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Na Praça do Jardim – De Carlos Magno de Melo – Médico, Escritor e Cronista

Na praça do jardim.

Carlos Magno de Melo – autor de “Uma canção para o diabo” e Relatório Mandaras, entre outros livros.

 

Gosto de sorvete. Comprei uma bola de coco e outra de ameixa. Saí. Na praça, sentei-me sob uma árvore antiga. Cheia de bromélias.  Respirei. Ia colocar mais uma colherinha na boca. Chegou um senhor. Perguntou-me se poderia se sentar no banco. Abri a boca para aquiescer e ele emendou que o banco era grande e caberíamos os três. Olhei em volta e não vi a terceira pessoa que se sentaria conosco. Ele se aboletou. Cruzou as penas. Eu ainda olhei em volta. Nada da terceira pessoa. Na certa estaria chegando. Meu sorvete.

                Passado algum tempo, nada da terceira pessoa. Olhei para o velho. Impassível. Sorvendo a fresca. Quieto. Penas cruzadas. Calças marrons. Sapatos de amarrar. Pretos.  Meias marrons. Claras. Enrugadas. A camisa, vermelha framboesa. Gola e punhos azuis. Destoava. Não era feia. Destoava. Na algibeira, uma capa de óculos, uma tampa de caneta esferográfica aparecendo e uma escova de dente. Branca. Gasta. Tudo normal. Sim, um chapéu comum de feltro. Marrom. Ele calado. Quieto. Lagarto.

 Inquieto com a ausência do outro ou da outra pessoa que chegaria, eu olhava para os lados. Nada. Tentei ser amável. Com um gesto, ofereci sorvete. Ele me olhou por detrás dos óculos grossos e franziu a testa. Quieto. Alisava o vinco da calça. Fazia aquilo e nem se dava conta. Foi-me dando uma curiosidade. Será que ele falou nós três mesmo? Eu não teria ouvido errado? Não, ele falou nós três. Ouvi muito bem. Mas e esse terceiro que não chegava?

Todo mundo que entrava na praça eu pensava: é ele. De repente, perguntei-me. Ora, ele. Por que não seria ela? Sim, a terceira pessoa seria uma mulher. Descontraí-me. Mas logo me veio outra indagação. Oh, santo Cristo, que eu tinha com aquilo? Mas sim, a indagação veio assim, porque ela quis vir, independente de mim. Seria a esposa. A namorada. Quem sabe a filha? Neta? Enquanto eu pensava essas coisas, tomava meu sorvete sem sequer sentir o gosto, com o pensamento na tal outra pessoa. Olhei para o velho que, de rabo de olho, me passou uma reprimenda. Meu Deus, que será que ele vai pensar de mim? Tirei o olhar. Mas meus olhos saíram do senhor e caíram na praça. O tal ou a tal que não vinha. Eu me exasperava. 

O sorvete, apesar da minha protelação, acabou. Eu, sem saber da tal terceira pessoa. Queria ir embora. Precisava comprar algumas coisas no mercado. Uma parte de mim, roída pela curiosidade. O velho, impassível. E se eu perguntasse? Não ousei. Imagine. Escuta, o senhor está esperando quem? Homem ou mulher? Nunca! Ele me desancaria.

Fiquei ainda um pouco. Inzonei. Um ardil. Eu perguntaria as horas. Mas, diabos, o meu relógio do tamanho de um pires no braço. Camisa de mangas curtas. Ah, o quê tenho eu de saber se há uma terceira pessoa ou não. Levantei-me e saí. Andei dois passos. Vou perguntar!  Virei-me. Ninguém no banco. Nem perto do banco. Nem longe do banco. O velho não estava lá. Meus braços se contraíram. Meus pelos se erriçaram. Meus cabelos se arrepiaram. O chapéu ficou no alto.

Não peço que ninguém creia nessa história. Só contei para provar que as bruxas não existem, embora estejam por aí. Tem gente vendo a terceira pessoa. Gente que não sabe quem é essa pessoa, mas está propondo a vinda dela. Gente que já propaga intervenção militar. Já vimos o que isso dá.

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