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FORA DE ESQUADRO -Por Anna Maria A. Ribeiro

Foto do perfil de Anna Maria Assis RibeiroA declaração do pedreiro vem como uma bomba: “As paredes são fora de esquadro”. A obra sonhada há anos e que tornaria sua casa perfeita está em pleno vapor. Várias vezes por dia ela pensaseriamente em atear fogo às vestes. Anda pela casa como um zumbi, envolta numa nuvem de poeira, sem paradeiro certo. Não há como, nem para onde fugir. Tropeça em caixas e caixotes, procura em vão coisas absolutamente indispensáveis à vida que misteriosamente somem e reaparecem em lugares absurdos, enlouquece com o barulho de parede que vem a baixo enquanto a serra que corta ladrilhos a faz sentir-se habitante de um mundo povoado pelo som de uma monumental broca de um dentista. Qualidade de vida é coisa do passado e a sensação é de nunca mais recuperar. E agora, para coroar, as paredes estão fora de esquadro. Estão, não! São fora de esquadro. Pela expressão de Seu Marcelo este fato é grave. Gravíssimo. E terá, provavelmente, conseqüências funestas. Atrás de Seu Marcelo os dois ajudantes que espantosamente chamam-se também Marcelo, têm um ar desolado. Em pânico procura informar-se sobre o desastre. Seu Marcelo é categórico: “a senhora tem que tomar uma decisão: para que lado vai ficar a fileira de azulejos e de pisos que vai ficar torta?”. O tom não deixa dúvidas: uma fileira no chão e outra na parede vai ficar torta. O desgosto toma conta dos semblantes de Seu Marcelo e dos Marcelo 1 e 2, diante de sua covarde resposta: “o senhor decide.” Sente que perdeu pontos. Não era isto que se esperava dela. Fazer o que? Firme repete: “o senhor decide e eu não quero falar mais nisto”. Seu Marcelo profundamente decepcionado acompanhado de 1 e 2 dirige-se para o que será um dia uma cozinha e em meio a destroços confabulam baixo. É evidente que não a consideram digna de sequer ouvir a discussão que decidirá o lado torto. Humilhada vai para seu quarto onde ainda funciona um aparelho de televisão. Mesmo imunda e tendo como fundo musical a sinfonia de serras e marretas dispõe-se a assistir o jogo da decisão do campeonato europeu entre o Real Madrid e o Liverpool.  Aumenta o som ao máximo tendo a certeza de que, à noite, receberá um telefonema do síndico portador da reclamação dos muitos vizinhos (1 do lado, dois em baixo e 2 em cima) que desde o início das obras infernizam sua vida. Jogo já começado uma batida discreta na porta. Fica em pânico: e agora? Vai ver todas as fileiras vão ficar tortas! Do outro lado da porta Seu Marcelo pergunta tímido: “quanto está o jogo?”. E ela se dá conta de que aqueles 3 Marcelos não devem ter em casa televisão a cabo e que, como ela, adorariam ver o jogo. Esquece o aborrecimento que lhe deram e convida: “venham ver o jogo. Depois vocês continuam”. Dois coelhos mortos com uma só cajadada: uma boa ação e eliminação do barulho. Tímidos, os Marcelos ajeitam-se no chão (não existem mais cadeiras. Na verdade não existe nem cama). De inicio permanecem em silêncio. Aos poucos, alguns comentários em voz baixa revelam 3 torcedores do Liverpool, o que é profundamente desagradável. Para evitar maiores conflitos declara sua condição de torcedora do Real Madrid. Espera com isto eliminar dali por diante qualquer manifestação a favor do Liverpool e, sobretudo, qualquer observação depreciativa sobre a atuação do Real Madrid. Em vão: Seu Marcelo comenta a gordura do Ronaldo Fenômeno. Profundamente irritada ela solta um “selvagem” acusando a falta de Traoré em Ronaldo que é retrucado por Marcelo 1 com: “o gordo se jogou. Catimbeiro!” O quase gol do escanteio provoca entusiásticos gritos Marcelenses. Esquecidos da cerimônia inicial os três se perdem em comentários desairosos sobre o Real, ponteados de gritos de incentivo aos atacantes do Liverpool. Foi aí que ela explodiu: “Vocês estão no meu quarto, vendo a minha televisão, a meu convite e eu não vou admitir ninguém aqui torcendo pelo Liverpool. E tem mais: não quero fileira nenhuma torta. Nem de ladrilho, nem de piso”. Os Marcelos não se intimidam e continuam a vociferar estímulos a seu time e imprecações desairosas ao dela que esquecida do absurdo da situação começa a comportar-se do mesmo modo.  A cada pênalti chutado estabelecem um pandemônio. Findo o jogo, com a vitória do Liverpool, um silêncio pesado toma conta do ambiente. Os Marcelos levantam-se mudos e tímidos como entraram começam a se dirigir para os escombros. Já no corredor, Marcelo principal volta-se, num sorriso que é acompanhado por sorrisos dos outros Marcelos: “nunca a gente viu um jogo desses inteiro. Foi maneiro. Sabe, dona, a senhora é que é fora de esquadro”.         

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