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INCONDICIONAL APOIO MATERNO – Por Anna Maria A. Ribeiro

INCONDICIONAL APOIO MATERNO

 

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

Ela que me perdoe. Mas a história é por demais saborosa para mantê-la em segredo mesmo porque ocorreu, e não por acaso, frente a uma vasta platéia. Somos ela e eu, bem diferentes. Ela, de uma reserva construída pela altivez que tem origem em nobres antepassados; eu, nada reservada, descendente de Pedro Álvares Cabral e, ainda por cima, por linha bastarda! Jamais lhe poderia fazer concorrência. Mas o que nela mais encanta é a forma pela qual se expressa. Num português espantosamente correto e elegante, jamais se permite a uma palavra, uma expressão, um dito, que não seja considerado de extremo bom gosto. Um tanto desatualizada é fato, mas ainda assim saborosa mesmo quando “reclame” significa “anúncio”. É a única pessoa de quem ainda escuto a palavra “detraqué” que aplica parcimoniosa a alguns desafetos. Gírias, jamais. Ao ouvir uma anedota mais picante ou quando surge na conversa algum assunto julgado “inconveniente”, como sexo ou política percebe-se um ligeiro apertar dos lábios e um franzir da testa que conduz o rumo da conversa para outras paragens. Com o correr dos anos habituamo-nos a respeitar esta sua maneira de ser e a censura norteia as conversas com ela. Viúva, de há muito, jamais lhe passou pela cabeça um novo casamento. E muito menos lhe ocorreram quaisquer casos amorosos. Bem que haviam aparecido candidatos encantados, como nós, com tanta altivez e nobreza. Mas nem pensar. A isto não se permitiria. Seu coração de há muito (mais precisamente há 53 anos) abriga uma monumental paixão: o filho. Único e arquiteto. É ele a razão dos seus dias e noites passados em louvação da beleza e inteligência deste ser extraordinário. Um deus grego redivivo, diz ela. De fato, pelas fotos que existem em profusão pela casa, é belo o rapaz, isto é, o senhor. E, também, segundo nos relata, inteligente, agradável, sensível e que mais sei eu. Uma mais que confortável situação econômica permitiu que ela o presenteasse com uma cobertura, por ele projetada. Dizem que tão bela quanto o dono.  Jardins suspensos na Babilônia de Ipanema. Começa aí o mistério: desta cobertura o filho não sai! Nunca! Que se saiba passa os dias elaborando projetos arquitetônicos de localização extremamente vaga. Não se consegue saber onde, nem para quem. Ou para o que. Solteiro é o Adonis e nunca, mas nunca mesmo, se teve notícia de um namoro, de uma ligação qualquer que fosse. Isto, evidente, sempre foi objeto de especulações sobre sua sexualidade. Mas, mesmo entre nós, isto é apenas sugerido com três pontinhos depois de frases dúbias. Indagações que permitiram formar um juízo mais claro não seriam aceitas. Além de demonstrar curiosidade (sentimento menor e mal são de acordo com a escala de valores de nossa amiga) seria por ela considerado grosseiro e destituído de qualquer classe. Jamais nos arriscaríamos a correr o perigo de sermos banidas de seu convívio por termos pisado na bola. Evidente que a expressão “pisar na bola” não havia sido utilizada quando do relato que nos fez do expurgo de alguém que havia ousado interpelá-la sobre o filho. Aos sábados, já fazia tempo, nos reuníamos em seu apartamento para um torneio de bridge. Sempre as mesmas senhoras, a mesma conversa e o mesmo chá acompanhado por madelaines (Proust é um preferido sempre citado). Mas eis que uma das parceiras muda-se para São Paulo. Para aqueles não iniciados é necessário explicar que uma mesa de bridge é obrigatoriamente formada por quatro jogadores. Como resolver? Ou ingressava alguém ou três seriam eliminadas, o que não era desejável. Nos tempos que correm não é tarefa das mais fáceis encontrar alguém que jogue bridge. A salvação veio na pessoa da prima de uma das jogadoras, recentemente chegada dos Estados Unidos onde morou durante anos. A senhora, protagonista desta crônica decidiu que a possível parceira seria convidada para um sábado apenas. Era necessária a restrição para que fosse feito o julgamento de sua adequação ao grupo, consideradas todas as qualificações técnicas, culturais e morais desejadas e indispensáveis. Foi então que se deu o extraordinário acontecimento. Esfuziante a moça (era moça) adentrou o recinto. Nem todas haviam chegado e era o momento das conversas baldias. Não houve tempo para alertá-la. Nem bem chegou passou a examinar a galeria de fotos do filho e para o horror geral, entre exclamações absolutamente inconvenientes sobre o físico do rapaz, soterrou a escandalizada progenitora sob uma avalanche de perguntas e comentários: “ele costuma vir aos jogos? Não!!? É casado? Oba! Sorte minha! Vou querer conhecer este gato. Não circula? Nossa!!! E por que? Mas foi casado, não foi? Não?!!! Nunca?!!! Que estranho!” Esta última observação foi seguida de um “Ah, sei… que pena! Que  desperdício!” Isto foi dito com um sorriso de claro entendimento dos motivos da reclusão e do não casamento. No  terrível silêncio que se instalou a valorosa mãe nos mostrou a que ponto pode chegar o apoio materno. Abrindo mão de uma vida de frases impecáveis e mostrando um extraordinário poder de concisão, colocou um ponto final na maledicência e nos pensamentos que, para falar a verdade, residiam em todas nós. Numa voz firme e grave disparou a extraordinária declaração: “meu filho não sai de casa e não se relaciona socialmente porque, há anos (pausa dramática) está comendo a vizinha!”.

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