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E FOI ASSIM QUE A HERANÇA ESCAFEDEU-SE- De ANNA MARIA A, RIBEIRO

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

E FOI ASSIM QUE A HERANÇA ESCAFEDEU-SE

Tudo começou em 1898 com a morte do Bisavô. A trêfega Bisavó, que até então havia reprimido esta qualificação, passou a exercê-la com brilhantismo. Era bela, a senhora, ainda que mãe de oito filhos. Três já adultos, uma adolescente e quatro ainda bem pequenos. O primogênito – dizem que mesmo antes da morte do pai – se comportava mal mantendo um romance com senhora casada com conhecido político da época.  O belo rapaz era o preferido da mãe, já que feito à sua imagem. Vai daí que a pecaminosa amante engravida. Até ai nada tão grave. Ainda não estavam na era do DNA e o rebento bem poderia ter sido gerado pelo marido não fosse um pequeno senão: o homem era estéril! E esta esterilidade era do conhecimento de toda sociedade. O escândalo foi de grandes proporções ganhando as páginas de um jornal. Para piorar passou-se o recibo: um dos tios do rapaz, irmão da Bisavó, agride à bengaladas o jornalista responsável pelo maldoso artigo. Deu até processo e o estrago foi grande. O pai da pecadora providencia o registro da criança em nome do marido enganado, e exige a permanência da filha sob o teto do próprio. Sabe-se lá por que o marido concorda. Vai ver era louco por ela ou criar o bastardo como seu seria uma estranha vingança. E as coisas se acomodaram, mas não por muito tempo. A Bisavó, para fugir do escândalo havia se transferido do Rio de Janeiro para Barbacena com a filharada. Acobertando o horror financia a ida do filho pecador para a França, acompanhado da adúltera que abandonou o marido levando o rebento a esta altura com duas paternidades. Por lá passaram a viver como nobres, nos arredores do Parc Monceau, fausto este garantido por polpuda mesada enviada pela Bisavó. Aqui, ela não ficava atrás, esbanjando a fortuna que lhe havia sido legada pelo Bisavô.  Multiplicavam-se as recepções, as festas os saraus nos salões do casarão. A bela senhora era uma “snob” assumida: preconceituosa, mandona, desdenhava de tudo e de todos. Vai daí que ficar sem dinheiro era alguma coisa de inimaginável. E este estava se esvaindo e iria acabar. Corajosa, ela parte para o supremo sacrifício: aceita casar de um comerciante, já entrado em anos, um seu apaixonado desde muito, mas sempre rejeitado. Comerciante! Uma “mésalliance” de peso! Mas fazer o que? Eram sete filhos aqui e um em vilegiatura em Paris! Volta a residir no Rio de Janeiro trazendo da França o primogênito agora já com três filhos. Este, ao chegar, fica indignado com o casamento da mãe com aquele grosseirão casca grossa sem berço, mas com eira e beira. Indignado passa a visitar a mãe somente quando certo de não encontrar por lá o padrasto. Era um rompimento! Um rompimento assaz estranho porque não só continuava a viver da mesada fornecida pelo padrasto como deixa os três filhos a cargo da mãe e dele. A esta altura o comerciante é responsável pelo sustento da Bisavó e de mais onze! Um santo, ele era. E também apaixonado pela Bisavó que o tratava com o maior desprezo. A tragédia é que frente a seu nome não havia título algum: nem Coronel, nem Doutor, nem nada. Um infamante “Seu” apenas. Um horror! Não fosse a garantia de que a vida prosseguiria com festas e recepções o sacrifício de um convívio íntimo com o “Seu” seria desmedido.  O homem nem falava francês!! Para horror da senhora um dos poucos amigos dele que freqüentava a casa, apaixona-se por uma das filhas. E o homem era mulato!!! Abonado, excelente jurista, um homem encantador…  mas mulato!!! Conta a história que a Bisavó visitada por uma amiga por ocasião do noivado, dela escuta: então está tudo leite e rosas! Ao que a Bisavó responde do alto de sua imponência: leite e rosa, não diria… café com leite, talvez. Pouco depois casa-se outra filha com um promissor médico. Esta era a única que ainda coibia alguns excessos da mãe. E foi ai que a Bisavó desarvorou de vez. O pobre comerciante se matava de trabalhar e a fortuna que havia amealhado diminuía a uma razão espantosa. Ganhava bem, por sorte, e assim podia manter os caprichos de sua tresloucada mulher. A crônica familiar nega qualquer prevaricação da Bisavó Mas crônica familiar é sempre dotada de uma extraordinária memória seletiva. O mal feito do primogênito podia ser cometido e até relatado porque afinal era homem. E homens fazem isto. A adúltera não era da família, portanto poderia ser enxovalhada com tranqüilidade. Mas sobre a Bisavó não podiam ser feitas cogitações maldosas. Dilapidar fortunas não era infamante, sobretudo quando feito com bom gosto e finesse. Mas, cá pra mim, tenho dúvidas sobre sua fidelidade ao “Seu”. Fotos me mostram uma bela mulher. As festas, as recepções freqüentadas por garbosos senhores, sua personalidade sedutora e ávida; seu encanto pelas peripécias do filho são indicadores de possíveis escapadas. Uma vez, adolescente, ousei levantar esta dúvida. Fui repreendida com severidade: como é que você pode sequer imaginar uma coisa destas! O difícil era não imaginar! Por sorte a Bisavó morre antes do “Seu” usufruindo até o fim de todas as benesses que um bom faturamento mensal garantia. Foi assim que a herança escafedeu-se. E é por artes da Bisavó que cento e dezoito anos depois me vejo pensionista do INSS olhando num álbum as fotos de casarões, de festas, de recepções e até da adúltera que me levou parte da fortuna que poderia, sem as artes da Bisavó, ter chegado até mim!       

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