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Entropia Doméstica – Por Anna Maria A. Ribeiro

 Sempre achei ser inadequado chamar de Lei os conceitos físicos. Leis, embora devam ser cumpridas, podem ser descumpridas se assim o desejarmos. Aliás, é que mais se vê ultimamente. O mesmo não acontece com as Leis da Física. Queira-se ou não elas se cumprem lá no tempo delas sem nos dar a menor chance de desconsiderá-las. E o pior é que mais das vezes nos causam algum prejuízo ou no mínimo um tremendo desconforto. Ultimamente ando tendo problemas com uma grandeza das Leis da Termodinâmica: a Entropia. Estas (as Leis que regem a Entropia) já foram responsáveis por acontecimentos muito desagradáveis. Um de seus formuladores Ludwig Boltzmann, físico austríaco, suicidou-se desgostoso com a pouca aceitação de sua formulação pela comunidade científica da época. Dizem até que na lápide de seu túmulo está inscrita a equação objeto desta não aceitação:

S = k ×  ln W

Tenho para mim que o motivo não foi este. E sim a percepção que para sempre seria vítima desta praga que é a Entropia. O enunciado e os conceitos, como soem ser todos os da física, são pomposos e complicados. Em bom português, na prática, o que acontece é o seguinte: todas as coisas nas quais você não aplica um enorme trabalho e gasta um burro de um dinheiro para manter acabam indo para o espaço ou dando uma enorme dor de cabeça.  Vai daí que uma casa, cheia de “coisas” diariamente dá sinais de entropia por mais cuidadoso que você seja. O reparo da válvula do banheiro que quebra, os ganchinhos da cortina que espantosamente somem, a torneira que pinga, a instalação do lustre da sala que para de funcionar minutos antes que convidados cheguem para o jantar, a palhinha da cadeira que inexplicavelmente aparece com um buraco, e que mais sei eu. Tudo isto exige a presença de um profissional que nunca pode vir na hora que convém a você e que depois de avaliar o ocorrido informa que “não existem mais as peças de reposição” e que “vai ter que mudar tudo”. Depois que você desembolsa uma considerável quantia ele resolve o problema deixando sua casa imunda e no mínimo uma torneira (ou maçaneta, ou tampa de ralo ou interruptor) completamente diferente das outras que ainda estão por aqui. Você pode, é claro, fingir que não vê que alguma coisa não está mais funcionando, dependendo da coisa, adiando assim o momento em que providências mil terão que ser tomadas.  Mas isto, na maioria das vezes não dá certo, como ocorreu recentemente quando uma das lajotas do vestíbulo de entrada gerou, espontânea e inexplicavelmente, uma mancha branca que desafiava qualquer limpador (foram comprados cinco diferentes). A partir deste momento qualquer pessoa que entrava na sala  (filhos, faxineira, visitas, entregadores) me informava como se eu fosse cega: tem uma mancha ali. Diante da impossibilidade de continuar ignorando o fato iniciei um processo mental para descobrir o tipo de profissional que deveria ser acionado. Pedreiro? Pintor? Envernizador? Ataquei todos os lados e terminei com o cunhado do porteiro, único que conseguiu equacionar o problema, criando vários outros: não existe mais lajota deste tamanho. É preciso retocar e teremos sorte se conseguirmos uma tinta de cerâmica que tenha a cor perfeita. É evidente que não conseguimos. Então produzimos diversas misturas, fazendo experiências em pequenas áreas. Depois de ser obtida uma lajota com varias nuances da mesma cor e de ter sido respingada a parede creme com tinta vermelha, chegamos ao que parecia ser a cor ideal. Descoloriu-se a lajota (mas não a parede) que pintada parecia estar idêntica às outras. Depois de marcada com impressões das patas do gato (ficou até bonitinho, disse o cunhado do porteiro) a calçada da fama doméstica secou adquirindo uma cor completamente diferente das outras. Agora não era mais uma mancha e sim a lajota inteira que saltava aos olhos. Solução do cunhado: pintar todas, incluindo as da sala de visitas, sala de jantar, corredor e quartos. A senhora e o gato vão ter que passar uns dias fora, me informa o cunhado. Vai demorar porque tem que arrastar todos os móveis de um lugar para outro e esperar secar para fazer o resto. Heróica, decidi: vai  ficar assim mesmo! Não me deixei demover pela expressão de censura no olhar do cunhado que retrucou: mas a parede vai ter que ser pintada. Vai ficar uma mancha quando formos tirar a tinta que respingou. E não vamos conseguir uma tinta deste exato tom. Foi mistura, não foi? Melhor pintar tudo. Reprimi meu instinto assassino e declarei ameaçadora que ele teria que fazer um remendo que vai ficar igual, ouviu?! A minha fúria surtiu efeito e foi feito o reparo tornando a parede (quase) igual às demais. Com um suspiro de alívio acompanhei a partida do cunhado, esperando que fosse para todo sempre. Finalmente depois de quatro dias a paz doméstica se restabelecia. Uma chave gira na fechadura. Só pode ser um dos filhos. Era. O filho. E veio a frase que será repetida ad eternum por todos que entrarem: esta lajota é completamente diferente das outras. E seguindo-se a esta: o que é isto? São as patas do Pandareco? Que idéia maluca, mamãe. Tá bem que você goste dele, mas imprimir as patas na lajota você não acha um tanto absurdo? Que mancha é esta na parede?

Anna Maria Assis Ribeiro <annadeassis@gmail.com>

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