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INICIANDO UMA CARREIRA – De ANNA MARIA A. RIBEIRO

INICIANDO UMA CARREIRA

Foto do perfil de Anna Maria Assis RibeiroSou, positivamente, uma serial clumsy. Sei que esta expressão não existe, mas deveria existir já que existo eu, dela exemplo vivo. Não é por cabotinismo que me descrevo em outra língua que não a pátria. Serial killer perde completamente o impacto se traduzido para Matador Serial ou Matador em Série, expressão que mais parece designar um exterminador de mosquitos. Aqueles que me conhecem recentemente – vejo em seus olhos e expressões – atribuem à minha avançada idade a sucessão de episódios lamentáveis e em cadeia dos quais sou protagonista ativa. Nada mais incorreto: sempre existiram. Lembro-me do primeiro, aos seis anos. Fui obrigada a ir com mamãe à anual visita prima Otília que tinha ares de marquesa. Ela morava numa mansão que cheirava a mofo e onde era servido um doce de batata roxa que daria uma boa argamassa para unir tijolos. No caminho sempre as mesmas frases me alertavam para manter um sorriso amável, responder ao que me fosse perguntado, agradecer qualquer mimo que, diga-se de passagem, jamais me foi oferecido. Minha postura era um misto de tédio e fúria na impossibilidade de agradecer o doce de batata roxa que me colava a boca auxiliando a mudez intencional que se contrapunha às invariavelmente feitas perguntas: que idade você tem agora? Em que ano está? Gosta da escola? Mamãe interrompia o fluxo de perguntas sem resposta desfiando notícias da família entremeadas com olhares terríveis a mim dirigidos significando: você vai ver só quando chegarmos a casa! Mamãe teria sido uma excelente mímica. Era extraordinário como se fazia entender sem proferir uma só palavra. Encarrapitada num incômodo sofá de palhinha, balançando as pernas, pois os pés não chegavam ao chão, eu procurava alguma coisa para fazer. Qualquer coisa. Foi aí que começou a tragédia: minha mão tateando o assento contava os furos da palhinha. Sei lá eu porque comecei a enfiar o dedo mindinho num deles. Se eu empurrar com força acho que entra, pensei. Um dos inúmeros gatos da prima Otília havia se metido em baixo do sofá. Isto foi um estímulo para que o dedo se introduzisse por inteiro no buraco. O gato iria achar graça de ver aquele dedo surgindo sobre sua cabeça. Dito e feito o dedo entrou e começou a se movimentar. Como eu previa o gato encantou-se e começou a dar saltos tentando pegá-lo. A visita começava a ficar divertida quando escuto o comando materno: “dê um beijo na prima Otília, minha filha. Já estamos indo”. Puxei o dedo e nada. Não saia. E agora? Atarraxei no rosto a minha expressão de anjo para situações de emergência. Nunca dava certo, mas mesmo assim eu a utilizava, no desespero, falta de outro recurso. “Quero ficar mais um pouco, mamãe. Tá tão bom aqui!” Mais uma vez a mãe-mímica se manifesta com um olhar misto de terríveis ameaças e de pânico significando: o que foi que você aprontou? Prima Otília se comove: “que gracinha! Vai ver ela quer mais doce, não é, querida?” Meu estômago dá uma cambalhota, mas pelo jeito era a única forma de retardar o que inevitavelmente viria e aceito com entusiasmo. Mas, ao contrário do fim desejado a decisão em aceitar o doce apressou o terrível desenlace: impossível fazer com uma só mão a movimentação necessária para pousar no colo o prato que me era estendido e ainda por cima comer. Mesmo assim tentei.  Mamãe, percebendo que a mímica não seria suficiente profere uma absurda frase: “ o que você fez de sua outra mão?”. Murmurei o mais baixo que pude: “tá aqui… presa”. Um pandemônio se instala: mamãe, prima Otília e uma copeira tentam inutilmente me libertar. Mamãe pede à copeira que providencie algum óleo passar no dedo que havia inchado e quem sabe assim este deslizaria. A doida da mulher trouxe manteiga! O dedo amanteigado além de não sair era lambido pelo gato encantado com este inesperado manjar. Trouxeram gelo: quem sabe o inchaço seria resolvido. O dedo amanteigado que agora estava também enregelado não se movia. O gato desistiu de lambê-lo; vai ver não gostava de sorvete de manteiga. Prima Otilia tirou de sua caixa de costura uma agulha de crochê e tentou afastar a palhinha que o aprisionava. A agulha foi introduzida entre meu delo e a palhinha e lá ficou entalada. Foi então que mamãe, heróica, declarou que o jeito era cortar. Esta declaração provocou um grito lancinante de prima Otília: é um canapé Sheraton do final do século VIII! A palhinha é original!! Mamãe num apoio incondicional a mim exigiu a destruição. E prima Otília desolada assistiu a morte da palhinha original executada por uma tesourinha de unhas. A solidariedade materna desapareceu ainda no portão e mamãe repetia furiosa: com efeito! Um canapé Sheraton do final do século VIII! Você tem noção da gravidade do que fez? Não. Eu não só não tinha a mínima noção da importância daquele muito incômodo e feio sofá como também não me dei conta de ali tinha início minha bem sucedida e longa carreira de serial clumsy.

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