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Deserança … – Por Anna Maria A. RIBEIRO

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

A palavra não existe! Mas o fato existiu e dele fui personagem. Melhor dizendo, fui vítima. Pior ainda, vítima humilhada por ter sido a possibilitadora de meu castigo! Explico: minha babá – Leonídia – que foi também babá de meus filhos teria sido também babá de minhas netas caso tivéssemos permitido. Quando do nascimento da primeira delas, Babá aprontou-se toda de uniforme branco e esperou pela chegada do bebê em casa, instalada numa poltrona do quarto, pronta para assumir as funções. O não termos permitido isto provocou uma discussão de dias e foi mais uma vez motivo para mais um dos episódios que vou relatar. Mas vamos aos fatos: até o nascimento de meus filhos eu era o sal da terra para Babá. Perfeita, sem qualquer jaça, eu brilhava. Nascido o meu primeiro filho este brilho diminuiu. Embora eu ainda conservasse algum prestígio, meu irmão, que não tinha filhos, tomou-me a dianteira. É claro que de maneira inferior ao bebê que lhe foi entregue. “Não foi assim que eu te criei” tornou-se um bordão que eu escutava a cada ação maternal. Tolerante eu fingia que não escutava o que mais das vezes era apenas resmungado. Assim fomos vivendo até que nasceu meu terceiro filho. Sabe-se lá porque este se tornou imediatamente o centro do mundo para Babá. Todos nós outros fomos relegados a uma importância bem menor e sempre que citados era numa comparação com o recém aparecido, onde sempre levávamos a pior. Babá não sabia, nem queria, ler e escrever. Foram inúteis nossos esforços. Todos tentamos. Até as crianças. Ela se irritava e desistia dizendo que não lhe fazia a menor falta. Mas era extraordinário e até misterioso o seu saber das coisas. Onde as aprendia nunca descobrimos. Mas era muitíssimo bem informada. Quando começou a “babazar” o meu mais moço já era bem entrada em anos e eu tive que dar nó em pingo d’água para que não percebesse que a “babazisse” era apenas simbólica e que eu delegava a outros ou assumia, quando não em horário de trabalho, tudo que pusesse significar um esforço para ela. Um dia pediu-me a levasse a um tabelião para fazer um testamento. Queria registrar aqueles que seriam favorecidos com os poucos haveres e objetos que havia acumulado durante anos a serviço da família (ela havia ingressado em casa de minha avó quando minha mãe tinha doze anos!). Tentei demovê-la dizendo que era só ela me ditar e eu escreveria num papel e todos garantiríamos que seu desejo seria cumprido. De nada adiantou e lá fomos nós ao tabelião. Não foi uma empreitada fácil. A cada vez que pensamos estar terminado ela pedia que o tabelião relesse em voz alta e trocava objetos e agraciados. Foi assim que me tornei herdeira de um oratório lindo de madeira e cristal onde ela guardava imagens dos santos de sua devoção e santinhos da primeira comunhão de toda família. Eu amava aquele oratório, meu encanto desde muito pequena quando ela deixava que eu abrisse a porta de cristal e ajudasse a limpar os santinhos. Mas foi aí que começou a tragédia. Ela ainda estava “babazando” o meu caçula quando eu tive a audácia (palavras dela) de castigá-lo por uma das muitas artes que aprontava. Deixou imediatamente de me dirigir a palavra e eu fui informada (por minha mãe) que ela exigia que eu a levasse novamente ao tabelião para modificar o testamento. Em minha santa inocência pensei que se o fizesse voltaríamos às boas. Não estava positivamente preparada para o que sucedeu diante do divertido tabelião: fui deserdada e pior, o motivo era declarado no testamento: não vai mais ganhar porque ela não é mãe. É madrasta!”. O injustiçado rebento passou a ser o herdeiro do oratório com a recomendação de que deveria utilizá-lo para rezar por minha alma quando me fosse já que provavelmente eu estaria no inferno! Para meu horror e gargalhadas do tabelião isto foi devidamente registrado. Vim para casa furiosa e no carro disse a ela que nunca mais me pedisse para modificar testamento algum e que se nunca mais quisesse falar comigo tudo bem, eu nem me importava. Dura, olhando para frente não se deu ao trabalho de responder. Tempos depois era visível que não poderia nem mais fingir que “babazava” e foi morar em casa de minha mãe onde ficou muitíssimo bem instalada num dos quartos do apartamento e onde reinava o anjo da guarda de mamãe – Alzira – sua sobrinha e que havia sido uma fantástica cozinheira desde os meus doze anos. Antes disso já havíamos feito as pazes e eu já havia com ela retornado ao tabelião para de novo me ver agraciada com o oratório. Mas infelizmente volta e meia ficava ela sabendo de medidas corretivas dadas ao seu preferido, informada que era pelo próprio, que delas fazia relatos exagerados a cada ida à casa da avó. E até que se foi, de mãos dadas comigo e com meu irmão repetimos por muitas vezes a vergonhosa ida ao tabelião. Felizmente quando partiu estávamos “de bem”. E hoje com o oratório, ao lado de minha cama, eu a sinto zelando pelo meu sono como o fez encantadoramente por todos os dias de minha dourada infância.  

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