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As Argolas e a Memória – Por Anna Maria A. Ribeiro

Foto do perfil de Anna Maria Assis RibeiroUma empregada negra gira em torno da mesa. Impecavelmente uniformizada e de avental. Caminha lenta e solene retirando de um cesto de vime guardanapos envolvidos por argolas de marfim com números incrustados em metal dourado. Atenta, ela consulta o número de cada uma antes de colocá-la sobre o prato num ordenamento ilógico.  A última a ser colocada, à cabeceira da mesa é a argola numero 2. É a da Avó.

 

A lembrança vem nítida. E com ela a mesma sensação de segurança, de pertencer, de ser alguém, provocava pela colocação da argola 17. A sua. Entre as de número 10 do Tio Cavaleiro e 13 da prima mais querida. Ao contrário das argolas que indicavam o surgimento da pessoa na família, ou por nascimento ou por casamento, o critério da  posição de cada um à mesa nunca foi revelado. A partir de certa idade começou a desconfiar que a ordenação representava a ordem de preferência da Avó. Não fosse assim por que o tio Cavaleiro, que era o mais moço, ocupava sua direita? Dele a Avó dizia: ponho todos num prato da balança e ele no outro. E o equilíbrio se dá!  Absurdo aceito com naturalidade por todos sem o menor ressentimento. À esquerda a Tia Literata. A argola 1 havia sido do Avô, morto muito antes dela nascer e ocupava lugar na mesa de cabeceira do quarto onde morrera, mantido exatamente como no momento da morte. Duas outras argolas provocavam uma lacuna na numeração: a 5 e a 9 pertencentes aos dois tios que não conhecera. Morreram ainda crianças. Fechando a fila a argola 23 da pequena filha do Tio Cavaleiro, última figurante da terceira geração. A Avó ainda vivia quando despontaram 5 bisnetos. Mas esta quarta geração não foi agraciada com argola. Quem sabe a Avó, onisciente que era, sabia que com sua morte o clã seria desfeito. Argolas seriam impossíveis porque a mesa iria desaparecer como tudo mais.

 

À mesa conversa gira animada quando se escuta o guizo de uma charrete. Um silêncio aflito instala. O som do guizo cessa e um empregado esbaforido entra com uma garrafa de cerveja nas mãos e a coloca em frente do Tio Pediatra que está tirando o guardanapo da argola 11.  Ele abre, enche o copo. O empregado dá um passo atrás e aguarda alguma coisa. O Tio prova e num acesso de fúria arremessa o prato pela porta janela em direção à varanda. Aos berros denuncia: está choca! Quando é esta droga de luz chegará? Geladeira. Exijo uma geladeira! Ouve-se a voz da Avó, ordenando à empregada, sempre a postos atrás de sua cadeira: outro prato para o Doutor. E ao som dos caquinhos do prato arremessado que são varridos pelo empregado na varanda, a conversa retoma alegre.

 

A argola 8 pertencia ao Tio Jogador. Seu lugar à mesa tinha uma disposição diferente para que pudesse ser colocado ao lado do prato o minúsculo tabuleiro de xadrez que sempre o acompanhava quando não estava frente ao grande tabuleiro-mesa que ocupava um lugar num dos cantos da sala de estar.  Só deixava de estar em frente a um deles quando numa mesa de poker ou de bridge onde iniciava os sobrinhos nestes jogos garantindo assim parceiros não conseguidos entre os irmãos. Mesmo para o xadrez éramos aliciados. Aos 7 anos ganhávamos deste tio um tabuleiro e peças de xadrez e enquanto ele lia jornal jogava conosco partidas simultâneas em que cantávamos nossas jogadas e recebíamos de volta as suas sem jamais conseguirmos uma vitória.

 

A argola 21 pergunta: em que parte você está? Refere-se o Tio Literato ao À La Recherche Du Temp Perdu, de Proust. A tarefa literária daquele verão. Ela engole em seco: está detestando o livro. O Tio Cavaleiro pisca o olho maroto sugerindo: enrola qualquer coisa. A Tia Madrinha vem a socorro: este seu namoro está ficando sério. Ele vem jantar hoje?

 

Os visitantes também tinham argolas idênticas às outras, mas sem número.  O namorado que se tornou marido foi agraciado com uma quando preencheu a condição. A esta altura já se estava no número 26. As duas primas mais velhas haviam casado antes.

 

Deita a cabeça no colo da Avó. São mágicas as argolas? Quando você comprou como é que sabia quantas seriam? Quantos números você ainda tem? Ela sorri. Aquele sorriso fino e enigmático de sempre e responde: tenho tantas quantas forem necessárias. Seu olhar percorre a sala onde estão todos conversando animados. Alguns com pequenos no colo. Não necessariamente seus filhos. Os colos eram comunitários. A gente se apoderava do mais a mão. Ainda com o sorriso, depois de olhar longamente para cada um, ela declara: mágicas? Vai daí quem sabe, meu bem. Talvez sejam. 

Mais um salto na lembrança.

Ainda que nascido sob o advento do Ventre Livre ele foi um dos presentes de casamento, ofertados a minha avó, pelo sogro! Nós, as crianças, o chamávamos Seu Davi, conferindo-lhe a senhoria, o que era muito estranho. Por que, contrariando os costumes da época, isto nunca nos foi exigido para o tratamento dado a qualquer membro da família: bisavô, avó, pais e tios eram por nós tratados de “você”. Mas foi-nos determinado que Davi Pereira de São Lázaro deveria ser tratado por “senhor”! Pereira porque filho de escravos desta família; São Lázaro por ter nascido na data do santo. Do Davi não sei a origem, mas certamente foi escolha de meu bisavô (Vovô de Barba ou Vovô de Uva, como eu o chamava). Hoje vendo as fotos Seu Davi já não parece ser o gigante poderoso que me protegia contra todo e qualquer mal. Em público eu era por ele tratada de Sinhaninha; intramuros, de Capetinha. Um de meus mal feitos que justificava o apelido era pedir que me trouxesse um copo d’água sempre que visitas apareciam na sala de minha avó: ele executava a “ordem” com perfeição, trazendo o copo numa bandeja de prata, curvando-se respeitosamente enquanto eu bebia e majestosamente concedia um agradecimento. Assim que as visitas saíam, ele, furioso, me recriminava: quando quiser beber água, Capetinha, vá buscar com seus pezinhos. Já se viu! Não foi assim que nós educamos nossos filhos!  O possessivo se aplicava a tudo e a todos: as pratas do “nosso” casamento (que ele fazia brilhar chegando a doer nos olhos); “nossos” empregados (sobre os quais exercia uma terrível tirania); e nós, as crianças, os “nossos netos”. Apoderara-se da família como se dele fosse. Seu Davi era analfabeto e havia resistido a toda e qualquer tentativa de aprendizado. Mas, aos domingos, enfarpelava-se e munido do Jornal do Comércio, empreendia uma viagem de bonde do Largo dos Leões ao centro da cidade, fingindo ler. Era um extraordinário mordomo/copeiro: a mesa posta e servida à francesa por Seu Davi era um primor!  Nós, crianças, com ele aprendemos a assim ser servidos. E, nesta mesa, diariamente nos deliciávamos com um de seus extraordinários comportamentos, este motivado por não aprovar o casamento de uma de “nossas filhas” com um “nosso genro”. Ao servir este “nosso genro” Seu Davi, invariável e propositadamente, esbarrava em seu ombro! Este incidente era ansiosamente aguardado pelos demais membros da família que voltavam os olhos para o ofendido assim que dele Seu Davi se aproximava. Esta manobra repetia-se muitas vezes, sempre seguida de um ligeiro franzir de testa de minha avó que nunca verbalizou qualquer censura. Mesmo porque as reservas dela ao “nosso genro” eram as mesmas! Mas não parava por ai: ao trazer as lavandas, a do infeliz genro era sempre a última ser depositada, subvertendo a ordem e sempre trazida após um intervalo calculadamente longo. Criava assim um suspense: viria ou não? Minha avó e Seu Davi tinham um único ponto de discordância e este era seriíssimo deixando ambos muito irritados e belicosos quando vinha à baila. E vinha a baila a troco de tudo: qual dos dois era o mais velho? Era certo que apenas um ano os separava, mas a dúvida, nunca esclarecida, era quem havia nascido primeiro. Farpas, indiretas, ironias e insinuações eram trocadas constantemente. Nunca tivemos coragem de tomar partido embora isto nos fosse enfaticamente solicitado por ambos. No mais concordavam em tudo. No dia em que se foi, sua condição de livre e igual foi atestada pelas palavras de minha avó, que pela primeira vez e numa extraordinária e nunca mais vista exceção, deixou-se flagrar chorando em desespero: hoje, perdi meu maior e grande amigo…  e era apenas um ano mais velho do que eu! E porque nunca mais seria sentido no casarão o cheiro de café torrado e moído na hora, trazendo aquela sensação de conforto e proteção, “nossos filhos”, “nossos netos” e até “nossos genros” se perceberam órfãos.  

 Anna Maria Assis Ribeiro <annadeassis@gmail.com>

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