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É LEGAL DEMAIS – Por Anna Maria A. Ribeiro

 


O menino levanta o rosto sorridente e me informa: estou estudando conjuntos. È legal demais! Você sabe conjuntos? Curiosa eu havia me debruçado sobre ele e seu caderno. O “você sabe conjuntos” me faz entrar na máquina do tempo.

Tenho 15 anos e escuto emocionada a história do jovem matemático Èvariste Galois, narrada pelo velho professor Sodré da Gama.  Apaixono-me no ato. Por ele, por Galois. A Teoria dos Conjuntos deixa de ser um “ponto” da matéria. Galois, morto num duelo aos 20 anos, se faz presente em cada uma das notações da equação no quadro negro. E este se transforma nas páginas e páginas da carta que Galois escreveu horas antes da morte certa, legando ao mundo a descoberta da solução das inequações irredutíveis por radicais. Vou às lágrimas ao escutar suas últimas palavras ao irmão que chorava ao lado do leito de hospital para onde o levaram ferido de morte: não chore, Alfredo, eu preciso de muita coragem para morrer aos 20 anos!

Volto da viagem à minha adolescência e o menino ainda sorri olhando para mim. Sorrio também para ele ao afirmar que sei, sei sim, sobre conjuntos. Ele volta para o caderno e eu para Galois. Engraçado! A emoção daquele dia em que o conheci volta agora. Mais forte. O rosto do menino funde-se ao rosto de Galois do qual nunca esqueci, mostrado num desenho a bico de pena, por Sodré da Gama. A imagem entra comigo no elevador e me acompanha ao entrar em casa. O que quer me dizer? O que significa? O que tem a ver esta criança com Galois? De repente me dou conta: quer coisa mais emocionante do que ver um menino no século XXI ser ajudado por um quase outro do século XVIII? À margem da carta que escreveu horas antes de morrer e na qual desenvolveu seu genial raciocínio várias vezes a anotação: não tenho mais tempo.  Pena. Pena que ao preocupar-se com o genial desenvolvimento não tenha podido parar para pensar que o que estava legando ao morrer levaria a que mais de duzentos anos depois, milhões de meninos do mundo inteiro teriam seu estudo de matemática simplificado e tornado emocionante. Aquele tempo que julgava faltar ampliou-se numa progressão espantosa depois de sua morte e era pontuado agora pelo sorriso de uma criança que resume a genialidade em é legal demais. E é mesmo. Demais. Quantos Galois existirão hoje? A preocupação com o futuro das gentes não importa nem mesmo aos que hoje se julgam imortais quanto mais aqueles que se encontram a beira da morte como Galois. As pessoas andam vivendo como se não tivessem qualquer compromisso com o futuro que virá depois de sua morte. Com honrosas exceções o que se vê é o imediatismo, o “deixa pra lá”. Talvez tenhamos chegado a isto porque calou mais fundo o aprés moi le déluge de Luis XV do que o “não tenho mais tempo” de Galois.  Pena. Pena mesmo.

Tomada de uma urgência irresistível precipito-me para o elevador torcendo para que o menino ainda esteja no pátio às voltas com os conjuntos. Respiro aliviada ao ver a cabeça ainda inclinada sobre o caderno.  Ele não se espanta quando eu, aflita, peço: pára um pouco, preciso te contar uma história. Crianças são bem mais intuitivas do que nós e muito mais receptivas ao inesperado. Que bom que seja assim. E atento e interessado o menino escuta a vida de outro menino. Às vezes sério, muito sério e por vezes rindo como ocorreu com as opiniões dos professores do primário sobre Galois. Ele comenta: se deram mal, né tia? O cara era cabeça! Revolta-se com os absurdos cometidos para impedir que Galois ingresse na Escola Politécnica ou apresente seus estudos: que sacanagem! Caraca! Esse tal de Fourier tinha mais é que ser preso.  Animada por perguntas e exclamações chego até a véspera da morte e à carta. O menino se revolta: ele não devia de ter lutado, não. Foi mal, tia. Foi mal! E curioso: tem um filme dele? Devia de ter. To sacando porque conjunto é legal demais. O cara era fera, né?  

Esteja onde estiver agradeço a Galois por mim e por todas as crianças do mundo: você é mesmo legal demais, cara! 

E-mail:annadeassis@gmeil.com

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