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Manhã Executiva – Por Anna Maria A. Ribeiro

Foto do perfil de Anna Maria Assis RibeiroEra um dia como os outros. Nem mesmo o vento parecia diferente. O acordar veio, como sempre, lento, duvidoso. Engraçada essa sensação de quase incômodo no acordar. A cama perde o conforto encontrado na noite. Os barulhos –  tão conhecidos –  já não embalam o sono. Ao contrário, perturbam, fazendo com que se queira sair dali para encontrar alguma coisa. Sabe-se lá que coisa… Sabe-se lá… Uma coisa, apenas. Levanta-se em busca disso que não sabe o que é. Gostaria de ter uma rotina para cumprir. Não tem. Nunca teve. Nunca conseguiu. A bem da verdade nunca tentou. Não saberia como. Mas deve ser bom conseguir essa ordenação lógica dos passos. Lá isso deve. Mesmo quando trabalhava – e olha que tinha horário para entrar e tudo mais –  não conseguia. Não que chegasse atrasada. Era irregular apenas. Uma descoberta se faz: ela é irregular em tudo. Quem sabe irregularidade é seu traço marcante… Bem que podia… As pessoas – as outras – têm traços marcantes. Ela nunca se sentiu marcada por um. Sempre pulou de um traço para outro, vai ver na busca de construir uma linha completa com uma seta na ponta: um norte com cara de Norte. “Deve de ter”, como dizia uma das muitas empregadas, perdida no tempo. É… ”deve de ter”, pensa ela distraída enquanto coloca água no fogo para fazer café. Droga! O filtro está vazio. Coisa esquisita essa do filtro estar sempre vazio. Aliás as coisas têm esta mania de esvaziar assim… sem aviso. As garrafas na geladeira então… Corre para a geladeira. Confere. Estão… todas… completamente vazias. Abre a torneira do filtro. Vai levar horas para encher: a vela deve estar suja. Há quanto tempo não… ? Deixa pra lá! Agora… tem que se decidir. Lógica. É preciso ser lógica. Droga! Afinal lógica sempre foi seu instrumento de trabalho. Tem que usar. Vejamos. Duas alternativas: arrumar a cama ou regar as plantas. Franze a testa com força. Decide-se! Melhor ver se chegou algum “e-mail”. Entra no escritório. Puxa, que cheiro de cigarro! Abre a janela pensando que cigarro não deveria ter cheiro. Sem cheiro não haveria culpa. Adora fumar. Liga o computador e fica olhando para a tela, abestada. Não lembra do que foi fazer ali… Ah, sim… a caixa postal. São três os mails. Um não interessa. Dois lhe trazem amigos distantes. Responder. Responder já e fingir que estão perto. Falando (no caso escrevendo) assim desordenada, pulando de um assunto para o outro, mal escutando (no caso, lendo) o que dizem. De repente se dá conta de que está ali há horas. Tem as plantas… o quarto desarrumado… o café… É! Melhor tomar um café antes. Deixa o computador ligado, computando sozinho os desenhos que dançam na tela. Na cozinha: catástrofe! A panela esquecida no fogo apresenta uma bela cor púrpura, sinal do incêndio iminente que a água que transbordou do filtro não vai conseguir apagar. É a terceira panela que se vai assim. Desliga o fogo e joga a panela na pia. Abre a torneira em cima e uma nuvem de fumaça queima seu rosto enquanto a água que escorre pelo chão, gela seus pés. Maldita faxineira. Escondeu o rodo. Ela esconde tudo. Que vontade de tomar café! Patina na cozinha e na área abrindo portas e armários em busca do rodo. Deixa pra lá. Esta porcaria acaba secando. Ou evapora ou vai pelo ralo. Água sempre desaparece mesmo. Ela é que não vai continuar procurando rodo nenhum. Tem mais o que fazer… Rememora na ordem: café, encher garrafas, arrumar a cama, regar plantas. Ufa! É isso. Se fosse honesta, mas honesta mesmo, adicionaria “secar cozinha”. Mas não é. É mesmo tão desonesta que elimina as plantas e a cama. Das garrafas nem se lembra. Tudo pode ser feito mais tarde. Concentra-se no café e resolve tomar mate gelado. Pronto: não tem mais nada para fazer. Passa pelo escritório e vê o computador computando a tela colorida. Num primeiro movimento vai desligar e depois se lembra do que dizia aos estagiários: se você vai usar daqui a pouco, deixa ligado… é melhor. Não que exista algum motivo para que ela o use daqui a pouco. Mas nunca se sabe. O telefone toca!  A neta pergunta: “tá ocupada, vó?”  Deixa-se cair gostosamente na poltrona antegozando a conversa: “Estou, minha querida!  Ocupadíssima!… Mas pra você sempre arranjo um tempinho!”

   Anna Maria Assis Ribeiro <annadeassis@gmail.com>

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