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Gran finale e Genebra – De Ângela Delgado

sábado, 17 de maio de 2014

Gran finale – Angela Delgado

 

30 de abril

 

Nunca tive senso de direção e não seria em outro país que eu o teria.

 

Como era necessário pegar dois ônibus para ir ao Salão Internacional do Livro, a incerteza sempre baixava: é aqui, ali, esse, aquele? E se eu não memorizava os pontos de ônibus, muito menos diferenciaria rostos rosados pelo frio de motoristas e agentes de trânsito.

 

Bonjour, s´il vous plaît, pour aller au Palexpo, l´arrêt du bus c´est ici, monsieur ?

 

(Bom-dia, por favor, para se ir ao Palexpo, o ponto de ônibus é esse?)

 

– Oui, madame !                 

 

1 de maio

 

– Bonjour, s´il vous plaît, ce bus-ci  m´amenera-t-il  au Palexpo? 
( Bom-dia, por favor, esse ônibus me levará ao Palexpo?)

 

Comme hier, madame ! respondeu sorrindo.

 

(Como ontem, senhora!)

 

O evento do Varal do Brasil na Feira Internacional de livros em Genebra só não foi melhor porque apanhei uma gripe que me deu até febre. A organizadora, muito atenciosa e os demais escritores igualmente simpáticos, música e livros interessantes.

 

Em Genebra, os hotéis oferecem a seus hóspedes um cartão que permite o acesso gratuito a ônibus e tramways, durante todo o período da estada.

 

Em Paris, entre voltar ao Louvre ou ao Quai d´Orsay, optei por estar com uma amiga, que não via há mais tempo do que os museus e que recentemente se casara com um francês. Após a curta estada parisiense, fui ao encontro de minha irmã que mora na Inglaterra. A travessia no trem-bala foi um pouco decepcionante para quem achava que vislumbraria o Canal da Mancha e, “tchum”, mergulharia. Não deu nem para vê-lo. O Euro túnel, na realidade são dois: um para ir e outro para voltar. Trata-se de cinquenta e um quilômetros construídos no subsolo, a cinquenta metros abaixo do leito do mar. Na ida, não houve nenhum aviso. Por acaso, vi pela janela uma plaquinha que passou “voando”: Euro Tunnel. Mas, como, sem ao menos um sonoro Welcome to England? Na volta, os franceses anunciam a proximidade do famoso túnel, para os ingleses agora banal.

 

Na estação de Diss, fui resgatada por minha irmã e seu marido inglês, ambos muito queridos. Fomos para Pulham St Mary, um município encantador, onde fiquei por oito dias, indo passear pelos arredores. Voltamos a Diss, onde fomos a um parque e a um Pub, naturalmente; Harleston, onde comemos em um restaurante indiano, no qual minha irmã quase morre ao mastigar uma pimenta genuína;  Norwich, a capital do condado de Norfolk; Southwold, uma pequena cidade à beira-mar no condado de Suffolk; Cambridge com seus Colleges seculares e alunos famosos, como Isaac Newton, “Qui genus humanum ingenio superavit” e barcos, como gôndolas de Veneza transportando turistas pelo rio Cam, que deu origem ao nome da cidade; Abingdon, cidade no condado de Oxfordshire, à beira do Tâmisa e Oxford com com seus quadros de Van Dyke e Caravaggio entre inúmeros outros e suas universidades igualmente centenárias e célebres alunos.
Enfim, sem me restringir a Londres, percorremos grande parte do vasto , verde e florido Countryside.

 

Isso tudo, para mim, que nunca viajara sozinha, além de um prazer, foi uma vitória pessoal e um exercício para os neurônios. Venci meus medos, tomei as inúmeras providências e tout s´est bien passé.

 

 Aqui me lembro de uma canção do Sacha Distel, narrando o telefonema entre Madame la Marquise e seu mordomo, que lhe assegura que tudo vai muito bem, exceto que o jumento de Madame la Marquise morrera em um incêndio em seu castelo. Daí se intensificam as pequenas desgraças, sempre intercaladas com o refrão à part ça, tout va très bien, até cumular com a notícia da morte do marido de Madame la Marquise.

 

Felizmente nada de tão grave aconteceu no gran finale de minha viagem, exceto que, ao chegar em Brasília, querendo poupar o marido de uma ida até ao aeroporto, peguei um taxi para casa, onde, após ter pago a corrida e o taxi ter-se ido, reparei, horrorizada, que a mala que trouxera não era a minha!

 

Afonso estava mesmo predestinado a ir ao aeroporto nesse dia… Retornando com a mala extraviada, encontramos logo uma mulher que veio ao meu encontro fazendo perguntas, dizendo, esclarecendo que o marido dela estava com a minha mala, a qual havia sido devidamente protegida com o celofane rosa, como a de seu marido, motivo do quiproquó. Abracei-a pedindo mil desculpas e coisa e tal. Tenho que confessar que eu é que me apossara primeiro da mala errada, pois me lembro que fora a primeira a aparecer na esteira, o que me deixara bem contente, em minha ingenuidade do que viria pela frente.

 

 E enquanto, inocentemente, eu me dirigia para casa com uma mala contendo roupas masculinas em vez dos perfumes que eu comprara, minha mala rodava solitária pela esteira, o que suscitara o interesse do segundo personagem deste drama, que dela se apoderou, certamente com um faro detetivesco a perscrutar algum nome ou endereço. 

 

Sorte minha ter isso acontecido em Brasília e não nos países por onde eu pervagara; sorte maior eu morar relativamente perto do aeroporto e sorte com letra maiúscula o fato de que eu não “perdera tempo” no Freeshop, o que fatalmente faria com que o personagem secundário desse drama perdesse a conexão para o Rio e sua cabeça, o que talvez fizesse com que eu tivesse o mesmo destino do marquês.     

Se algum dia eu proteger minha mala novamente, vou querer uma cor exclusiva!

www.bisous.angela.blogspot.com.br

 

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