal chegaria no ano 409 d.C. quando o rei suevo Hermerico funda nela o primeiro reino da Galiza, afiançando a existência da Galiza até aos nossos dias.

A ocupação humana do território correspondente à actual Galiza, não obstante, é bem mais antiga que a chegada de Roma, existindo testemunhos arqueológicos que certificam o seu povoamento desde o Paleolítico Inferior. Estas populações receberam diversos aportes culturais durante milénios, fazendo parte já na Idade do Bronze da área cultural atlântica que se deu entre as terras mais ocidentais da Europa. No fim da Idade do Ferro estas populações autóctones formavam uma unidade cultural, que os romanos denominaram como galaicos e que supõem ser o principal substrato da população actual na Galiza.

Do mesmo modo, durante os séculos seguintes Galiza recebeu sucessivos assentamentos de gente, entre os quais se destacam romanos, suevos e bretões, que não só se integraram na população autóctone como também influíram decisivamente na sua vida, como foi o caso da cultura romana que propiciou a formação de uma nova língua autóctone, o galego-português. Até o ano 1833 a Galiza manteve-se como um reino, no ano 1933 foi reconhecida internacionalmente como “nação” pela Sociedade de Nações e desde 1981 organiza-se jurídica e administrativamente como uma Comunidade Autónoma dentro do Estado Espanhol.

Paleolítico

As primeiras provas líticas da presença humana na Galiza remontam há uns 300.000 anos, no Paleolítico Inferior, durante o Pleistoceno Médio. Apareceram restos destes povoadores por todo o litoral, desde Rivadeu até à Guarda. Estes restos são instrumentos líticos, que nos mostram uma indústria Acheulense à base de bifaces, fendedores, triedros… realizados sobre uma base de seixos ou quartzo. Conhecem-se duas culturas, o Paleolítico Inferior Arcaico (ou “cultura dos seixos talhados”) e o Paleolítico Superior Arcaico ou Acheulense. A técnica é mais simples na primeira delas. As indústrias são simples e o número de tipos reduzido.

Os seres humanos do Paleolítico Inferior viviam em hordas,ou seja, grupos de caçadores-colectores que praticavam o nomadismo. Alimentavam-se dos frutos que recolhiam e da caça, que praticavam em tribos. Também praticavam a pesca e a colecta de marisco, quando viviam em zonas nas quais podiam fazê-lo.

Já durante o  Paleolítico Médio a indústria característica é heterogénea, diversificada, elaborada pelo homem de neandertal ( do que se documenta a sua presença no noroeste peninsular graças ao achado de um sítio na Cova Eirós, em Triacastela, com matéria orgânica e ferramentas do Paleolítico Médio).

O Paleolítico Superior espalha-se entre os anos 30.000 e 8.000 a.C., época da qual encontramos instrumentos tanto de pedra como de ossos, realizando-se neste material punhais, arpões, agulhas, etc. Na Galiza encontram-se abundantemente sobretudo sob rocha, entre os quais encontramos uma indústria Aziliense à base de sílex, cristal de rocha, pórfidos cuarcíticos, quartzos e cuarcitas mais ocre. As ferramentas mais características são os burís, as tesoiras de dorso rebaixado e as raspadeiras.

Oestrimios

Uma delas é o megalitismo, que na Europa se desenvolve desde o Neolítico até a Idade do Bronze caracterizando-se pela presença de (megálitos), construções realizadas com pedras de grandes dimensões. À luz das datações arqueológicas e síntese historiográficas até à data, não se recomenda assumir como provado o começo desta nova cultura antes de 4300 a.C. tanto na Galiza como no norte de Portugal, onde se origina o megalitismo atlântico ao estender-se por toda a fachada atlântica. A cultura do “megalitismo atlântico” vive o seu apogeu peninsular entre 3000 a.C. e 2300 a.C. e manifesta-se de forma homogénea numa área que compreenderia o norte de Portugal, Galiza, Astúrias, Leão e Zamora de maneira que a sua área de implantação seria o precedente da futura Galécia.

Os megálitos que mais abundam são os sepulcros funerários, construções formadas geralmente por um túmulo em torno de um dólmen interior com ou sem corredor a princípio, no qual se depositavam os cadáveres e um enxoval funerário. Estes dólmens encontram-se frequentemente agrupados em necrópoles situadas em planícies ou planaltos e proliferam sobretudo na vertente setentrional e ocidental da actual Galiza.

O grande número de dólmens induzem à existência de uma população densa e dispersa que, segundo as análises arqueológicas, fazia uso de uma criação de gado primitiva baseada na criação de bois, porcos, cabras e ovelhas e uma agricultura de cereais e leguminosas pouco sofisticada, o que obriga-los-ia a seguir dependentes das técnicas mesolíticas de caça e colecta. A sociedade megalítica galaica não desenvolveu uma hierarquização social significativa, como demonstram os ascéticos uniformes dos sepulcros ou os enterros colectivos, nos quais abundam mais os utensílios de finalidade produtiva que os objectos de enfeite. Tratava-se de uma “sociedade igualitária, composta de pequenas comunidades, pouco belicosa e assentada de forma dispersa” no território. As suas características mais destacáveis seriam a sua surpreendente habilidade arquitectónica —o que revela uma grande capacidade de organização do grupo—, e sobretudo a sua capacidade de abstracção e transcendência manifestada num profundo sentido religioso, constatável na grande quantidade de sepulcros. As gravuras encontradas nestes sepulcros descrevem uma “mitologia centrada na fecundidade e na morte”, emergindo a figura do celebrante ou mediador entre os deuses e os seres humanos.

As tecnologias megalíticas começam a desaparecer com a chegada das técnicas metalúrgicas. No entanto a identidade cultural forjada no período megalítico não desaparecerá, pelo contrário continuará transmitindo-se no decorrer do terceiro ao primeiro milénio a.C., como demonstra a existência dos petróglifos, litografias realizadas em pedra granítica ao ar livre.

A homogeneidade técnica e temática desta expressão cultural permite definir a existência de um grupo galaico de arte rupestre caracterizado por uma temática abstracta que ocupa a maior parte da superfície, rodeada por elementos de uma temática naturalista, geralmente zoomorfa e antropomorfa junto com elementos como armas, escudos e ídolos-cilindro. Ainda que os elementos naturalistas sejam os que caracterizam e diferenciam a litografia pré-histórica galaica em frente aos seus equivalentes europeus, são os motivos abstractos —em especial labirintos, tramas geométricas e tríscelese- os que consolidar-se-ão na cultura castreja.

Idade do bronze atlântica

O capacete de Leiro, Idade de Bronze final.

Entre o Megalisimo e o Bronze há uma etapa denominada Calcolítico, datada entre o 2.000 e o 1.800 a.C., e na que se produz o aparecimento da metalurgia. Incrementou-se a estabilidade dos assentamentos. As cistas (câmaras de pedra mais pequenas, não soterradas e individuais) substituem os dolmens, o que nos fala de uma certa elite social. Aparecem punhais de cobre, cilindros de ouro, machados e as primeiras jóias.

Podemos falar de três períodos cronológicos referidos à fundição do Bronze no noroeste peninsular:

Já no Bronze inicial, encontramos uma conexão intensa com a costa ocidental atlântica. As peças de tiras e os aros têm os seus concomitantes nas terras litorais do ocidente europeu e nas Ilhas Britânicas. Destaca-se na Galiza o tesouro de Caldas de Reis: a maior acumulação de ouro da Pre-História da Europa Ocidental.

No segundo milénio antes de Cristo já podemos falar de uma cultura galaica plenamente aberta a ocidente com um novo metal: o bronze. Estoques de lingueta trapezoidal, espadas com empunhaduras de remate, espadas pistiliformes, machados tubulares e com anéis parecem-nos falar de uma sociedade aristocrática onde o espírito bélico condiciona a vida quotidiana. Salienta o capacete de ouro de Leiro (Rianjo). Galiza aparece plenamente conectada com o intercâmbio atlântico.

Outra manifestação plástica de enorme interesse são os gravados em pedra denominados petróglifos, que na Galiza têm a singularidade de um maior naturalismo que noutras áreas. Cérvidos, círculos, labirintos, armas, círculos concêntricos, caçoletas conservam uma simbologia misteriosa (cúltica, cósmica, ou transcendente) ininteligiveis em alguns dos casos.

Idade do Ferro (séculos VIII a.C. até I d.C.)

Ruínas do Castro de Borneiro, povoamento habitado desde finais da Idade do Bronze e durante a Idade do Ferro.

A cultura castreja, ou cultura dos castros, foi um conjunto de manifestações culturais do noroeste da Península Ibérica que durou desde finais da Idade do Bronze (século IX ou VIII a.C.) até o século I d.C. A sua característica mais notável são os povoados amurados conhecidos como castros (do latim castrum, acampamento), do que toma o nome; só recebem o nome de citânias determinados castros portugueses (como, por exemplo, o de Briteiros). A sua área de extensão chega até os rios Navia e Cúa pelo leste e o Douro pelo sul.

Desenvolveu-se durante a Idade do Ferro sobre um forte substrato indígena da etapa final da Idade do Bronze. A esta componente pre-castreja somaram-se-lhe influências culturais centroeuropeias, atlânticas e mediterrâneas. No lento período formativo, que durou até o século V a.C. os castros foram-se estendendo de sul a norte e da costa para o interior. Esta cultura desenvolveu-se a seguir durante dois séculos e começou a ser influenciada pela cultura romana no século II a.C. e continuou na forma de cultura galaico-romana depois da conquista e até os séculos III ou mesmo o IV d.C.

Os Galaicos

A Palhoça, -tipologia de casa galaica ainda presente nas montanhas galegas orientais-, foi desde a Idade do Ferro até à Idade Média comum a toda a Galiza.

No fim da Idade do Ferro, as gentes do extremo norte-ocidental da Península Ibérica conformavam já uma unidade cultural homogénea que as diferenciava do resto e que tempo depois seria percebida pelos primeiros autores grecolatinos, que denominaram  este conjunto de povos com o nome de Gallaeci (galaicos), talvez pela aparente semelhança com os já conhecidos Galli (galos) e Gallati (gálatas). Os Gallaeci ou Galaicos foram originariamente um povo indo-europeu de língua celta, portanto celtas para uns autores, celtizados para outros -sem que exista pleno consenso entre os investigadores- que ocuparam durante séculos aproximadamente o território da actual Galiza e norte de Portugal, limitando ao sul com os lusitanos e ao leste com os astures. São em si os primeiros “galegos”, nome actual que deriva de Gallaeci sendo quotidianamente empregado como cultismo para referir-se ao relativo a Galiza ou aos galegos, não obstante, percebe-se historicamente a cultura galaica como aquela prévia à anexação ao Império Romano.

O modo de habitat dos galaicos estava baseado na ocupação do território especialmente em povoados fortificados que receberam o nome de “castros”, podendo variar o seu tamanho desde pequenas aldeias de menos de 1 hectare mais usuais no norte, e de grandes castros de mais de 10 hectares que receberam o nome de oppida ou “citânias”, estando estes mais presentes na metade sul do seu povoamento tradicional. Este modo de habitar o território, em castros, foi comum em toda a Europa durante a Idade do Bronze e do Ferro, recebendo no noroeste da Península Ibérica o nome de “cultura dos castros” ou “cultura castreja”, que alude a este tipo de manifestação cultural antes da chegada de Roma, contudo os galaicos seguiriam a habitar castros até o século VIII d.C. Só no território da Galiza actual chegam a contar-se mais de dois mil castros, o que revela uma enorme dispersão populacional da Idade do Ferro em toda a Europa, que seria em boa medida a origem da ocupação galega do território, herdada até ao presente, e caracterizada por pequenas e numerosas populações distantes entre si.

A organização política dos galaicos articulava-se em pequenos estados independentes entre si compostos por um número variado de castros, encabeçados estes estados pela figura de um rei local que os romanos denominaram princeps como em outras partes da Europa. Cada galaico identificava-se a si mesmo como membro do castro que habitava (segundo a interpretação mais comum do C invertido da epigrafia posterior) assim como do estado/povo ao qual pertencia, e que os romanos denominaram populus, entre os quais encontramos numerosos nomes como arrotrebi, albioni, celtici supertamarici, lemavi, nemetati, etc., do mesmo modo que até ao fim do século XVIII a gente na Galiza se identificava com a freguesia e a comarca.

Integração no Império Romano (19 a.C. – 409)

Conquista da Galécia e transformações económicas

Muralha romana de Lugo.

Os interesses de Roma no Noroeste da antiga Hispania leva-nos a supôr o começo dos conflitos armados entre Roma e os galaicos no fim do século I a.C. Ainda que o general Décimo Junio Bruto lograsse controlar efemeramente os povos galaicos mais meridionais na sua campanha do ano 137 a.C., não foi até ao fim das Guerras Cantábricas (29 a. C.-19 a. C.) quando galaicos, astures e cantabros foram definitivamente anexados a Roma.

Além da guerra, o Império Romano valeu-se de tratados de paz (chamados pactos de hospitalidade) com os diferentes povos galaicos, o que na prática favoreceram a sua integração -sem derramamento de sangue- no Império. Conquistado o território e as suas gentes  pela guerra ou  por tratados-, o Império romano assegurou seu controlo militar como era costume com numerosos acampamentos onde se albergavam legiãos ou ” cohortes” tais como os de Aquis Querquennis, A Ciadelha (Sobrado dos Monxes) ou o próprio Lugo.

Entre os anos 284 e 305, o imperador Diocleciano acometeu a reorganização administrativa do Império. Na Península Ibérica criaram-se duas novas províncias (Galécia e Cartaginense) a partir das já existentes: Baetica, Tarraconensis e Lusitania. Assim, a nova província baixo o nome de Galécia ocupou o extremo nor-ocidental da Península Ibérica que anteriormente pertenceu à Tarraconensis, e esteve formada pelos territórios da região de Asturia e da própria Galécia. É destacável que entre todas estas capitais de convento (Lugo, Braga, Astorga) era a cidade de Bracara Augusta a que exercia de capital provincial de toda a Galécia, organizada administrativamente em três conventos jurídicos. Esta província do noroeste hispânico foi, pela sua importância militar, uma província imperial, não senatorial, controlada por uma forte legião na actual Leão e com campamentos como o de Aquis Querquernis (mansão na via Nova), Cidadelha ou a própria cidade de Lugo.

O Império Romano estendeu sobre a Galécia a sua rede viária, conectando as principais populações, portos e vilas (villae) com quatro grandes vias: a Via XVII, a Via Nova ou Via XVIII, a Via XIX e a Via XX. Junto à vias, o Império Romano também construiu pontes (como as do Bibei, Ourense), canalizações, mas também faróis (como a Torre de Hércules), portos, grandes muralhas como a de (Lugo), assim como outras instalações que favoreciam a exploração económica do território conquistado e a sua integração no resto o Império.

Antiguidade tardia (409-711)

A monarquia sueva (409-585)

Moeda de ouro sueva datada entre os anos 410 e 500.

A começos do século V, o Império Romano de Ocidente experimentou uma grande instabilidade militar, económica e política. Desde o centro da Europa (especialmente desde o território da actual Alemanha), numerosos povos germânicos; suevos, saxões, francos, alanos e outros, começaram a atacar os postos fronteiriços romanos no rio Rhin, irrompendo finalmente no Império o 31 de Dezembro do ano 406 e assentando-se no seu interior pelas armas, mas também graças a pactos pacíficos.

Arredor do ano 409, dirigidos pelo seu rei Hermerico, grande parte dos suevos (estima-se que cerca 40.000 pessoas) chegaram à província romana da Galécia, onde possivelmente assentaram-se graças a um pacto com Roma, decidindo estabelecer a sua capital na cidade de Bracara Augusta (Braga, Portugal). Este pacto chamado foedus permitia aos suevos governar a província da Galécia como um reino próprio (Galliciense Regnun), desde que estes aceitassem o imperador romano como o seu superior. O historiador galaico Idácio de Chaves narrava então que os suevos foram bem recebidos pela população galaico-romana, pois aliviaram os impostos.

Após a morte de Hermerico, o seu filho Réquila (438-448) assumiu o trono e dirigiu expedições de saque, anexando o norte da província romana da Lusitania, integrando-se suevos e galaico-romanos. Isto põe de manifesto a plena independência com respeito ao Império.

Réquila foi sucedido por Requiário (448-456), quem adoptou o catolicismo no ano 449, manifestação pioneira de uma nascente concepção do governo apoiada na Igreja católica. Também foi Requiário o primeiro rei europeu em a cunhar moeda própria, a qual fazia referência ao carácter galaico do Reino. Roma enviou um exército integrado por visigodos e no ano 456 teve lugar a batalha do rio Órbigo, que enfrentou romanos e visigodos contra suevos, com a derrota destes últimos e que teve como consequência o assassinato de Requiário.

Após a derrota contra os visigodos, o reino suevo dividiu-se e foi governado simultaneamente pelos reis Frantano e Aguiulfo. Esta situação durou desde 456 até 457, ano no qual Maldras (457-459) reunificou o reino, mas uma conspiração romano-visigoda acabou com sua vida. Apesar da conspiração não ter conseguido os seus autênticos propósitos -a eliminação do reino-, o reino suevo viu-se novamente dividido entre dois reis: Frumario (459-463) e Remismundo (filho de Maldras) (459-469) o qual reunificou novamente o reino do seu pai no 463 e viu-se obrigado a adoptar o arianismo no 465 devido à influência visigoda.

A época escura finalizou com o reinado de Carriarico (550-559) que se converteu novamente ao catolicismo no 550, facto que significava a ruptura com os visigodos. Este, foi sucedido por Teodomiro (559-570) (não se confunda com Teodomiro, rei dos ostrogodos) durante o reinado do qual celebrou-se o Primeiro Concílio de Braga (561), instituindo-se esta assembleia como órgão assessor do rei. Destaca-se neste período a figura de Martinho de Dume pela sua participação na organização territorial (parroquiale suevorum) e na legitimação cristã de um governo estável sobre uma população plenamente integrada e unida.

Teodomiro foi sucedido por Miro (570-583). Durante o seu reinado celebrou-se o Segundo Concilio de Braga (572), consolidando-se o seu contributo à governação e estabelecimento da justiça. Aproximadamente no ano 577 iniciou-se a guerra civil visigoda na qual interveio o rei Miro, que no ano 583 organizou uma campanha de apoio a Hispalis (Sevilha) que fracassou. Durante o regresso desta expedição o rei morreu e no reino suevo começaram a produzir-se muitas lutas internas. Eborico (583-584) foi destronado por Andeca(584-585) que errou na sua tentativa por evitar a invasão visigoda dirigida por Leovigildo que se fez efectiva finalmente no ano 585.

Chegada dos bretões e fundação da diocese de Britânia

Mapa dos assentamentos bretões no século VI d.C.

A situação política da ilha de Grã-Bretanha (Britânia) entre os séculos IV e VII, mudou completamente com o abandono da ilha por parte de Roma e o constante estabelecimento de tribos anglo-saxónias -procedentes do norte da Alemanha e Dinamarca- na parte oriental de Britânia. As constantes agressões e hostilidades dos jutos e anglo-saxões contra os nativos -bretões- propiciaram que parte da população emigrasse via marítima a pontos próximos da costa atlântica, dirigindo-se maioria às costas da Armórica (que devido a isto acabaram por tomar o nome actual de Bretanha) e minoria ao norte da antiga Galécia.

Desconhece-se a causa do deslocamento de alguns contingentes bretões para a costa norte da Galiza e o acolhimento do seu assentamento pelos galaico-suevos, alguns autores manifestam um possível pacto militar, ou singelamente uma aceitação com condições desconhecidas actualmente. Organizados num importante território, introduziram a sua original organização religioso-cristã algo diferente e fundaram um bispado próprio que aparece citado no Parrochiale Suevum ou Divisio Teodomiri, um documento que mostra a organização eclesiástica do reino da Galiza em época da monarquia sueva datado entre 572 e 573. A sua integração religiosa foi total, assistindo o seu representante -Maeloc- ao Segundo Concílio de Braga no ano 572.

O território da antiga diocese dos bretões -Britânia- ocupou principalmente a faixa costeira da Marinha Luguesa até à comarca da Terra Chá, chegando a sua influência até às costas da comarca do Eu-Navia pelo leste, e de Ferrol pelo oeste. A sua antiga sede, conhecida com o nome de Mosteiro Máximo foi identificada por alguns autores com a Basílica medieval de São Martinho de Mondonhedo, onde se encontram restos do séculos V-VI d.C. Mudando de sede e nome em várias ocasiões, a actual diocese galega de Mondonhedo é a sua sucessora histórica.

O assentamento desta onda de emigrantes bretões e a criação de uma diocese religiosa própria supõe o segundo maior assentamento de um povo estrangeiro em terras galegas, depois dos suevos.

A monarquia visigótica (585-711)

Coroa votiva do rei visigodo Recesvinto († 672), rei de Galiza (Gallecia), Spania e Septimania.

No ano 585, o rei visigodo Leovigildo tomou o controlo do reino da Galiza, aproveitando uma disputa interna no reino e derrotando ao último monarca suevo, Andeca. Deste modo, o território da então Galécia passou a fazer parte dos domínios dos reis visigodos,depois de serem expulsos da Gália pelos francos se limitavam a Hispania e a Septimania desde o ano 507.

Aceitos pelas elites galaico-suevas, os novos monarcas visigodos, que apesar de terem sua corte em Toledo, assumiam o controlo político de três antigos reinos: Hispania, Septimania e Galécia. Desta maneira, nos concilios religiosos como o realizado em Toledo no ano 589 estavam presentes episcoporum totius Hispaniae, Galliae et Gallaetiae , como”bispos de toda Hispania, Gália e Galécia”, esta concepção tripartita encontra ao longo do governo visigodo desde o ano 585, diferenciando mediante diversas fórmulas as três entidades visigodas nos documentos como: fines Spanie, Gallie, Gallecie ou Spaniae et Galliae vel Gallitiae, entre outras. Destaca-se neste contexto a figura de Frutuoso de Braga, bispo galaico de ascendência visigoda, famoso pelas numerosas fundações levadas a cabo por ele em todo o ocidente peninsular, quase sempre em lugares agachados nas montanhas e mesmo ilhas, destacando sua austeridade.

O facto de que a Galécia seguisse a possuir um status especial dentro da monarquia visigoda propiciou que o rei Égica cedesse ao seu filho Vitiza o governo da Galiza (antigo reino dos suevos) desde o 698 até o 702, quando morto o seu pai, assumiu o governo de Hispania e Septimania. Após a sua morte de Vitiza, um sector aristocrático visigodo impediu a subida ao trono do seu filho Axila, impondo pela força a Rodrigo, o que originou um irresolúvel conflito civil entre os seus partidários e os dos filhos de Vitiza. Foi no ano 711 quando os inimigos de Rodrigo lograram que um exército muçulmano cruzasse o estreito de GIBRALTAR e combatesse Rodrigo em Guadalete, onde este foi derrotado, facto que marca o fim do governo visigodo em Hispania, e que terá uma transcendência histórica total para as duas restantes entidades políticas: Galécia e Septimania.

No ano 715 Abd al-Aziz ibn Musa tomou por esposa à viúva de Rodrigo, de nome Egilona intitulada reginam Spanie, confirmando a continuidade dinástica, transferida assim legitimamente ao governador muçulmano. Deste modo, com a conquista de toda Spania pelos muçulmanos, além das suas fronteiras, os emires cordobeses seriam conhecidos com o título de rex Spanie. A partir desse momento começou uma nova concepção geográfica, pois “Espanha” vai ser o nome com o qual se designará o território muçulmano, e Galiza ao território cristão. Assim o historiador Al-Maqqari deixa claro a extensão do domínio muçulmano ao referir-se à conquista do começo do século VIII:

 

Não ficou lugar sem dominar em Al-Andalus se exceptuarmos o país da Galécia.

 

As invasões escandinavas e Vikings (844-1038)

Barco viking (drakar) no Museu naval de Oslo. Grandes frotas de barcos como este assolaram as costas do reino da Galiza durante a Idade Média..

Procedentes de Escandinávia -em especial desde Noruega, Suécia e Dinamarca, vikings e normandos devastaram e invadiram durante séculos as costas europeias, preferivelmente as atlânticas -como as galegas-, chegando também ao Mediterrâneo oriental. Tradicionalmente consideram-se quatro os períodos de incursões ou vagadas escandinavas que afectaram o reino da Galiza durante a Idade Media; a primeira, arredor do ano 844, a segunda (858-861), a terceira (966-971) e a quarta -e derradeira- (1008-1038).

A primeira vagada na Galiza registou-se em 1 de Agosto do ano 844, em pleno reinado de Ramiro I. Procedentes de uma extraordinária disparada de saque por terras frisas, francas, bretonas e cantábricas, atacaram o norte da Galiza, instalando-se temporariamente nos arredores do Farum Bregatium (Corunha), de onde levaram a cabo numerosos assaltos como o que sofreu o mosteiro de São Martinho de Juvia. A intervenção dos exércitos de Ramiro I, comandados pelo duque Argimiro conseguiu expulsá-los de terras galegas,quebrando a frota viking que pouco depois tomava rumo a Al-Andalus.

A segunda incursão escandinava teve por objecto as rias baixas galegas entre os anos 858 e 861. Nesta ocasião, vindos desde os seus assentamentos na Irlanda, penetraram na ria de Arousa com cem naves, acampando nas imediações de Iria Flavia (Padrón). Desde os seus postos, arrasaram Iria Flavia e sitiaram a própria Compostela até a chegada do exército do conde Pedro, que arrasou mais de uma trintena de “dracars”, obrigando-os a fugir.

Pouco mais de cem anos depois -no ano 966-, uma nova frota de vikings dinamarqueses encabeçada pelo nobre Gunderedo, penetrou de novo pela ria de Arousa na que se conhece como terceira vagada viking. Dirigidos a saquear Compostela, o bispo Sisnando II saiu ao seu encontro com um grande exército episcopal, libertando-a a 29 de Março do ano 968 , conhecida como “batalha de Fornelos”, onde o próprio bispo perdeu a vida com uma flechada e o seu exército foi derrotado. Dispersadas as tropas de Gunderedo pelo interior da Galiza (Lugo, Mondoñedo e o Courel), estas foram finalmente rejeitadas por um exército galego ao mando do conde Gonçalo Sanches e do bispo Rosendo de Celanova no ano 971.

Não obstante, foi o intervalo entre 1008 e 1038 quando se sucederam os ataques vikings mais violentos nas costas da Galiza. Depois de devastar Braga no ano 1008, chegava às terras de Tui, uma enorme frota norueguesa ao mando do rei Olavo II da Noruega. Apesar da defesa levada a cabo pelas tropas do duque galego Mendo Gonçalves, estas foram aniquiladas -também o próprio duque- pelos atacantes vikings que assolaram a cidade de Tui e raptaram o seu bispo Afonso. No ano 1028 uma nova frota escandinava entrou pela ria de Arousa, liderada pelo nobre Ulf, mais tarde alcunhado “o Galego”. Longe de ser um mero ataque de saque, as tropas de Ulf serviram como mercenários a aristocratas galegos, permanecendo dez anos no reino da Galiza até a sua expulsão.

O fim da monarquia galego-leonesa (1230)

Representação medieval de Afonso IX, ultimo rei da Galiza e Leão. Na parte inferior representa-se o leão púrpura símbolo da monarquia galego-leonesa.

O facto, no ano 1230, do rei castelhano, Fernando III de Castela, se ter apoderado dos reinos da Galiza e Leão após a morte do seu rei, Afonso IX, marcou um dos acontecimentos políticos mais decisivos em toda a história da Galiza.

Em realidade o conflito remonta-se a anos anteriores, com os dois matrimónios do rei Afonso IX da Galiza e Leão; o primeiro, com a princesa portuguesa Teresa Sanches (1191) -do que nasceram três filhos; Fernando, Dulce e Sancha- e o segundo, com a princesa castelhana Berengária (1197) -do que nasceu entre outros Fernando III de Castela-. A morte inesperada do herdeiro e futuro rei da Galiza e Leão; Fernando, irmão de Dulce e Sancha, e a coroação de Fernando IIII como rei de Castela, impulsionada pela sua mãe Berengária e os nobres castelhanos  contra a vontade de Afonso IX, abriu-se uma profunda disputa sobre quem deveria ser o novo herdeiro da Galiza e Leão.

Já no seu leito de morte em Sarria, o rei Afonso IX selou um testamento de herança onde se moldava a sua última vontade; as suas filhas, Dulce e Sancha seriam as rainhas legítimas da Galiza e Leão após a sua morte, protegendo deste modo a independência política destes reinos e impedindo sobretudo que caíssem nas mãos do seu filho, o rei castelhano Fernando III. Longe de acatar este testamento, e seguindo com a sua política expansionista, Fernando III reclamou os reinos da Galiza e Leão para si, ameaçando em tomá-los pela força numa guerra aberta. Embora a nobreza galega e asturiana estivesse disposta a defender com as armas o cumprimento do testamento real e a proclamação de Dulce e Sancha como rainhas, a aristocracia de Leão (junto os bispos de Lugo, Oviedo e Mondoñedo), mais achegada geográfica e culturalmente a Castela, apoiou maioritariamente as pretensões do rei castelhano, inclinando a balança para Fernando. A sombra de uma guerra civil e o iminente conflito armado contra Leão e Castela forçaram um pacto diplomático entre as viúvas de Afonso IX, motivo pelo que o rei castelhano se apoderava do trono em troca de não invadir a Galiza nem Leão e pagar uma renda anual a Dulce e Sancha em conceito de compensação pela privação dos seus direitos reais.

Galiza (também Leão) perdeu desde este momento uma casa real própria que garantisse a sua soberania e unisse sua nobreza; em contra partida , convertiu-se num reino periférico, governado desde e por Castela e cujas cidades foram perdendo poder em detrimento das cidades castelhanas. Tal situação levou aos nobres galegos a se alterarem em numerosas ocasiões contra Castela, proclamando um novo rei, e mesmo coroando  Fernando I de Portugal, e o inglês João de Gante, como soberanos legítimos da Galiza.

Florescimento e esplendor cultural (Séculos XIII-XIV)

Trovadores tocando um organistrum. Pórtico da catedral de Ourense, século XIII.

Esta é a etapa de maior esplendor da literatura galego-portuguesa. O galego-português converte-se na língua por excelência da lírica em toda a Península Ibérica, excepto em Catalunha (poesia trovadoresca). Propriamente devemos falar de lírica galego-portuguesa, estando em apogeu nos séculos XIII e primeira metade do XIV, quando o galego-português atinge a categoria de língua internacional, já que está presente tanto em autores não só galegos e portugueses, mas também em castelhanos, occitanos, aragoneses, sicilianos, etc. como em cortes reais e aristocráticas (Santiago, Toledo, Coimbra, Lisboa…)

As Cantigas de Santa Maria, composições feitas em louvor da Virgem Maria, são a amostra da vertente religiosa desta lírica galego-portuguesa e constituem o corpus de poesia mariana medieval mais relevante de toda a Península. Foram compostas na corte de Afonso X, o Sábio, que se encarregou da direcção e, em ocasião, da própria elaboração. Exemplificam o prestígio atingido pelo idioma galego-português como língua literária no fim do século XIII.

Em comparação com a lírica, a prosa literária medieval em galego-português é escassa e tardia. É preciso ter em conta que os centros culturais da época eram os mosteiros e escolas monacais, nos quais imperava o uso do latim eclesiástico. Ainda assim, a partir de fins do XIII, e mais significativamente nos séculos XIV-XV, os temas de maior difusão na Europa medieval recolhem-se em língua galego-portuguesa. Amostra são os relatos do ciclo bretão arredor da figura do rei Artur, os textos referentes à história e destruição de Troia, como a História Troiana e a Crónica Troiana; e os Miragres de Santiago, conjunto de relatos que contam desde a destruição de Jerusalém até a milagrosa intervenção do Apóstolo em diferentes situações. Incluem-se alguns textos dentro da prosa, que são traduções ou versões de outras línguas com elaboração própria: Crónica Geral Galega, General Estoria, Crónica Galega de 1404 e Crónica de Santa María de Iria.

4 Comentários + Comentar

Deixe um comentário





Voltar à página anterior Imprimir esta página

Patrocinadores


  • logo_aa

Design e Desenvolvimento - MagicSite Internet Solutions