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AMIGOS – Por Anna Maria A. Ribeiro

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

Barney Kessel me emociona nesta mais uma tarde. Faz tempo, muitotempo mesmo que o ouvi pela primeira vez. Desde então todas àsvezes descubro algo novo, nuance antes não percebida. Hoje, em meio àextraordinária execução em ré de Love is Here to Stay, descubro uma nota blue trazendo o inesperado na harmonia. Os apaixonados por jazz e blues sabem do que estou falando. Para os demais é importante que eu esclareça o que é esta nota.  A blue note surgiu de uma briga entre as escalas pentatônica africana e a diatônica européia. Os catadores de algodão de origem africana cantavam nos campos usavam a escala pentatônica. É claro que cantavam sem o acompanhamento de instrumentos. Mas eis que esta cantoria começa a chamar atenção de músicos que com os instrumentos fabricados na Europa e, portanto apropriados para executar a escala diatônica, tentaram em vão reproduzi-las. Empacaram no conflito entre as duas escalas. Para superar o problema os músicos Afro-americanos introduziram na escala diatônica a blue note que, fora da escala, traz um inesperado colorido à musica. E eu me pego pensando meus amigos são blue notes! Inesperadas pessoas que fora da escala me trazem o encanto e a harmonia da vida. Não são muitos, não. Nem poderiam ser por que são raros, especiais, caros. E o que é raro, especial e caro, é escasso. Não vou nomeá-los. Eles sabem quem são e vocês não teriam deles a mais pálida descrição só lhes conhecendo o nome. Impossível descrevê-los em grupo. São tão diferentes. Profissões, idades, maneiras de ser, formas de encarar a vida as mais variadas e até discordantes. O que menos me chama atenção em cada um deles é o aspecto físico embora alguns sejam belos. Do que mais me lembro quando ausentes, é a voz. O jeito que dizem meu nome na surpresa gostosa da frase: vou dar uma passadinha aí. De passadinha em passadinha, lá e cá, construímos um mundo nosso onde conversas rolam, onde apoios são dados gratuitamente, onde discordâncias e alertas são feitos, onde dizer “não” é permitido a todos sem mágoas ou recriminações. E criticas também, por que não?  O mais recente surgiu a cerca de dez anos atrás. O mais antigo há mais de quarenta. E todos sabem de mim, mesmo quando distantes (para minha saudade uma está nesta condição permanentemente).  Saber da gente é muito importante: só assim o que eu digo, seja o que for, é entendido em seu real sentido. O subtexto é claro para eles. Como o deles é para mim. Fica fácil conversar assim, não é?  Não há a menor necessidade de explicações, traduções, esclarecimentos. Como isto é confortável! Mesmo quando discordamos, e isto é freqüente, a coisa fica gostosa.  E não são carpideiras, não, os meus amigos. Se a coisa vai bem se alegram comigo e se vai mal me tiram do buraco, até com violência. E, sobretudo me fazem rir. O que é ótimo. A vida me concedeu muitos privilégios. Sem dúvida meus amigos é um dos maiores. Recentemente me descobri, ou melhor, conceituados laboratórios descobriram, que estou com um câncer de tireóide. Um câncer um tanto desmoralizado, é verdade. Mas a palavra “câncer” costuma causar certo pânico nas pessoas. Mas meus amigos não são apenas pessoas. Não dando a menor bola para a palavra “câncer” resolveram, do dia para noite, se tornaram especialistas neste mal. Um espanto! Mesmo porque apenas um deles, na verdade uma delas, é médico. Mas os demais, das mais diversas profissões, igualaram-se a esta em conhecimento e pelo que pude depreender já estou curada, embora se tiver que me submeter a todos os tratamentos sugeridos não farei outra coisa nos próximos dez anos. Há uma séria divergência entre eles que é calorosamente discutida não tendo a maioria a menor consideração pelos argumentos da médica. Cirurgia, radioterapia e quimioterapia são defendidas calorosamente com espantosos argumentos. Mas o fato é que já me sinto curada. Ao mesmo tempo em que descrevem os tratamentos fazem planos para atividades pós cura para daqui a vinte anos o que é, digamos, é um exagero face aos meus 80. Mas o gostoso é que nenhum deles arregalou os olhos e fez drama com a notícia. Pelo que sei andam brigando entre si sobre o médico que deveria orientar o tratamento já que cada um conhece ou teve notícias de um maravilhoso. Mas, como sempre, respeitam minha escolha embora cada um deles declare que sou uma imbecil por não ir ao Dr. XXX. Morrem de rir do meu medo de fazer biópsia por causa da agulha (tenho medo delas) e nada fazem para diminuí-lo. Ao contrario vaticinam momentos terríveis. Incrivelmente isto ajuda a colocar as coisas em suas devidas dimensões. Este comportamento não é intencional ou proposital. É natural. E isto é que é bom. Uma cascata de blue notes soa trazendo paz, calma e harmonia. Não agradeço, não. Mesmo porque sou assim para eles também. É uma rua de duas mãos aquela em que transitamos. As vezes o transito é maior num sentido e todos correm para lá. De repente inverte e ninguém se desorienta ou perde o rumo. Competentes que somos vamos sempre chegar a bom porto. Talvez nem sempre inteiramente sãos e salvos, já que arranhões da vida são de lei. Mas sempre confortavelmente protegidos pela harmonia que criamos.  Ah! Barney Kessel desta você teria inveja!

E-mail: annadeassis@gmail.com 


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