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NUNCA DIGA… – Por Anna Maria A, Ribeiro

 

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

Faz tempo aprendi: nunca digo “nunca…” Mas naquele janeiro de 1959 eu era ainda muito cônscia de tudo: afirmava coisas a torto e a direito numa certeza de espantar. Uma delas era que nunca alguém me veria tendo um comportamento de fã extremada. Eu achava isto o auge do ridículo. Mas fui desmentida naquele fim de viagem, em Nova York, quando já exaustas, Elsie e eu. Em cada uma das etapas (Cuba, Miami, Washington e finalmente NY) havíamos aproveitado ao máximo todas as possibilidades a nos permitidas por uma condição econômica financeira nada brilhante. Vai daí que andar a pé era obrigatório. E isto na neve num frio que, para nós tupiniquins, era de rachar. Na época morávamos em Salvador onde nossos maridos, oficiais aviadores, serviam na Base Aérea. Até Miami estávamos em companhia deles. De lá seguiram eles para a California e nós para Washington. Pois é: nevava em Nova York. Diga-se de passagem, que tanto Elsie quanto eu estávamos mais que preparadas para enfrentar o frio. Ambas havíamos conseguido por empréstimos de abonadas amigas maternas imponentes casacos de pele (vison!) e qualquer observador noturno nos tomaria por ricas jovens senhoras. Digo noturnos porque os matinais deviam achar assaz estranhos os paramentos. Fazer o que? Eram os únicos que tínhamos para enfrentar aquela geladeira. Mesmo com os casacos o frio penetrava até a alma. Descobrimos então outro aquecedor: conhaque. Meu marido meio francês dizia que conhaque esquentava a dita alma. A verdade é que o corpo nem tanto! Mas vai daí que pontuávamos nossas andanças por paradas estratégicas onde ingeríamos um cálice de conhaque. Em conseqüência retornávamos ao hotel rindo muito. Isto nos fez valer um comentário de um casal de portugueses, também lá hospedados, e com o qual esbarrávamos (literalmente) quase sempre ao chegar: são tão garridas as meninas brasileiras! E garridas nos aventurávamos pela metrópole explorando tudo e qualquer lugar. Sobretudo os gratuitos ou muito baratos. Foi assim que patinamos no gelo no Central Park parecendo dois enormes ursos pardos, chamando uma considerável atenção em meio aos demais patinadores em roupas elegantes e adequadas; tiramos a inevitável foto com King Kong no topo Empire State; e alimentamos esquilos ao embarcarmos para a Estátua da Liberdade. E que mais sei eu. No último dia verificamos que o monte de quinquilharias adquiridas impedia o fechamento das malas. Era imperioso comprar outra. Tiramos par ou impar para ver qual de nós duas iria se aventurar  naquela nevasca. Eu perdi e desconsolada enfrentei a rua. Na volta, já bem perto do hotel, carregando a droga da mala, dei uma trombada em um homem que tinha nas mãos alguns embrulhos e tudo foi ao chão. Curvamo-nos ambos para apanhar, ao mesmo tempo nos desculpando. Quando me levanto quase desmaio. O homem era Charles Boyer. Dei um grito enunciando seu nome. Ele sorriu amável. Imediatamente, nervosíssima, começo a falar francês como uma metralhadora. Não me lembro o inteiro teor de meu desconexo discurso. Mas em algum momento eu disse que era brasileira e que ali em Nova York havia visto seu último filme: Une Parisienne com Henry Vidal e Brigitte Bardot. Amabilíssimo ele me pergunta como era a divulgação de seus filmes no Brasil. A este ponto meti os pés pelas mãos porque declarei que minha avó o adorava. E ele rindo, perguntou: et vous, pas? Percebendo o desastre que havia cometido engreno um discurso que pretendia atestar minha idolatria por ele, naquela época, um homem cerca de sessenta anos. Para mim um velho! Cito todos os filmes que eu havia amado. E eis que anjos celestes começam a cantar: ele me convida para tomar um café! Entro na cafeteria e, indignada, percebo que ninguém olhava. Aqueles americanos idiotas não se davam conta de que eu me fazia acompanhar de Charles Boyer! Testemunhas em um fato destes são indispensáveis. E vem como um raio a consciência de que eu precisava falar imediatamente com Elsie para que viesse com a máquina que havíamos adquirido em condomínio para documentar o extraordinário encontro. Peço licença para me afastar por alguns minutos para ir à cabine telefônica avisar a minha companheira de viagem que iria me demorar um pouco. Corro na neve num equilíbrio instável (dois conhaques na ida e dois na volta!). Aflita grito para Elsie (em francês!): corre aqui na esquina! Traz a máquina. Estou tomando café com Charles Boyer! Do outro lado, uma voz carregada de censura responde: você está bêbada. Venha imediatamente para o hotel! E desliga! Desolada volto à cafeteria. Nunca conseguiria provar o extraordinário encontro. Num esforço de reportagem consigo resumir meus vinte oito anos de vida em dez minutos de forma bastante fantasiosa descrevendo meu sucesso como atriz na Escola de Teatro da Bahia! Em despedida recebo um beijo na face, uma vaga promessa de que se viesse ao Brasil me procuraria e, desgraçadamente, nenhum convite para atuar em um de seus filmes! Volto para o hotel excitadíssima. Ao entrar no quarto reafirmo à Elsie que eu havia tomado café com Charles Boyer. Ela desagradável responde: È? Então me mostra o autógrafo! Em desespero percebo que minha inexperiência como tiete havia feito com que eu não houvesse tomado a única providência que atestaria o acontecido!  

E-mail: annadeassis@gmail.com   

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