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BARCO – De Carlos Magno de Melo

Barco

Carlos Magno de Melo – escritor.

carlosmagnodemelo@hotmail.com

Estava sentado em um banco de madeira sob a imensa, enorme e frondosa árvore. De lá, podia ver a igrejinha, bicentenária, pintada de branco e azul. Pela minha frente a paisagem se derramava em azul, lá embaixo. O mar e o céu. Azul e sem ondas. Um espelho. O céu, azul e sem nuvens. A brisa. Havia passado um tempo depois do meio–dia. O cais estava com pouco movimento. Alguns barcos atracados e um e outro recebendo passageiros ou desembarcando-os. Calma que eu absorvia. A leste, o Morro mostrava a exuberância do verde. E dele, como que saia o mar, ao sopé. Ao longe, bem ao fundo, do outro lado da baía, as serras se fundiam com o tom acinzentado e azul esmaecido. Mais próximo, uma nesga de verde e outra de branco. E o mar.

                Uma lancha saiu do cais e rompeu. Deixou um rastro branco na água. Lembrei-me do rastro branco que os jatos deixam no céu. Enquanto eu me deleitava com a lancha, entrou em cena, vindo do leste, a elegância de um veleiro. Leve quanto se fosse um cisne. O casco esguio, negro. Quando o balanço jogava o barco para cima, em suavidades, aparecia o casco mais profundo: vermelho. As velas, duas, compridas, tensas e belas. A leve gangorra do mar calmo. O barco seguia, sem alarde. Sua quilha não abria a superfície da água, senão o suficiente. Não jogava água.

                Eu tirava os olhos e os colocava em outro ponto. Voltava ao barco, que parecia muito devagar, só parecia, pois tão logo botava-lhe os olhos, ele já avançara. E muito. A aparente vagareza. A paciência e a certeza da capacidade para cumprir a missão. A missão de atravessar aquele campo de paisagem marinha para que eu o observasse e me deleitasse.

                Quedei-me a mirá-lo. Fixei-me nele. Só aquele barco na paisagem imensa. Azul de céu. Azul de mar. Velas bancas. Casco negro, o fundo vermelho. O jogo da água. O seguir em frente como se estivesse parado. A suavidade silenciosa. O deslizar ameno. A alegria do velejar.

                Ele começou a desaparecer por trás da vegetação verde que cobre a parte oeste. Aos poucos. Pareceu-me que demoraria, mas foi muito rápido. Depois que a proa sumiu por trás da cortina da mata, de lado, onde eu estava, nenhum vestígio n` água. Era como se aquele barco nunca houvesse singrado aquelas águas. O mar se comportava como se nada de inédito houvesse acontecido naquela rota de elegância. Mas eu sei que aconteceu. Eu vi um barco de velas brancas, casco negro e vermelho, atravessar em frente ao Morro de São Paulo. Eu o vi. E viajei com ele naquele breve trajeto e deixei que levasse minhas saudades todas, mesmos as mais doídas, que elas também devem ter necessidade de se afastarem de mim, alguma vez, pelo menos.

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