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ACONSELHAMENTO DA VEINHA – Por Anna Maria A. Ribeiro

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro Já estávamos nos preparando para partir quando o líder do acampamento de sem terras aproximou-se. Uma extraordinária modificação havia ocorrido em sua postura, há poucos minutos, orgulhosa e altiva: estava visivelmente constrangido. Era evidente que queria nos dizer alguma coisa, mas as palavras só saíram quando o acampado a seu lado lhe mandou um cutucão nas costas. E veio deliciosa declaração, dirigida a meu colega, funcionário do INCRA, velho conhecido de todos por ali: “Meu companheiro aqui quer um aconselhamento da veinha”. Falta de outra pessoa a “veinha” devia ser eu mesma. Mas um aconselhamento?! Logo eu que tenho o maior problema em interferir até com os filhos e netas já adultas (gastei todos os aconselhamentos possíveis na fase da adolescência dos primeiros). Mas, fazer o quê? Não tinha outro jeito e o olhar interrogativo de meu colega foi respondido por minha desanimada aquiescência.

Sentamo-nos no chão, à sombra dos buritis, com a seriedade exigida pela expressão grave e preocupada dos dois interlocutores, e aguardamos o relato do fato que demandava o aconselhamento geriátrico. O cutucão inverteu a direção, provocando a fala do “companheiro”. Devia ter entre 45 e 50 anos. Nunca se sabe naquele agreste. O sol e a vida castigam demais. Poderia até ter menos. Os olhos e a voz eram doces e tristes. Muito tristes. E a história – ai Meu Deus! – mais triste ainda. Esperava-se de mim a solução que muitos homens e mulheres, daqui do nosso lado da vida, buscam em vão. Difícil mesmo! Qualquer que seja a condição social que se tenha. Selmira, sua mulher desde os 17, o havia traído. E logo com quem! Faustino! Seu compadre! Um horror! Horror maior era o motivo do aconselhamento: ele não queria, não podia deixá-la. Seria fácil se conseguisse. Nada que uns bons tabefes não resolvessem ao expulsá-la de casa. Mas podia fazer isso, não! Irremediavelmente gostava dela. Gostava demais. Gostava de doer. Exigia – pobre de mim – que a ouvisse e encontrasse nas palavras dela o motivo que lhe permitiria continuar a sentir o cheiro de seu corpo na rede de todas as noites, sem perder a face. Sem a desmoralização que era certa. Alguma coisa que justificasse, que tornasse aceitável, e que fizesse com que o respeito com que sempre o trataram não fosse perdido. E para isto minha experiência de vida devia servir. “Você não gostava de em antes de morrê levar este bem-feito pro céu?” O argumento foi definitivo. Com o pé à beira do túmulo, preparei-me para agregar este bem-feito aos poucos outros que juntei pela vida. Nunca se sabe, não é? Não tinha eu, naquele momento, a menor inspiração para encontrar o argumento mágico que fizesse de Selmira uma convincente Madalena do agreste. Mas Deus havia de ajudar. Afinal era um bem-feito inédito, de responsa!

Insegura, diante do sorriso franco e bonito de Selmira, deitei falação. Tudo que me veio à cabeça. Agarrei-me àquele amor declarado, àquela precisão de não perdê-la. Até me emocionei, confesso. Exausta, e já achando que não iria contar com aquele bem-feito na hora do acerto de contas final, parei. E foi aí que Selmira deu uma gargalhada gostosa. Confesso que fiquei chocada. Selmira! Uma cínica! Que droga! Aquele homem bom não merece este traste! Abandonei todas as minhas convicções feministas e transformei os tabefes numa surra exemplar. Declarei com a maior frieza e desprezo: “Isto não tem graça nenhuma, Selmira!” E então aconteceu a confissão que me levou e – espero – me levará aos céus!.

“Se avexe não, dona! Foi uma veizinha só! Em cima do forno de farinha e… eu nem gostei”.             

Incrível poder de síntese! Como levar a sério um local como este? Forno de farinha desmoraliza qualquer intercurso. E o “nem gostei”?! O compadre, este sim, teria que se haver com a desmoralização a que será exposto a partir de agora, e pra todo sempre, pela sabedoria de Selmira. Perdi completamente a compostura e saí correndo aos gritos, em direção aos três homens que, de longe, aguardavam o resultado de meu aconselhamento: “Ela nem gostou, moço! Ela nem gostou!”

Peguei meu colega pela mão e praticamente fugimos desabalados, levantando poeira, antes que o compadre Faustino, animado por minha competência, viesse demandar um aconselhamento para livrá-lo da pecha que o acompanharia até o fim de seus dias!    

 

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