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A Trágica Cura da Timidez – Por Anna Maria A. Ribeiro

 

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

A história se passa por volta de 1941 Para alguns dos leitores, acredito, esta é uma data jurássica. Não para a hoje provecta senhora que, naqueles idos, recém havia completado onze anos. Na passagem dos dez para estes onze anos uma monumental mudança havia ocorrido: a timidez que a atormentara desde que se entendia por gente escafedeu-se graças ao tratamento de choque empreendido pelos extraordinários educadores do colégio americano para o qual a haviam transferido os pais na esperança de vê-la curada. Era um colégio “moderno” onde atividades extraclasses proliferavam. Entre estas um núcleo de teatro orientado por nada menos que Jaime Costa (ator cômico famoso da época) possibilitou que ela incorporasse a personagem de Strombolli (algoz de Pinóquio) escondida atrás de monumental barriga e enorme barba que lhe escondia o rosto. O anonimato, já que irreconhecível, permitiu que ela conseguisse mover-se no palco sem medo. Iniciava-se uma carreira. É verdade que só poderia aceitar papeis em que o disfarce tornasse impossível seu reconhecimento. O início da tragédia se deu quando Madame Jacobina (professora de francês) resolveu encenar uma adaptação infantil de Cyrano de Bergerac. A menina exultou. Já naquela idade ela falava francês. Quer dizer, a pronúncia era impecável. As palavras e o sentido nem sempre. Havia aprendido alguma coisa de muito ouvir pais e tios que, sabe-se lá por que causas, vez por outra se expressavam neste idioma não sendo franceses. Sobretudo quando não queriam se fazer entender pelas crianças. Isto fez com que estas (as crianças) se empenhassem em adquirir proficiência nesta língua para ficar por dentro de histórias escabrosas como a da gravidez da filha da prima Leontina antes do casamento. Mas voltando ao Cyrano: o personagem além de homem tinha aquele enorme nariz e uma cabeleira. Perfeito para esconder físico e revelar talento. Ainda por cima Roxane seria interpretada por sua melhor amiga – apelidada 1300 por que as iniciais de seu nome completo eram MCCC.  Tinha certeza que levaria o público às lágrimas quando da morte do herói. Empenhou-se furiosamente nos ensaios (para os quais exigia a caracterização). E eis que um belo dia percebe que não mais precisava do disfarce. Maravilhada consegue encarar a todos com o rosto limpo, falando alto, fazendo-se notar. Era o paraíso! E este falar alto fazendo-se notar começou a ser uma tônica. De excessivamente tímida passou a excessivamente se mostradora. Até hoje não entende por que este desvio também não sofreu correção por parte dos professores. Vai ver eles se maravilharam com a transmutação que havia ocorrido. Exigiu seu nome no programa da peça em letras garrafais. Não foi atendida em toda extensão de seu desejo, mas conseguiu um destaque razoável. Isto provocou certo mal estar com MCCC que queria ser objeto de igual destaque. Condescendente ela explicou à amiga que seu papel (dela) era secundário o que provocou recrudescimento do mal estar que se transformou em total beligerância para desespero de Jaime Costa e de Madame. Ela estava pouco se importando. Com Roxane ou sem Roxane, Cyrano iria brilhar na constelação dos grandes atores. E eis que chega o grande dia e o sucesso se revela. MCCC imbuída de um profissionalismo espantoso serviu perfeitamente de escada para um impecável Cyrano que, a bem da verdade, quase arranca as lágrimas que prometera conseguir. O sucesso foi tanto que Madame entusiasmada resolve promover um outro dia de espetáculo para o qual seria convidado o Cônsul francês, seu amigo. Era a glória! Interpretar Cyrano para um diplomata francês; era a garantia de um sucesso internacional e quem sabe a possibilidade de uma viagem à França para apresentar a obra. O fato de aquele País estar ocupado por tropas alemãs em nada prejudicava o sonho que, como todo sonho que se preza, se revestia de aspectos impossíveis. Deixaria a família e iria de navio e passaria a integrar o elenco da Comèdie. Antes da apresentação Madame reúne o elenco e explica que certamente após o espetáculo o Cônsul as iria cumprimentar e seria conveniente que se empenhassem em responder em francês. Foi ai que a coisa pegou. Ela tinha apenas dois dias para encontrar uma frase de efeito que deixasse o Cônsul embasbacado, o que terminou por conseguir como veremos adiante. Corre à biblioteca do Pai e de lá tira vários volumes em francês que febrilmente consulta. Procurava diálogos em que houvessem frases terminadas por um ponto de exclamação. E eis que acha um tesouro: um personagem sobre o qual não tinha qualquer referência diz uma frase curta e exclamativa que provoca nos interlocutores um Ohhh que ela, desgraçadamente, atribuiu a uma inegável admiração diante da verve e do inusitado. É esta, decide ela! O sucesso da apresentação se repete e o Cônsul sorridente se aproxima para felicitar o elenco. Dirige-se a ela, ainda caracterizada, e diz algo que ela não julga necessário entender já que fosse o que fosse teria como resposta a frase de efeito. No silêncio que se fez, com sua irrepreensível pronuncia, ela solta a declaração que julga digna de um Cyrano: ta gueule, connard!!*

*Numa tradução livre: fecha a matraca, babaca!                   

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