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AMORES IMPOSSÍVEIS ? – De Anna Maria A. Ribeiro

 

 Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

Anna Maria Ribeiro

Uma encantadora amiga me escreve sobre amores impossíveis. Não menos encantador e quase no mesmo momento um amigo me alerta para o que não foi e poderia ter sido.  Não fiz uma ponte entre os dois dizeres. Só hoje, descendo a Rua Voluntários da Pátria, os percebi unidos num mesmo pensar. Em sentido contrário vinha um casal estranho. Ela, já passada em anos, nada bonita e ele bem mais jovem e muito, muito bonito. Os gestos, os olhares, o clima, tudo negava a  existência de uma relação mãe e filho ou amigo e amiga. Que casal mais impossível, pensei. Imediatamente veio a censura: deixa de ser preconceituosa! Sorri para eles em penitência de meu mais que condenável julgamento. Eles sorriram de volta e passaram por mim sendo substituídos por meus dois amigos que agora se  encontravam sem que se conhecessem. Os amores impossíveis são aqueles que não foram e poderiam ter sido? Esta idéia nunca me foi grata. Amores são amores. Todos possíveis porque alguém os sente como tal: como amor. Correspondidos ou não, com obstáculos ou não à correspondência, não deixam de ser amores. Sólidos, verdadeiros e mais que existentes. Apenas não foram o que poderia ter sido. Mas aí outro problema: será que poderiam ter sido? Creio que não. O poderia ter sido é coisa pra lá de inexistente. Se não foi é porque não poderia ter sido. E então me veio de novo a pergunta recorrente para a qual nunca tive resposta: destino, acaso, sorte, o que são? O que significam? São orquestrados por alguém? Por algum deus esquisito que, contrariando Einstein, joga dados? A moça triste indo ao supermercado, distraída, toma a rua da direita e não a da esquerda como sempre faz; pouco adiante esbarra num jovem alegre que vem em sentido contrário; ele acha graça; conversam e se apaixonam perdidamente. A pergunta é: o que fez a moça tomar a rua da direita? A verdade é que os grandes acontecimentos da vida ocorrem porque tomamos a rua da direita. Ou não ocorrem quando vamos pela esquerda. Esta constatação é pirante. Por dever de ofício passei a vida levantando a possibilidade lógica da ocorrência de erros e acertos. Deu certo? Até que deu… nos sistemas informatizados. E na vida? Aí é outra história: o acaso desempenha com uma enorme significância o papel do personagem que determina a ocorrência das coisas. As mais sérias, as mais importantes. E é então que algum deus joga dados, sim. Quando sou acometida destas elucubrações torna-se difícil decidir por qualquer ação: vou pela direita? Vou pela esquerda? Desorientada e insegura entrego a grande decisão, por exemplo, a uma aranha que vejo num muro atribuindo-lhe o papel deste deus inconseqüente: se ela subir no muro vou pela direita; se ela descer, vou pela esquerda. É verdade que a maluca da aranha vez por outra vai para o lado devolvendo-me ao suplício da dúvida. Mas voltando aos amores impossíveis: dois ficaram gravados em mim e provocam, até hoje, uma grande emoção. Ambos me arrebataram aos 14 anos. De nenhum dos dois me aproximei. Os via de longe, coração na boca. Um deles me fez emagrecer muito, o que foi um ganho marginal. Isto porque a oportunidade de vê-lo só ocorria na hora do almoço no Colégio Bennett. Semi-interna eu almoçava lá. Ou melhor não almoçava porque me deixava ficar no jardim olhando para uma janela do quinto andar do edifício que dava fundos para o colégio só para ver aparecer o irmão mais velho de uma colega, objeto de meu delírio. Lindo de morrer. E ia entrar para Escola Naval! Um dia a colega trouxe para o colégio fotos dela em pequena. Numa delas o belo rapaz aos sete anos me sorria. E eu roubei a foto! A confissão deste ato terrível não me envergonha. Eu estava apaixonada, gente! Do outro amor até informo o nome, por notório: Heitor Alimonda. O pianista. Eu estudava piano, obrigada por um acordo que fiz com mamãe: se estudasse piano como convinha, poderia estudar também violão o que por uma inexplicável censura materna, não convinha. Minha professora levou-me a um concerto do Heitor. E, num alumbramento, entre prelúdios e fugas me cai de amores. Não sei se em casa perceberam minha delirante paixão. Acredito que sim porque eu exibia no quadro de cortiça de meu quarto uma espantosa quantidade de fotos dele cobertas de bocas de batom, gastava toda a mesada comprando seus discos e implorava em desespero minha presença em todos os seus concertos. Mas pai e mãe tiverem o bom gosto de nunca comentar nada. E foi assim que, muitas noites, antes que o sono viesse eu me via singrando os mares com o futuro oficial de marinha, vento nos cabelos, em pé na proa, enquanto ele no leme, com um olhar apaixonado se deslumbrava com minha desafiante figura. Depois me tornei musa inspiradora do pianista sentada na primeira fila de seus concertos mundo afora (sei lá eu por que a maioria dos concertos realizava-se na Rússia). Ele tocava só para mim o que era percebido por enormes platéias embasbacadas por tão imensa paixão. Esses amores não eram impossíveis. Mais que possíveis eu os senti. Verdadeiramente os senti. Me dirão talvez: coisa de adolescente! Mas guardadas as devidas proporções foram sentidos, e tão verdadeiramente quanto, por quem não mais o é. Poderiam ter sido? Não! Claro que não! Tomei a rua da esquerda e não da direita. Mas foram o que foram. E valeu! Como valem, preciosos, todos os amores que foram tão somente o que puderam ser.     

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