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GADGETS E A LEI DE PARKINSON – POR Anna Maria A. Ribeiro

 

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

Que me perdoe o Deputado Aldo Rabelo em sua  preocupação de uso exclusivo do idimoma pátrio. Mas não me agrada unir a palavra gerinconça à seriedade da Lei de Parkinson. Então vou de gadgets mesmo. Gadgets é definido como um equipamento que tem um próposito e uma função específica. Ou mellhor: era definido assim. Os gadgets eletrônicos há muito deixaram de ter uma função específica: são dotados de várias. Haja vista a geringonça celular que só falta fazer café. Além disto esta geringonça, com muitas outras hoje existentes, transcende à sua finalidade e passou a ser demonstrativa de status e objeto de desejo. E isto parece estar se sobrepondo ao estabelecimento das comunicações à distância fazendo com que sejam exibidos com orgulho por seus dentetores  extraordinários celulares de multipos talentos. Mas o que faz a Lei de Parkinson em meio a esta parafernália tecnológica? É que me dei conta de que está atuando, e com força, no uso de celulares. Esta Lei estabelece que a demanda sob um recurso sempre se expande para adequar-se à oferta daquele recurso. A demanda de ligações telefônicas através celulares cresce de maneira exponencial. Muito maior e bem menos qualificada da que há anos existe para os telefone fixos. Estes, quase sempre, são usados dentro do conceito “necessidade”. Já o celular… Outro dia participei de um jantar, num restaurante, onde se encontravam seis pessoas, antigos colegas de trabalho, entre os quais, eu. Ainda estávamos consumindo a entrada quando o primeiro celular soou. Primeiro em nossa mesa porque na mesa ao lado já havia uma senhora falando animadamente com alguém surdo porque estavamos todos sendo informados que Maria Regina estava em São Paulo visitando a avó fato que deve ter espantado a interlocutora ou interlocutor face a respotas que se seguiram: tem, ainda tem avó, sím! Incrível, não?! Mas voltando à nossa mesa escuto: a reunião de sexta (estávamos num sábado) vai ter que ser adiada, sim. Mas dá para resolver até quarta feira… Pensei: se dá para resolver até quarta feira por que tratar disto agora? Ele bem que poderia… Meu pensamento é interrompido pelo soar de um segundo celular. Ela atende enquanto o problema da reunião de seu vizinho continua em pauta: oi, meu bem, comprou o remédio? (…)  Não tem importância ainda tenho para três dias. (…) E Marilda? (…) Não diga! Mas o interlocutor não obedeceu e disse e, o que é pior, continuou dizendo, enquanto um terceiro comensal retira seu celular de uma pasta e passa a falar: nem começamos. Ainda nem pedimos. Tudo indicava que não iriamos pedir tão cedo e me volto para minha vizinha para comentar o disparate que estava acontecendo e a percebo com uma expressão aflita. Pudera! Mas antes que eu pudesse abrir a boca ela me diz: meu celular está descarregado. Você me emprestaria o seu? Providencio a religação do meu que ingenuamente havia tirado de circulação para não incomodar os outros e passo o aparelho para ela. E foi assim que fiquei sabendo que não estava chovendo e que não seria difícil conseguir um taxi mais tarde. Fiquei também aliviada em saber que Felix havia melhorado. Felix provavelmente era um gato já que foi mais fácil do que se pensava ministrar o remédio. Foi bom saber que Felix, devidamente medicado, agora dorme em cima da estante. É. Deve ser gato mesmo. Sorri para o única pessoa que além de mim não estava em ligação direta através da geringonça. Impossível qualquer outra ação que não fosse sorrir (ou chorar). Cada um dos telefonantes tentava suplantar o outro no tom de voz e nós duas não telefonantes estavamos em lados opostos da mesa. Só conseguirimos nos comunicar aos gritos o que perturbaria o contato telefônico dos demais. Na mesa ao lado a senhora já havia cessado de falar dando lugar ao homem que a acompanhava e que também aos gritos e indignado declarava que o livro esta esgotado. Fato que era previsto porque ele urrou: eu não disse a você que seria impossível encontrar? E indignado ao obter uma resposta: vou procurar em droga de sebo nenhum! Procura você! Me pareceu justo uma vez que ele já tinha dito antes era impossível encontrar. Aos poucos foram todos desligando mas durante o jantar diversas outras ligações ocorreram interrompendo a conversa e deixando assuntos e relatos inacabados ou em suspenso. Nenhuma daquelas comunicações telefônicas me pareceu urgente ou importante. No entando o encontro de nós seis deveria ser. Há muito não nos viamos. Quem sabe teria sido melhor escolher o celular como ponto de encontro. Um artigo de Bill Keller, ex-editor do New York Times, declara que as desvantagens da mídia social não o incomodariam terrivelmente se não suspeitasse que a amizade e a conversa permitidas por inovações tecnológicas estejam tomando o lugar da relação e da conversação reais. Podemos estar deixando de viver coisas que fazem diferença. Pena, né?  

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