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MORCEGOS – Carlos Magno de Melo – Médico e escritor

Morcegos.

Carlos Magno de Melo. Romancista.

 

 

Incrédulas leitoras, cépticos leitores, eu estava no aeroporto de Brasília. Tomava café e comia pão de queijo. Nem os saboreava direito. Os revoltantes preços que se cobram nos aeroportos nos tiram o gosto das coisas.

Percebi que um homem me observava. Saí da mesa do café e me dirigi a uma das cadeiras em frente ao portão de embarque. Peguei o celular. Fiquei tentando alguma nova mensagem no Facebook.

         Levei um leve susto quando ouvi um pedido de desculpas. Era o homem que me observava antes. Ele se antecipava, pedindo escusas por me tirar do meu entretenimento.

         Apresentou-se:  Wilson Silva. Antes que eu esboçasse reação, já se adiantou. Perguntou-me se eu acreditava em superstições. Procurei algum traço de anormalidade no olhar do desconhecido. Poderia muito bem não ser regulado da cabeça. O rosto do homem aparentava honesta austeridade.

         Quando abri a boca, ele entrou que ele não acreditava em superstições, mas cria em sinais premonitórios. Falou de morcegos.

         Segundo o Sr. Wilson Silva, de perto pude avaliar-lhe a idade entre 45 e 50 anos, ele levara uma vida normal. Era advogado, tivera uma clientela jurídica muito bem assegurada pelos bons trabalhos desenvolvidos pelo escritório de sua propriedade. Estivera casado com uma mulher bonita, inteligente e bem empregada como consultora florestal. Engenheira agrônoma. Dois filhos. Formaram um próspero casal que frequentava círculo social seleto. Economicamente bem posicionado.

Pois em 5 anos ele foi reduzido a pó. Perdeu a mulher para um emprego na Nova Zelândia. Morreu-lhe um dos filhos. A clientela desmoronou-se. Quando viu, estava na rua da amargura. Pediu-me perdão por usar tão desgastada imagem, mas era do que se tratava.

         Os morcegos. Ainda quando estava casado, ao chegar em casa, abriu a porta. O guincho aranhado. Um morcego passou-lhe rente à cabeça e embrenhou-se na noite. Seis meses depois, teve calorosa discussão com a esposa por conta da oferta de emprego na Nova Zelândia. Eles separaram e ela se foi, levando-lhe os dois filhos, o amor próprio ferido e a metade dos bens na partilha.

Um tempo adiante, ele estava deitado no sofá. Um morcego voou da janela, casa a dentro.  Em três meses, como se fosse um castelo de cartas, seus clientes começaram, por diversos motivos, a cancelar os contratos. Impostos a pagar e a dívida que antes seria perfeitamente sanável – compra do iate – virou pesadelo. Teve protesto de título em cartório, vendeu os imóveis que lhe restavam. Simplificando: acabou falido.

         Quando tentava compreender a catástrofe, recebeu a ligação mais terrível que um pai pode receber. Morrera-lhe um dos filhos. Sem recursos, teve de aceitar a humilhação de ir à Nova Zelândia com as despesas pagas pela ex-mulher.

         Humilhado que já estava, empregou-se em um escritório advocatício. Conseguiu juntar economias suficiente para reabrir seu escritório. As coisas iam correndo bem. Já comprara um pequeno apartamento de dois quartos. À prestação.

         Uma manhã, ao empurrar a porta do quarto, um morcego debatia-se junto à cortina. Ele abriu a janela e com muito custo o horripilante rato voador ganhou a luz do dia. O Sr. Wilson Silva passou a esperar a próxima tragédia. E ela veio a cavalo. Câncer.

         Eu acreditava em premonições? Ele me perguntou. Antes que respondesse, o Sr. Silva me falou que ao entrar no banheiro do aeroporto, viu um grande morcego se debatendo contra as paredes. Indagou-se que, depois de tudo, o que mais poderia esperar, senão, que o avião lhe cairia? Qual o seu voo? Perguntou-me, antes de sair e se encaminhar para o portão 28. O meu portão de embarque.

         Não sou supersticioso. Não voto no pt. Cancelei meu voo.       

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