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A MENINA E O POETA – De Anna Maria A. Ribeiro

A MENINA E O POETA

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

 O coração deu um tranco e ela murmurou: eu posso levar. Ele mora tão perto… A tia sorri: ótimo! Vou avisar que vai por você. Ela sai agarrada ao embrulho que lhe abrirá as portas da casa do Poeta. Já o havia visto, muitas vezes, em casa da tia ou na sua própria, amigo que era do pai. Mas sempre em jantares e almoços onde são tantos os famosos que ela passa despercebida. Agora em seus 14 anos recém-feitos, fica devorando com os olhos aqueles monstros que são capazes de produzir tanta beleza.  Entre eles o Poeta é o maior. O maior de todos. Idade para ser seu pai, ele tem, é verdade. Mesmo assim o coração bate mais forte. Sonha: se me conhecesse, se me conhecesse bem, faria para mim uma de suas poesias. Uma não! Muitas! E num paroxismo de paixão: todas! Quem sabe agora… Vamos estar sozinhos, eu e ele. E na casa dele! O bonde de Laranjeiras a Copacabana transforma-se no veículo do sonho. Numa tela são projetadas imagens dela e dele, perdidos numa conversa emocionada. Olho no olho. Mão na mão! Outro sobressalto: o que é que eu vou dizer a ele? Meu Deus! Ele vive de palavras e as minhas… Tem que encontrar aquela. Aquela única que vai soar bonito. Instigante. Que vai dar poesia. É isto! Que vai dar poesia. Acorda do sonho quase passando do ponto em que deveria descer. Não o da casa dele. Da casa dela. Tem que se tornar bela para o encontro. Por que é um encontro, não é? Banho, escova de cabelo, perfume “Mais Oui”, tão sugestivo. Pinga algumas gotas no embrulho. Por que não? Afinal passará das mãos dela para as dele. É o elo. A ponte. O motivo. O pretexto. Espera o anoitecer mais romântico e vai a pé.  Não sente o chão. Vai flutuando pensando na primeira frase que dirá docemente provocando: lembra de mim?  Provocante e ao mesmo tempo de bom gosto. Não lhe passam pela cabeça as respostas mais prováveis: você é uma das sobrinhas, não é? Ou então “não é a filha de…? O “uma das” e o “filha de” seriam mortais.  Mas ela não se dá conta de que poderiam ser estes os ditos. Ao contrário as respostas que imagina são lindas: de há muito observo você. Não tive coragem de… De que, Meu Deus? Não! Vai ser só “de há muito a observo”. E ela dirá provocativa: por quê? Por que me observa tanto? Ai, sim, ele…ah.. ele… Vem a emoção do que se seguirá e aperta o embrulho contra o peito. Assusta-se com a intensidade do perfume. E se ele pensar que foi posto pela tia? Que horror. Por que foi fazer isto?! Agora não tem mais jeito. Mas se ela chegar bem perto dele, bem perto mesmo ele vai sentir que é o seu perfume. Fica alguns minutos parada em frente ao prédio. Precisa curtir a emoção mais um pouco. Naquele mesmo lugar quando partir, noite alta, o mundo estará mudado. Nada mais será como antes. Quem sabe vai levar consigo um poema? Pequeno que seja, mas dela. Aperta a campainha e ajeita o doce sorriso. É uma empregada! Que droga! E agora? Corajosa declara: é pra entregar em mãos! A mulher some e ela examina a sala onde ele vive e onde, quem sabe, fabrica os versos andando de um lado para outro, olhando às vezes pela janela. Assusta-se com a voz: como vai menina? Sua tia me disse que vinha. Já está uma moça, heim? As mãos avançam para pegar o embrulho que ela estende em mudo desespero. Cruel, indiferente ao sofrimento dela, ele continua: estava ouvindo o jogo do Fluminense. Você gosta de futebol? Mas senta aí. Quer uma laranjada? Deixa-se cair no sofá derrotada, humilhada pelo futebol e naufragada na laranja. Um poeta?! Pode isto?! Não só pode como piora: e seu pai, como vai? Faz tempo que não o vejo. Passa da conta! Tem que meter pai no meio? Sufocada sente que vai chorar. Levanta-se e diz a frase que nunca imaginou dizer: tenho que ir. Vim só entregar. Ele sorri: você foi uma flor em trazer. Me fez um enorme favor.  Uma flor? Quem sabe ainda há esperança? Mas ele continua impiedoso: já está uma moça mesmo. Andando por ai sozinha… trazendo encomendas. Que frase idiota. Cretino, ela pensa. Velho cretino! Sorri falsa: boa noite!  Ele a acompanha até a porta que felizmente se fecha antes que as lágrimas comecem a brotar. O desencanto e a raiva conduzem seus passos rua acima. O chão agora é sólido, duro. Já é noite e as pessoas passam apressadas ignorando que ali está alguém que sofre a tragédia do amor traído. Em casa tranca-se no quarto para sofrer. Sofrer bastante. Meio ao sofrimento as batidas do irmão na porta: tão chamando pra jantar! Gente insensível! Como é que se pode comer numa hora destas? Para piorar a mãe havia falado ao telefone com a Tia: ela me disse que você foi entregar um livro que ela mandou. Esteve com ele? Antes de responder, pensa: esta família não respeita a intimidade das pessoas.  Responde lacônica: estive. E o pai se encarrega de piorar: há tempos não o vejo.  Sabia que ele também é Fluminense? E ninguém entende porque ela se levanta derrubando a cadeira.  Não sou fluminense. Odeio futebol. E ele é um velho gagá. Subindo a escada em lágrimas, com vontade de morrer, ainda escuta a voz do pai perguntando à mãe: quando é que vão cessar estas crises de adolescência?  E por que raios dão sempre na hora de jantar?

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