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DA INFLUÊNCIA DA CADEIRA DE ESTRADAS NO PRIMEIRO BAILE – Por ANNA MARIA A. RIBEIRO

No ano de 1943 deu-se o casamento da prima mais velha. Os sete anos que a separavam da noiva e os dez do noivo não evidenciavam diferenças. O que mais havia era uma igualdade provocada pelo amor aos cavalos, pela exploração da mata e pelos jogos de mímica. E eis que de repente tudo iria se desfazer! Pessoas casadas eram os tios, os pais! Um grupo a parte. Adorado, mas a parte. Mas foi este casamento a agraciou com o “vestido comprido” no qual se transmudou em “dama de honra”. O vestido, tão sonhado, compensara em parte a perda do casal para o outro grupo. Mas o acontecimento que havia de mudar sua vida ainda estava por vir: o noivo, agora marido da prima, colava grau em engenharia e, como ainda hoje acontece, haveria um baile. Um amigão ele era! Tanto que convenceu a mãe a deixá-la ir a este baile que seria o primeiro de sua vida. Metida no vestido de “dama de honra” o coração disparou à entrada da Galeria dos Empregados do Comércio. Cabelos soltos, libertos das abomináveis tranças que lhes eram impostas, estava se achando o máximo nos seus 13 anos. Quase 14, ela pensava em informar ao rapaz que a tiraria para dançar dali a minutos. Corrigiu-se: melhor quase 15. Pois se estava até de batom e cilion! Ou seja, escandalosamente maquilada. Mal se sentou à mesa aproxima-se um rapaz que respeitosamente pede licença, ao primo, para tirá-la para dançar. Mal acredita no que está acontecendo. Já?! Esperava ser notada – é claro – mas a rapidez com que isto ocorre está acima de todas as expectativas. Rodando no salão fica sabendo que ele é do primeiro ano e da turma na qual o primo é assistente da cadeira de estradas.  Terminada a música – uma valsa – ele a conduz de volta á mesa e, para seu espanto, ao lado do primo já se encontra outro rapaz que se precipita em sua direção dizendo: “agora sou eu.” Não era na verdade uma frase das mais românticas, mas soou como tal e ela passa dos braços de um cavalheiro para os de outro que, fica sabendo, é também do primeiro ano e também da turma monitorada pelo primo. Ele dança bem e ela não fica atrás. O treinamento intensivo, no quarto, ao som da vitrola portátil que ganhara no último Natal estava surtindo efeito. Ela desliza impecável ao som de Benny Goodman. Por que na verdade achava-se em Hollywood nos braços de Tyronne Powell. Ao regressar à mesa outro candidato já espera para transmudar-se em astro americano assim que a envolve nos braços. Era extraordinário o que está acontecendo. Vai ver ela é ainda mais sedutora do que se acha. O único momento em que pára é o da valsa dos formandos. E, assim mesmo, o próximo par já aguarda em pé, ao lado da mesa com uma expressão ansiosa. Havia feito um sinal de “a próxima é minha”.  Teve mesmo um momento em que dois disputaram o favor de uma dança! E assim foi a noite inteira. Um desfilar de alunos do primeiro ano, todos da turma em que o primo é assistente! Em casa custa a pegar no sono. Exausta e emocionada passa em revista os rostos. Impossível decidir-se por um. São todos maravilhosos. As espinhas, as vozes estridentes, os encontrões com outros pares, só ficaram nítidos anos depois. Tudo que conseguia ver era rostos e posturas de extrema beleza acondicionados em smokings e summer jackets com cheiro de água da colônia. Acordou diferente. Aquela sensação de ser feia e desajeitada que às vezes tomava conta dela nunca mais voltou. Num passe de mágica na praia começou a ser notada e o primeiro namorado apresentou-se tão logo que completou os benditos 14 que permitiam, sem mentir, rotular de quase 15.  Muitas e muitas festas, muitos e muitos bailes vieram depois. Ótimos, é claro. Mas aquele, que lhe havia aberto as portas da beleza da vida, ficara em sua memória como dourado, encantado, mágico. Anos depois, já com dezessete, rodava nos braços de um rapaz que havia conhecido na festa daquele sábado. Há tempos ele a rondava evidentemente interessado. Interesse não muito correspondido por ela. Mas, como nunca se sabe, ela resolveu lhe conceder alguma atenção. Cessada a dança, a Cuba Libre desata a conversa na varanda e ela fica sabendo que ele ira graduar-se em engenharia no final do ano. Comenta que tem um primo que é engenheiro e que foi assistente da cadeira de estradas na Nacional. O rapaz olha intrigado para ela e faz uma pergunta absurda: “você foi ao baile de formatura dele? Com ele? E estava com um vestido que não tinha decote?” A resposta afirmativa provoca uma gargalhada no rapaz e ele declara ainda rindo: “dancei com você naquela noite”. Incrível, ela pensa. Desde aquela época ele era encantado por mim! Sorrindo declara: “fiquei exausta aquele noite. Não perdi uma única dança. Seus colegas faziam fila para dançar comigo. Acho que dancei com todos os alunos do primeiro ano”. No que ele retorna com uma afirmação estranha: “quase todos”. Ela se espanta: “quase todos por quê?” É vem a espantosa a revelação: “os que tinham ótimas notas na cadeira de estrada não dançaram com você. Seu primo prometeu mais um ponto na prova para todos que a tirassem para dançar. E sorrindo acrescenta: “você era muito desengonçada. Que idade tinha? Doze, treze?

 Anna Maria Assis Ribeiro<annadeassis@gmail.com>        

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