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ENTULHO – De ANNA MARIA A. RIBEIRO

ENTULHO

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

Desavergonhadamente ela escuta a conversa alheia. O restaurante, quase vazio facilitava e ainda por cima elas vieram sentar-se na mesa ao lado. Vítimas do fenômeno inexplicável que ocorre sobretudo em cinemas vazios: vem alguém e senta-se a seu lado! Mas não importa isto. O fato é que estavam lhe proporcionando um delicioso jantar que havia se anunciado sem graça. Ao entrar no restaurante do hotel, decepcionara-se. Estava quase vazio. Uma das atividades que mais curte nestas viagens a trabalho é a cata de personagens. Restaurante de hotel é certamente um criadouro destes. Mas aquele não estava prometendo, até que entraram “as três”.

Com certezas freqüentadoras da fila dos idosos, redondas, metidas em uma estamparia florida, falam. Falam muito. “Vocês lembram daquele garçom engraçado do hotel de Guarapari?” Entusiasmadas passam do garçom de Guarapari para o guia da Bahia; do banhista de Rio das Ostras para o gerente do Hotel Fazenda, sabe-se lá onde. E vem memória!

Estão em Fortaleza. A noite está linda e a lua e o mar entram pelas janelas.  Mas elas, perdidas em paragens outras, não estão se dando conta. Nos relatos uma ponta de tristeza: “que pena que não estamos mais lá. Que saudade daquelas férias. Como foi divertido”. E em nenhum momento comentam o que quer que seja sobre as férias que estão vivendo. Espantoso! O presente não está existindo! As lembranças são mais reais do que o luar do Ceará. Provavelmente quando o que descrevem havia ocorrido, também não perceberam. E as férias que estão acontecendo naquele momento só serão verdade muito depois de terminadas. O “você lembra quando” impede a visão do agora. O presente está soterrado pelo entulho do passado.

            Palavra feia esta: entulho. Ela é uma apaixonada por palavras. Por dever de ofício deveria sê-lo por números, significando percentuais, indicadores, probabilidades… Mas estes não a comovem, não. Eles – os números – são seus instrumentos de trabalho e comovem tanto quanto um serrote ao carpinteiro. Acredita que ele – o carpinteiro – curta mais o som do serrote quando fere a madeira, o cheiro da serragem que se desprende, o sonho do objeto que dali resultará ou mesmo o dinheiro do trabalho que lhe valerá o sustento. Mas deixa isto pra lá. Como sempre acontece, a partir de uma palavra está perdendo o rumo. A associação entulho–passado é perigosa, mas escapuliu. Se algum psicanalista escuta seu pensamento estará em maus lençóis. É sempre perigoso deixar escapulir coisas que poderão servir para explicar seus comportamentos esdrúxulos, no presente. Continua a divagação: ao chegar à terceira idade… Não gosta nada deste termo: prefere velhice mesmo. Acha bonito. Enquanto a Cartilha do Politicamente correto não proibir o termo vai de velha mesmo. Mas vamos lá: ao chegar à velhice, ou nas proximidades dela, algumas pessoas agarram-se ao passado-entulho. Movem-se em meio a coisas inúteis, quebradas, estragadas, pulando escombros, ruínas, esbarrando em cacos, detritos e o que é terrível, sofrem com isto. Conservam em casa objetos que não lhes servem de nada e que lhes fazem lembrar, diariamente, alguma situação ou alguém que, mais das vezes, não lhes faziam nada bem. Isto porque quando a lembrança é boa, boa mesmo, não há necessidade de objetos para trazê-la. O mais estranho é que estas mesmas pessoas sabem, praticam e conhecem o antídoto que as libertaria deste mal. Quando fazem uma obra em casa contratam um caminhão para tirar o entulho; quando a máquina de lavar quebra e é substituída por uma nova não lhes ocorre estocar a velha com destaque num lugar da casa, para diariamente a ela dirigir o olhar ou mesmo para tentar em vão utilizá-la. Sabem que coisas sem serventia são coisas sem serventia. Mas o entulho do passado, não! Este é carregado com todo peso e não serventia que tem; conservado através de lembranças e citações; exibido aos outros, como um troféu, para apresentação da vítima que foram. Não importa que a maior parte das desventuras tenha sido causada por opções próprias. E quem não as fez? E aí está o perigo. Quando não se toma uma providência para mudar o rumo, as opções erradas tendem a se repetir, e repetir e repetir gerando mais e mais entulho. É espantosa a capacidade reprodutiva deste!  Conservá-lo é impedir que o espaço seja ocupado pelo que quer que seja. Não cabe mais nada. O problema é que o caminhão que retira o entulho não vem a um simples chamado. É preciso fazê-lo existir. Pra que aumentar o buraco? Vai ficar cada vez mais fundo e não se vai poder sair. Claro que existem coisas boas no passado. Sempre. E destas é bom lembrar e guardar lá num lugar em que se possa retirá-las, quando necessário, para se ter certeza de que acontecem. Ajudam a construir o presente. Mas vai daí que, mesmo destas, não se devem lembrar sem parar. Não é legal. Ficar lembrando, impede de sentir, cheirar, ouvir, ver e viver o que está acontecendo agora.

E o presente pode ser como o dela agora que está curtindo a visão dos micos na mangueira. Eles – os micos – vão lhe valer o escrito de uma nova crônica. É uma maneira esdrúxula de acabar esta. Mas isto é vida!

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