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EFETIVA LIDERANÇA – Por Anna Maria A. Ribeiro

 Foto do perfil de Anna Maria Assis RibeiroLeio, divertida o texto do e-mail: Por apenas R$ 40,00 você adquire em CD-ROM um completo Curso de Liderança, com ensinamentos dispostos de maneira didática e objetiva, para tornar-se um líder com excelência, aspecto de suma importância em sua vida profissional. E me vem à memória a figura de Seu Xandinho, maior líder que já conheci e que, certamente, jamais pagou pelos ensinamentos desta arte, mesmo porque, creio, teria melhor uso para R$ 40,00 que naquela época nem reais eram. Corria o ano de 1966 e, pela primeira vez, o País empreendia a hercúlea tarefa de coletar dados para conhecer sua estrutura agrária. O conceito de “estabelecimento rural” utilizado pelo IBGE não descrevia esta estrutura já que voltado para produção agrícola sem qualquer conotação com a tenência da terra. Empreendeu-se então a realização do Cadastro de Imóveis Rurais. Dura tarefa: os detentores de terra, a qualquer título, teriam que responder a um longo questionário sobre suas posses ou propriedades. Isto em todo Brasil! Sabíamos que a resistência, por motivos diversos e até conflitantes, seria enorme entre os grandes proprietários, os pequenos e os posseiros. Vai daí passamos a viajar para os mais longínquos municípios com o difícil encargo de explicar e convencer a todos para que preenchessem os formulários e aos prefeitos para que instalassem uma Unidade Municipal de Cadastramento. Logo nos primeiros Municípios percebemos que se não tivéssemos a ajuda do líder local esta tarefa jamais teria êxito. A identificação deste líder nos levou a uma espantosa constatação: nem sempre era o Prefeito. Aliás, quase nunca era. Horas intermináveis de tentativas de convencimento de padres, padeiros, farmacêuticos e até uma mãe de santo, nos estavam levando à exaustão na subida da ainda não terminada Belém-Brasíla Um pequeno parêntese: já terminou? Foi então que nestas lonjuras, surgiu Seu Xandinho. Havíamos sido informados de que se conseguíssemos sua adesão o sucesso seria total. A aparência era de uns 70 anos. Enrugado e calado apenas ouvia. E nos deixou desorientados quando declarou lacônico que faria uma reunião na pequena igreja do povoado. Contra ou a favor?! Impossível saber. Tentamos em vão obter uma pista e tudo que recebemos como resposta, num tom de reprimenda, foi: vocês na hora vai vê! Apreensivos, tomamos a palavra na reunião tentando explicar o propósito, as vantagens, e a necessidade do preenchimento do formulário e da instalação da UMC na pequena cidade e abrimos para perguntas. Silêncio total: até o Prefeito dirigia o olhar para Seu Xandinho que, pitando seu cigarrinho de palha, olhava para o chão como que desinteressado da participação. O silêncio, desagradável e constrangedor, prolongava-se e eu aflita levantei-me disposta a conseguir alguma reação da plateia. Fui impedida de dizer a primeira palavra pela voz severa de seu Xandinho: a moça já falou. Agora fala mais não. A moça (eu), nos seus trinta e seis anos, engolindo seus arrogantes e técnicos argumentos, botou a viola no saco e calou-se, sob o olhar divertido dos demais técnicos da equipe. E seu Xandinho, sentado como estava, dirigiu-se à plateia. A tradução que fez de nossos argumentos era extraordinária. Ele havia entendido perfeitamente a finalidade do Cadastro e a urgência de serem tornados disponíveis os dados que permitiriam obter as informações necessárias à realização de uma Reforma Agrária. Percebia também com clareza a reação de resistência por parte dos proprietários e de desconfiança por parte dos posseiros. Ele falava manso nos designando como “eles” como se ali não estivéssemos presentes. Este “eles” nem sempre era acompanhado de adjetivos e predicados agradáveis: eles não é daqui, não conhece nós e tem lá o trabalho deles para fazê. Embora ao pé da letra isto fosse verdade, soava como uma enorme censura. O desconforto era cada vez maior. Terminada a explicação nada ortodoxa das finalidades e razões do cadastramento seu Xandinho faz uma pausa como que autorizando a pergunta que veio de um figurante na plateia (provavelmente um sub-lider): e ai Xandinho, nos faz o que? Um sorriso surgiu nos lábios de seu Xandinho. Um sorriso maroto, mas também ameaçador! Tão ameaçador quanto as palavras que seguiram: nós vai responder este papel e nós vai cobrar deles tudinho dessa tal de Reforma Agrária que eu achei que nós carece. E, para nós em tom de comando: vocês pode ir! Obedecemos e meses depois, conferimos a frequência de preenchimento dos formulários pelos liderados de Seu Xandinho. Espantosa: um dos maiores índices obtidos. Lá vão mais de quarenta anos e Seu Xandinho não mais está entre nós. Mas certamente cobrou, pelo tempo que viveu, esta Reforma que não se fez. Por isto culpada, mesmo sem ser, peço desculpas a ele e a seus liderados. E os felicito por terem tido como líder este extraordinário personagem que nunca frequentou um curso “receita de bolo”. Como tantos que hoje conhecemos.

Anna Maria Assis Ribeiro <annadeassis@gmail.com>

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