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A JACA – De Carlos Magno de Melo – Escritor, Cronista e Médico

A jaca

Carlos Magno de Melo- Escritor

 

 Ganhei uma jaca. Semana passada. Uma jaca que nunca vi tão grande. Parecia um sino de igreja. Também, ganhei outros mimos. Cinco cocos verdes. Eu vinha pela rua, a pé. Meu carro estava em frente ao DETRAN e eu na beira do Rio Una. Aqui em Valença. Eu havia descido a ladeira para tirar uma fotocópia de um documento. Serviço só encontrado no centro, lá em baixo. Não surgiu um inteligente ainda para colocar uma fotocopiadora por perto. Ou mesmo o DETRAN poderia oferecer o serviço. Cobrando, claro.

Sol a pino. Uma ladeira de dar desânimo. Dias antes, eu pisara em uma pedra, na praia, machuquei o dedo do pé. Por baixo. Um corte pequeno, uma dor pequena na hora. Depois, aumentou e era pior quando eu caminhava. Doía uma dor de agulha quando eu forçava o peso no lugar. Andava meio com o pé virado para o lado de dentro. Pisava de “meia prancha”.

Quando eu vinha com minha fotocópia e que iniciava a subida da ladeira, parou um carro que descia. Era um senhor risonho. Cumprimentou-me com muita satisfação. Parou o carro e tirou a jaca do carro e me ofereceu, junto com cinco cocos. Um presente. Fiquei sem jeito de recusar, tal a generosidade. Ele pegou um saco velho, parecia que de carvão, e coloco dentro a jaca e os cocos. Eu já carregava uma pasta com documentos. O gentil senhor me abraçou, entrou no carro e logo dobrou a rua, na beira do Una.

Quando peguei o saco, assustei-me. Um peso sem fim. Enrolei o saco e saí, carregando aquilo. Por uma das mão. A pasta na outra. Logo doeu a mão. Coloquei o peso no chão. Troquei de lado. Andei menos de dez metros. Tive de parar de novo. Troquei de mão. Ah, sim, desde o início havia uma velha sentada na porta de uma casa assistindo tudo. Ela ficou lá, olhando. Parecia que mangava de mim.

 Subida tão forte aquela. Subida de colocar segunda marcha no carro. Eu com o pé doendo. Uma pasta de documentos. Um saco sujo de carvão com uma jaca e cinco cocos. O calor de fazer medo. Aquele saco foi ficando mais pesado. Parecia que carregava meus pecados. Chegou uma hora, pensei em largar aquilo ali. A velha, lá, olhando. Meu orgulho seria muito ferido com ela lá da porta dela me espiando. Só por isso não deixei o peso. Fiquei com vergonha de ela me ver fraquejar.  E era justamente o que ela queria ver. Não daria o gosto!

Minha leitora de fragrâncias de lima, meu leitor de desodorante passado ainda agora, eu suava. A camisa molhada. Pregando nas costas. O pé, parecia que havia um coração lá, debaixo do dedão. Minhas duas mãos em carne viva. Pelo menos eu tinha a impressão. Não estava aguentando mais o martírio. Quando uma coisa está muito ruim, pode esperar que piora: o saco começou a se esgarçar. Claro, eu vinha mais arrastando-o do que carregando, exausto. A enxerida da velha, de olho. Deu-me vontade de pôr língua para ela. Ah, eu morreria, mas não daria o prazer para aquela megera. Custasse o que custasse, cumpriria o meu calvário.

Cheguei ao topo, vi meu carro. Satisfação de beduíno vendo o oásis. O saco rasgara de lado. Um coco rolara ladeira abaixo. Uma ovelha desgarrada, pensei melancolicamente vendo-o aos pulos como se tivesse vida e risse e mim. Assim como a excomungada da velha estaria rindo.  Carregava dois cocos aconchegados no braço esquerdo, que também prendia a pasta dos documentos sob a axila. Com a mão direita em fogo, puxava minha cruz, ou seja meu saco, o saco com a jaca e os cocos. Pensava que nunca chegaria ao carro.  Cheguei. Coloquei todo o meu opróbrio no chão. Abri a porta. Um bafo fervente veio de dentro do veículo que quase me derrubou, mas entrei e me refastelei no banco do motorista.  O saco acabou de rasgar e rolou e rolaram cocos. Graças a Deus a velha já não poderia me ver catando aquilo na rua.

Acho que com os mensaleiros aconteceu mais ou menos assim: pegaram tanto que não deram conta de carregar.

 

 

 

 

 

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