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MEMÓRIAS DO PROSTÍBULO – Por Anna Maria A. Ribeiro

Foto do perfil de Anna Maria Assis RibeiroVai ver é velhice! Sempre ouvi dizer que nela vive-se de memórias. Embora eu ainda não “viva” delas ando muito saudosista ultimamente. Saudades, memórias, lembranças, povoaram as últimas crônicas. Será que é uma choramingação geriátrica? Se for, minhas desculpas antecipadas porque hoje ainda falo de memórias. Pelo título vocês podem estar imaginando que vou brindá-los com um relato escabroso deixado escapar pela idade em que a censura nos abandona.  Não é bem isto embora a memória de um prostíbulo seja bem viva em mim. Não! Eu não o freqüentava! Morava em frente a um. Aconteceu assim: tendo meu marido sido transferido para Recife para lá me mandei pioneira, para providenciar moradia. Eu não conhecia Recife e procurava uma casa perto da praia e da Base Aérea. Para meu espanto encontrei uma maravilhosa (tinha até um laguinho com repuxo), numa rua de terra, perpendicular à Praia de Boa Viagem. O valor do aluguel era inacreditável de tão barato. Escarafunchei tudo para descobrir um defeito. Nenhum!. O lugar era um tanto deserto o que era ótimo pelo silêncio. Em frente uma enorme casa que me pareceu inabitada. Aluguei na hora e me mandei de volta para providenciar a mudança e trazer as crianças. No dia em que a mudança chegou, a casa em frente ainda parecia deserta. Isto é, até as seis horas da tarde quando se abriram as janelas e um movimento de carros intenso começou. Era um prostíbulo! Explicava-se o valor do aluguel. Resignei-me: certamente não me incomodaria, nem eu a este. Poucos dias depois da mudança, as crianças já no colégio, ouço palmas no portão. Duas “meninas” da casa, aflitas, perguntavam se eu tinha telefone. Uma outra havia despencado de uma escada ao mudar a lâmpada de um lustre que também despencou. Estava toda cortada por pedaços de vidro, esvaindo-se em sangue. Telefone eu não tinha. Mas tinha carro. Vai daí que me ofereci para levar a infeliz acidentada ao Hospital da Aeronáutica. Elas, constrangidas, acharam que por lá não seriam atendidas. Escandalizei-me: como não seriam atendidas? Eu garantia (coisa que não poderia fazer, claro). Os olhares dos médicos e enfermeiros denotaram espanto e horror. Mas –creio- minha fama de protagonista de eventos esquisitos havia precedido  minha chegada a Recife e minha enfática cobrança de atendimento fez efeito. Devidamente costurada e medicada a “menina”, retornamos. Agradecimentos em profusão recebi dando por encerrado o episódio. Pensava eu! Dois dias depois novas palmas. Agora quatro “meninas” estavam no portão, sorridentes, portando uma panela com uma galinha de cabidela (galinha ao molho pardo). Era meu pagamento pelos bons serviços prestados. Convidei para entrar. Fazer o quê? Elas, que sabiam das coisas, inicialmente recusaram o convite. Minha insistência venceu e o cafezinho de lei foi servido em meio a uma conversa animada na qual se informaram de minha vida. Os relatos de suas vidas vieram aos poucos, bem depois. Sim, porque passaram a freqüentar minha sala durante a tarde. Histórias tristes, engraçadas, comoventes, me foram contadas numa sinceridade e numa abertura espantosas. Não exagero ao dizer que ficamos amigas e que eu sentia falta quando não apareciam. Delicadas, tinham o cuidado de jamais me convidar para ir “lá” (designação que usavam para o prostíbulo) e de nunca aparecerem quando meus filhos estavam em casa. Mas perguntavam muito por eles. Pediam para ver fotos, queriam saber o que como eram, o que faziam e estranhamente pediram para ver seus quartos e brinquedos. Uma delas presenteou minha filha com uma família de bonecas de pano. E recomendou séria: diz pra ela que foi uma tia que ela não conhece que deu. Mas fala assim mesmo: tia. Não esquece! Obedeci. Minha filha nunca conheceu esta tia tão carinhosa. Pena! Chamava-se Iolanda, a tia. Não era o nome verdadeiro: um dia distraiu-se ao me contar um episódio em que a mãe ao falar a chamava de Severina. Fingi que não percebi. Iolanda é mais bonito, né? Lembro-me da emoção que foi o sumiço da Das Graças. Assim da noite para o dia. A Madame ficou fula porque ela estava devendo. Como o seu mais fiel freguês também sumiu todas concordaram que ele havia tirado Das Graças da vida, mandando-se os dois para bem longe. É que se vai ter vida junto, pode ficar aqui não, disseram elas. Tudo que é gente ia lembrar que é uma decaída. As pessoas são tudo ruim, sabe? Eu sabia, sim. Os comentários que ouvia de algumas senhoras de oficial sobre minhas “amizades” assim denunciava. Mas garanto que nenhuma delas seria capaz do exemplo de delicadeza e bom gosto que me deram as “meninas”. Convidei-as para um lanche quando soubemos de nova transferência para Salvador. Ia sentir falta delas. Foi então que a morena Jurema fez um pequeno discurso de despedida que quase me levou às lágrimas. Comovida, sob o sorriso de concordância das outras ela falou: nós queria dizer o que tu é pra nós. Então a gente reuniu e pensou o que ia fazer tu ficar alegre. E nós todas estamos falando aqui uma verdade que seu marido nunca foi  “Lá”. Verdade ou não, que belo presente! Talvez o mais bonito e o mais delicado que já ganhei.

  Anna Maria Assis Ribeiro <annadeassis@gmail.com>

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