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NOITE DE GALA DA SEGUNDO TENENTE – Por Anna Maria A. Ribeiro

 Foto do perfil de Anna Maria Assis RibeiroA descoberta de que a patente de meu marido poderia ser a mim também conferida foi uma das muitas surpresas que tive ao ingressar, aos dezenove anos, no ambiente militar da Base Aérea de Natal. E não foi das mais agradáveis. Esta patente era a mais baixa na cadeia hierárquica e naquela idade eu me julgava o máximo. Isto causou um enorme descompasso entre poder e ser naquele mundo para mim tão estranho. Logo de saída fiquei sabendo que as casas reservadas para oficiais não eram para meu bico. Eram destinadas a capitães e daí pra cima. Felizmente os americanos, construtores da base, durante a segunda guerra, haviam deixado abandonadas umas edificações que com poucos ajustes poderiam se transformar em pequenos apartamentos. Não foi muito fácil convencer meu marido a solicitar permissão para adaptar uma delas, mas ao final de algum tempo estava eu agindo como mestre de obras comandando a reforma. Nos fundos um enorme matagal que eu, imaginosa que era, descrevia como floresta. Ficou linda nossa casa dotada de uma varanda que fechei com treliças pintadas de branco. O local era ermo e distante de qualquer vida próxima e só muito tempo depois os demais segundo tenentes, seguindo nosso exemplo, para lá se mudaram. Logo que nos instalamos não havia telefone e a solidão preocupou meu marido que se afligia em me deixar sozinha quando de suas constantes viagens. Para sua tranqüilidade conseguiu que um sargento, em sua ausência, dormisse num barracão que existia a poucos metros da casa e ao alcance de meus possíveis gritos de socorro. Certo exagero porque a única ameaça era a existência de minúsculas rãs que surgiam aos pulos quando se acionava a descarga do banheiro. O perigo real, que sequer imaginávamos, era o próprio sargento que se revelou um cruel assassino matando e esquartejando o marido da amante que mantinha na cidade!! Meses após este sanguinolento evento uma Missão Aeronáutica Francesa veio visitar a Base. Um imponente Maréchal de l’Air fazia-se acompanhar de sua marechala e de outros oficiais também acompanhados de suas femininas patentes. Esta visita provocou um impasse: as senhoras dos oficiais superiores brasileiros não falavam francês e o inglês que balbuciavam não ia além do “the book is on the table”. Era imperiosa uma falante presença feminina no jantar. Os homens conseguiam se virar em inglês, língua obrigatória na profissão. Mas mulher que falasse francês e inglês , só eu mesma, a recém chegada segundo tenente, quase adolescente. Era uma subversão da hierarquia, mas o jeito foi admitir minha presença à mesa do jantar de gala entre o Marechal francês e o Brigadeiro Fontenele que havia sido diretor da Escola da Aeronáutica. Este último era adorado pelos tenentes recém promovidos, seus pupilos num passado recente. Era carinhosamente (pelas costas) chamado de Fon Fon. Eu estava me sentindo o máximo, finalmente reconhecida como alguém. Meu marido já não se sentia tão confortável habituado que estava a presenciar muitas das minhas manifestações impróprias. Ele sabia que quanto maior meu entusiasmo, maior a probabilidade de baixar a personalidade clumsy. Filho de franceses dominava a língua como se nativo fosse e por esta razão sentava-se entre a marechala e a senhora do comandante da Base, bem em frente a mim. Tudo ia indo muito bem e fui até elogiada pelo marechal e por Fon Fon por minha desenvoltura em francês. Bem melhor teria sido se o que eu falasse não fosse compreendido porque quando a conversa versou sobre como por vezes nos enganamos com as pessoas, deu-se a tragédia. Espevitada e falando alto para humilhar as senhoras de patente superior que se expressavam por mímica, declarei num francês impecável a seguinte pérola: a gente se engana demais com as pessoas. Imaginem que todas as vezes que meu marido viajava, eu dormia com um sargento encantador, que veio a matar e esquartejar o marido da amante. E eu que dormia sempre com ele nunca desconfiei de nada! O silêncio foi sepulcral e eu, percebendo a barbaridade que havia dito, olhei em pânico para meu marido. A palidez que ele apresentava era impressionante e eu pensei até que fosse desmaiar o que seria ótimo porque desviaria assim a atenção de todos. A marechala apresentava uma expressão de horror e o marechal deglutiu todo o copo de vinho pedindo reabastecimento imediato que também bebeu de um só gole. Rezava eu para que fosse acometido de coma alcoólico quando escuto a voz do querido Fon Fon num esforço para desviar a atenção da catástrofe. Ou, mais provável, visando identificar o marido daquela doida para determinar à imediata transferência para algum remoto posto de fronteira. Ele perguntava: a senhora é casada com qual de meus meninos? Ensaio um gesto para indicar Jean, logo em frente, quando horrorizada vejo a ponta do dedo dele aparecendo na beirada da mesa sacudindo energicamente de um lado para outro exigindo uma não identificação. Sua expressão era de fúria incontida. Apavorada e sem saber o que responder fiz um gesto largo e vago e sai-me desta entaladela, entrando em outra, declarando em alto e bom som: com um destes ai!

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