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Expectativa de vida – por Anna Maria A. Ribeiro

 Foto do perfil de Anna Maria Assis RibeiroSe atendidas as instruções de uma grande parte dos e-mails que me enviam, quem sabe, estaria eu rica, com uma saúde de dar inveja a um cavalo inglês e teria todos os meus desejos e anseios atendidos. E tudo isto com dia e hora e até minutos marcados para acontecer. Infelizmente não encontro em mim a disposição para reenviar estes e-mails a sete, nove ou dez pessoas (inclusive para aquela que me enviou) dentro de dez, vinte ou trinta minutos contados a partir do recebimento. O reenvio, segundo me informam, é condição sine qua non para que as coisas ocorram. Mas se estas correntes, orações e mantras não me tentam, são para mim irresistíveis os testes que vêem pela mesma via. Estes me pedem que escolha entre flores, cores, animais ou entre perguntas de quase impossível resposta porque nunca encontro, no elenco das que são fornecidas, uma na qual eu me encaixe. A finalidade é esclarecer quem sou eu. Talvez eu me empenhe em respondê-los para descobrir o que até hoje não sei com muita clareza. Devidamente respondidos constato que sou mutante: ora dócil e meiga como uma pombinha sem fel, ora agressiva, ora indecisa, ora positiva e lutadora e por ai vai. Não me reconheço nestas descrições, mas vai ver aquela que diz não ter eu consciência de quem sou, é mais a correta. E foi assim que me empenhei a fundo no Teste de Expectativa de Vida, enviado por um amigo. Não me dei conta de que não era de vida que se tratava e sim de morte! E, estarrecida fiquei sabendo que deveria ter morrido há onze anos! Refiz tudo, alarmada. Não teve jeito, a época prevista era mesmo a dos sessenta e oito anos. Vai ver isto aconteceu e eu estou vivendo naquele mundo paralelo de que já me falaram e eu não quis acreditar existisse. De qualquer modo, viva ou morta, me peguei matutando sobre o assunto que vejo sob dois ângulos: o prático e o imponderável. Como se minha morte fosse dois eventos diferentes: um sobre o qual mil providências devem ser tomadas antes que ocorra e que é objeto de planejamento; outro sobre o qual não penso, nem planejo: é a horinha dela mesmo. O primeiro tem até uma pasta organizadíssima. O mais estranho é que estas providências eu as tomo, já lá vão anos, sem qualquer emoção perceptível. São apenas providências como controlar as despesas, fazer uma lista de coisas que necessitam reparo em casa (interminável); anotar livros e discos que desejo comprar; e sei eu lá mais o que.  Sobre a outra, a imponderável, não me ocupo, ainda que tenha a certeza de que ocorrerá. Tendo esta certeza só poderia me preocupar com o “quando” e este, tenha-se a idade que se tenha, é desconhecido. E o que é desconhecido sem a menor possibilidade de se conhecer não é de meu especial interesse. Estou mais interessada, bem mais interessada, em eventos de vida. Por esta razão teria deixado de lado esta expectativa que eu não cumpri se não houvesse encontrado com uma grande amiga que há muito anos não via. Ela, muito mais moça do que eu, perguntou: como é este negócio de morte na idade que você está? Controlei-me para não informar que talvez eu já houvesse morrido (e no caso ela também) e resolvi partir do princípio de que estávamos vivas, as duas. Igualmente vivas e igualmente fadadas a morrer não havendo, naquele momento, o menor indício de quem iria primeiro. Resolvi não dizer isto também. Seria de mau gosto, não é? E daí, embatuquei. Falar o quê? Que não penso nisto e que, portanto, não sei como é esta coisa de morte na minha idade? Algum estatístico que me leia vai ficar alarmado e me provará que a probabilidade de que minha morte ocorra antes da dela é muito grande. Mas desde quando probabilidade entra nesta história?  Não estou falando de estudos destinados à área de saúde, de atuária e de outras em que idade é um must. Estes tratam do coletivo e não do individual. Estou falando é da vida de cada um. Do dia-a-dia, do inesperado, do improvável, da decisão que se toma de virar à esquerda ao invés de para direita e com isto ver sua vida toda alterada para o bom ou para o mau. Teve uma época em que espantada com a ocorrência do imprevisto diário passei a anotar ao acordar tudo que havia planejado para aquele dia e constatei que jamais a programação se passava como o previsto. Um espanto! As grandes mudanças de minha vida não foram planejadas. Surgiram sempre de imprevistos. Minha morte, certamente é uma grande e desconhecida mudança que –creio – serei a única a não perceber, mas certamente não é um imprevisto. O único imprevisto que poderá existir é de que venha em momento e condições bem diversas daquelas que qualquer exercício de futurologia possa deduzir. Algo me diz que a palavra expectativa não se aplica à morte. Como é que eu posso ter uma expectativa sobre o que certamente ocorrerá? A única expectativa possível é a certeza da ocorrência.  Mas vai ver não sei exatamente o conceito desta palavra. Vou ao dicionário ver se é possível e o absurdo se evidencia pela palavra “supostos” nele incluido: esperança fundada em supostos direitos, probabilidades ou promessas. Com minhas desculpas ao autor do teste mas minhas esperanças fundadas em direitos, probabilidades ou promessas são todas relativas à vida. E estamos conversados. Vai ver por isto existiram os onze anos de quebra. Minha expectativa é que venham alguns mais.  

  Anna Maria Assis Ribeiro <annadeassis@gmail.com>

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