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BELA,BELA VIDA – Por Anna Maria A. Ribeiro

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

 “Ver um desfile de escolas de samba?!!! Nem morto!” Além do espanto que me provocou a enfática declaração do amigo, fiquei triste. Ao chegar em casa ainda não havia atinado o porquê da tristeza. Foi só depois de passar algumas horas escutando Satie e comendo torradas com sauce aïoli em pleno carnaval, num idem musical-gastronômico, que me dei conta. Ouvi, pela voz da memória, a frase de meu pai que eu deveria ter repassado a este amigo: experimenta. Se você não gostar não faz mais. Mas se gostar é mais um prazer que vai ter na vida. Não teria sido com certeza a primeira vez e nem seria a última quando a ouvi olhando com emoção o enorme cavalo branco de crina e cauda platinum blonde. “É um campolino e chama-se Coringa”, disse meu pai, “e é seu”. Meu?! Daquele tamanhão todo! Era evidente que esperava meu pai que eu me dispusesse a montá-lo. Tudo bem, pensei. Papai vai comigo. Até os quatro anos era assim que eu montava, enganchada frente a um adulto. E vai daí que sorri encantada dizendo: “vamos, papai”. Tremi ao me dar conta de que ele não viria. Ficou evidente que do ponto vista dele minha avançada idade não mais justificava a dupla montaria! Eu teria que ir sozinha. Recuei, mas tive que encarar levada pelo sorriso que acompanhou a voz firme: “experimenta…“ E foi assim que Coringa entrou em minha vida pra ficar. Um companheirão. Amigo de fé e incondicional até que se foi, bem velho, depois de gozar durante anos uma aposentadoria mais que merecida pelo muito de prazer que me deu. E pela vida afora foi um desfilar de desafios Coringa. Primeiro vinha o medo, a insegurança e depois aos poucos o prazer da coisa nova, diferente, gostosa, instigante. O “experimenta” passou a ser uma voz interior que me impulsionou e ainda me impulsiona. Algumas vezes não gosto do resultado e sigo o conselho até o fim: não faço mais. Mas quando gosto, e isto acontece na maioria dos casos, vou acumulando novos prazeres. Detestei jogar buraco (que me dava sono), mas me apaixonei por bridge e pôquer. Voar de planador foi um dos maiores prazeres que já tive na vida. Futebol passou a ser um programão. Detestei caçar onça na Serra da Mantiqueira e dormir no acampamento no meio da mata com a barraca invadida por lesmas vindas depois de um temporal. Mas foi nesta mesma mata que me maravilhei com a cadela onceira que só faltava falar. Achei divertidíssimo participar de um rali Brasília-Goiás Velho como navegadora e perceber que tinha jeito pra coisa. Fiquei em pânico ao ver o Circo Voador lotado e eu tendo que cantar e dizer textos sobre Noel Rosa, encarando aquela multidão. E, de repente, comecei a achar que havia nascido praquilo que me valeu um episódio divertido: o gerente de minha divisão chamou-me para atender uma autoridade do Governo do Rio de Janeiro. No que entrei o homem me olhou com estranheza e às horas tantas não se conteve e declarou: tem uma cantora no Circo Voador que é muito parecida com a senhora. Engoli em seco e informei que já me haviam dito isto. Uma analista cantora poderia ser de confiabilidade duvidosa, quem sabe. Encarei num jipe a Belém-Brasilia quando apenas começava a dar passagem. Tremi e depois relaxei e até gostei de enfrentar uma platéia de fazendeiros enfurecidos e armados, em Ponte Alta do Norte em Goiás (hoje no Tocantins) que vociferavam contra o Estatuto da Terra, sobretudo no que tocava ao Cadastramento Rural. Ensandecidos eles gritavam: isto é comunismo! Sei lá eu como consegui sair desta entaladela, mas saí, embora tenha certeza de que não os convenci da inexistência de minha estreita ligação com Moscou. Consegui me divertir imensamente quando indígenas Tapirapés que nunca tendo visto uma mulher branca resolveram conferir – por apalpação!!! – se eu era mesmo uma mulher enquanto um padre francês me dizia numa voz doce: “haja naturalmente. São como crianças”. Foram muitas as experiências e todas válidas mesmo que não deseje repetir algumas como, por exemplo, comer macaco: juro que nunca mais o farei. Foi tudo isto que me levou ao espanto ao ouvir a declaração do amigo: nunca viu escolas desfilarem e não gostou! Como é que pode? Como é que alguém pode saber se não gosta se não fizer? Por que se negar à possibilidade de mais um prazer na vida? Coisa esquisita esta. Esquisita, mas comum. Quem sabe por isto a velhice pesa tanto para alguns. Por que inexoravelmente ela vem e quando se instala não dá mais tempo para experimentar algumas coisas. E aí surge aquele pensamento cruel e sem saída: ah! Se eu tivesse… Aproveitar o tempo no tempo é indispensável. Time não é money não, é vida! Aqui um parêntese: no que me toca quanto mais time menos money.  Pode ser até que este meu amigo fosse detestar assistir ao desfile. Mas ele poderia sair antes de acabar se definitivamente não gostasse, não poderia? Adquirindo assim o direito de dar uma opinião lógica: vi e não gostei. Restringir prazeres não é uma coisa sensata. Não é mesmo. Fizesse eu isto não saberia que tanajura frita tem gosto de amendoim. Convenho que isto não é de importância vital.  Mas o gosto da tanajura frita somado a mil outros prazeres faz com que esta tenha sido e continue a ser uma bela, bela vida.

  Anna Maria Assis Ribeiro <annadeassis@gmail.com>

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