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DEPOIS DE AMANHÃ – De Emanuel Medeiros Vieira

DEPOIS DE AMANHÃ

EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

Compreendeu que morrer era nunca mais estar com os amigos – lembrou-se de um conto de Gabriel Garcia Márquez.

Depois de amanhã?

Depois de amanhã.

Nunca mais veria aquela árvore ou escutaria o canto dos pássaros,

O futuro fora interrompido – era isso morrer?

Um presságio.

Restará algo?  Algum encantamento?

“Sou em grande parte, a mesma prosa que escrevo.”

(Fernando Pessoa, “Livro do Desassossego”)

“Como ele gosta de citar”, adverte um promotor interno,

Prosa poética?

Só dúvidas, e tudo agora é noite, nunca mais sentirá esses cheiros, como daquela tangerina, o sol da manhã na pele, ele, o papel e o lápis rompendo a aurora – é de outros tempos, dos últimos humanistas epistolares.

“É evidente a autopiedade”, reclama um anjo torto.

“É pessimista, triste”, reforça outro.

“Ele sempre espera o pior”,  insiste o primeiro anjo.

Outro – mais severo com os seus pares – afirma: “Mas sua geração nasceu no meio de escombros de uma guerra, de ruínas, de caos, de fragmentos (nunca da totalidade), de sonhos desfeitos, de desterros. E ainda assim, valoriza o que parece tão pequeno, e tem sempre o mar no seu coração”.

 

Indaga-se: quem ainda se interessa pela literatura? Pela verdadeira, orgânica, não por fama, prebendas, sonhos de glória.

A velhice é um massacre?

Só contempla magias, busca raivosa de dinheiro, drogas, ódios, fugas aparatos tecno-eletrônicos – assim, as pessoas acreditam que vão suportar o cotidiano (esta vida).

“Ele precisa de silêncio, longe do insensato mundo” – outra voz.

“Sente na pele o ocaso das utopias” – outro observador.

Monologa: monetarização de tudo, busca intensa de exposição – ser celebridade.
Máquina infernal de hierarquias, extorsões, carnificinas –, tudo erigido pela violência
.

“O severo moralista manifesta-se de novo”, ri outro anjo.

“Toda cabeça está doente, todo coração extenuado (…)

Vossa terra está desolada, vossas cidades queimadas” (Isaías, 1-5/7).

E depois de amanhã, acabarás.

E serás apenas pó e memória.

Apenas? É tanto.

Mas siga assim mesmo, sempre – até depois de amanhã.

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