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FILA DOS IDOSOS II – Por Anna Maria A. Ribeiro

 Foto do perfil de Anna Maria Assis RibeiroNuma segunda vez já vai direto para a bendita Fila. Desta vez, numa agência da Caixa Econômica do Jardim Botânico. A outra, a fila dos não idosos, nem gestantes, nem deficientes, era de um comprimento espantoso e movia-se como uma serpente preguiçosa e obediente seguindo as setas desenhadas no chão. Na fila dela, apenas três pessoas. Chegou! O caixa olha com um ar de dúvida: a senhora tem 60 anos, mesmo? Responde alto, até irritada e é escutada por um segmento significativo da fila-serpente. Olhares se voltam, alguns com franca reprovação farejando um golpe sujo. Mais tarde vai até se orgulhar com essa manifestação que teve um quê de elogio, aliado à desconfiança da esperteza. Mas naquele momento fica furiosa. Afinal a recente descoberta do privilégio etário lhe concede o sabor de uma conquista. Coisa rara nos tempos de hoje quando se perde mais do que se ganha. Arranca da bolsa a carteira de identidade e a entrega ao caixa num gesto grosseiro. O rapaz examina e sorri: não parece! A senhora é muito conservada!”. O “conservada” é demais. Esta palavra sempre lhe dá a sensação de estar metida num enorme vidro, boiando numa calda rala. Enfia pela portinhola o calhamaço de contas que tem a pagar. Uma voz de mulher, vinda da outra fila, chega a seus ouvidos: claro que tem mais de 60! Olha só ao redor dos olhos. Outra responde: é mesmo. O pescoço também! Estão falando do seu pescoço?! É verdade que não tem reparado muito nele. O espelho do banheiro só dá para ver o rosto. Disfarçadamente passa a mão no pescoço. Assim, no tato, não dá para notar nada de tão denunciador. Precisa verificar isto. Providência não vai tomar nenhuma, mas é bom saber. Será uma informação a mais, entre tantas que tenho tido de uns anos para cá, quase sempre fornecidas por terceiros. A serpente serpenteia e agora a voz de um homem afirma: o cabelo é pintado, mas não parece 60, não! Outra voz de mulher irritada retruca: é porque não é gorda! Gordura acaba com a gente. Mas tem isto, sim. Ou mais! O caixa devolve o comprovante da primeira conta. Uma das cabeças da serpente se estica, despudoradamente, por cima de seu ombro e observa o comprovante. Ela – a cabeça –  retira-se rápida e fala no que pensa ser um sussurro: pelo que paga de plano de saúde deve ter perto de 70! Cabeças da serpente discutem sua aparência, falando alto, com uma espantosa seriedade. Uma impressionante tendência feminina se estabelece, não só na concordância dos 60 anos mas, também, no lhe acrescentar de alguns mais. Os homens variam. Tem mesmo um que afirma – provavelmente para provocar polêmica – que parece ter uns 55!. A situação é surrealista. E já que assim o é, resolve partir para o absurdo. Dá as costas ao caixa que continua diligentemente destacando canhotos e encara a serpente, como um todo, numa atitude desafiadora, propondo-se tomar parte ativa na discussão, já que ela e somente ela, tem o argumento final. Imediatamente o silêncio se faz. Positivamente não querem ouvir, nem a verdade, nem seu ponto de vista. E ela nem mesmo tem um! As pessoas começam a tomar posturas diversas e estranhas, procurando alguma coisa para olhar que não seja ela. Uns examinam atentamente os sapatos como se os vissem pela primeira vez. Outros o teto. Há os que passam a ler atentamente todos os cartazes afixados e uns poucos, menos criativos, fixam o olhar na nuca do que está em frente. Passa a observar cada um, atentamente, sem dar importância ao mal estar que, visivelmente, está causando. Já esqueceu a irritação e descobre que há alguma coisa de interessante. Os jovens não se manifestaram, sabe Deus por que. Esta omissão é intrigante. Será que 60 anos é uma abstração para eles? Alguma coisa que nunca vai acontecer? É isto! Não lhes diz respeito. Lembra-se de suas muitas conversas com os filhos e vem o espanto. Nunca, mas nunca mesmo, lhes falou da velhice. Da velhice deles que virá um dia. Da velhice de outros até que falou, individualizando, como se aquilo fosse uma característica daquela pessoa sobre a qual discutiam. Mas do envelhecer inexorável de cada um, nunca. Percebe que só se dá conta do próprio envelhecimento por espasmos e sempre com surpresa. Já com todos os comprovantes na mão olha o que está em cima da pilha: Nossa! O plano de saúde é caro mesmo! Sorri gentil para a moça que comentou isso e sai pensando que uma hidroginástica até que cairia bem. Será que melhora o pescoço?

Anna Maria Assis Ribeiro <annadeassis@gmail.com>

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