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JANELA – De Anna Maria A. RIBEIRO

JANELA

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

Era aquele mundão de gente. A luta de muitos anos, de gerações até, chegara ao fim. Os sem-terra acampados se transformavam naquele dia, em com-terra assentados. As casas da agrovila, modestas, pequenas, esperavam os novos moradores num convite à digna cidadania que todos merecemos. Para a festa mataram mais de um capão, cozinharam macaxera, abóbora e capricharam na carne de sol, no feijão de corda, na paçoca, na farofa amarela. Matruz com Leite derramava o forró no alto-falante que, desta vez, não irradiava sobre o campo a indignação, a revolta e a luta. Haviam resistido à fome, ao medo, ao abandono, ao frio, ao desconforto, à miséria e à maldade das gentes. Em meio à movimentação uma figura estática. D. Januária, em frente a uma das casas, chamava atenção. A expressão que se revelava no rosto curtido da velha era estranha. Velha, sim. Por que por lá não existe idoso, nem terceira idade. Só velho mesmo. O politicamente correto não tem muito lugar quando a miséria nivela tudo e se dá nome aos bois com a naturalidade e a verdade das palavras que sempre usaram. Mas como eu ia dizendo, D. Januária estava ali, parada, olhando a casa que seria a sua. Que já era sua. Alguma coisa na fachada era o motivo de seu fascínio e dela não tirava os olhos. Aquela imobilidade começou a chamar atenção. Aos poucos, uma roda se formou em torno dela. Havia como que um respeito por alguma coisa que ela sentia e que, embora não sabida, passava uma solenidade que fazia com que se comportassem como fiéis num ambiente santo, reverenciando aquela figura enrugada e minúscula. O alto falante baixou e calou-se. O silêncio se fez em reverência à decana do acampamento. Porque D. Januária o era. Velha, a mais velha. Aos poucos ela se dá conta dos rostos que a observam. Olha cada um deles, demoradamente, muito séria. Por fim, fixa-se no líder do acampamento. É um olhar de comando. E porque viveram e lutaram juntos por muito tempo, ele a entende, se transmuda de líder em liderado, e obedece. Aproxima-se dela e numa delicadeza de mãos rudes e deformadas pela enxada, dá um toque, apenas um toque, nas costas magras, impulsionando-a em direção à casa. D. Januária vai até a porta, abre, entra e a fecha atrás de si. O grupo continua em silêncio aguardando, não se sabe o quê. Passam-se minutos e ninguém se move. Um murmúrio geral quebra o silêncio quando a janela abre, emoldurando D. Januária. Ela olha longe, olha firme, olha valente. O tom de voz de D. Januária é baixo, grave e tem a força de um grito: “Janela!…No protegimento dela tô oiando pro mundo!” Porque a lona, onde sempre viveu, era a casa. Então casa, sempre tinha havido. Mas janela… que mostrava o horizonte… no “protegimento” … nunca! 

 

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