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O MENINO E A FINITUDE – Por Anna Maria A. Ribeiro

Foto do perfil de Anna Maria Assis RibeiroA morte do Tupi, assim de repente, causa uma devastação na cabecinha do menino. Em seus quatro anos morte é um fato totalmente desconhecido e a compreensão de que cachorro que morre não late, não come, não pula e não lambe o rosto, é muito difícil, se não impossível. O Pai e a Mãe desdobram-se em explicações e numa concessão extrema (já que não aprovavam mentiras) enviam Tupi a caminho do céu onde irá brincar com anjinhos, nas nuvens. O menino detesta esta idéia. Os anjinhos que arranjem outro cachorro pra eles! Por que é que não levaram o cachorro do Tico? Numa última tentativa para acabar com aquele horror, ele pede: e se passar mercúrio cromo nele? Quem sabe aquele miraculoso remédio vermelho que não arde restabelecerá a normalidade, o todo dia gostoso, o acordar com uma lambida. Uma enorme sensação de insegurança se instala ao saber que nem mercúrio cromo cura aquela doença horrível. Somem com Tupi e a casa fica em silêncio de dia. Coisa muito estranha: silêncio é coisa de noite. O Pai sai para trabalhar e a Mãe desvela-se em cuidados e atenções. E ele constata que quando Tupi morre ele pode tomar banho de mangueira, molhar o chão e comer fora da hora do almoço e não ir ao maternal que não acontece nada. Coisa mais esquisita. E ele não sabe, mas o que sente, pela primeira vez na vida, é tristeza. Mudo, ele anda pela casa vendo ausência em cada canto. Ele também não sabe o que é isto, mas sente. A Mãe, preocupada, telefona para o pediatra. Nada a fazer, carinho ajuda. Vai passar. O primeiro contato é assim mesmo. O Pai chega do trabalho e o põe no colo. Fala que vai comprar um cachorrinho lindo que ele passa a detestar naquele mesmo momento. Coisas muito estranhas acontecem por causa da morte de Tupi: ninguém fala na hora de dormir, ninguém insiste para que ele coma espinafre. Mais estranho ainda, o Pai coloca um colchão ao lado de sua cama e informa que vai dormir com ele! E na mesma hora em que ele for dormir! E essa hora não tem hora!! Vai ser quando ele quiser. E de repente ele passa a querer só para ver o que de mais esquisito vai acontecer. Instalado entre as cobertas olha para o Pai que lê com a ajuda de um pequeno abajur, colocado no chão ao lado do colchão e se perde em pensamentos. E foi ai que se instalou o horror. O menino faz, pela primeira vez na vida, uma inferência. E esta é trágica. Numa voz insegura, beirando o choro que havia se recusado aparecer até ali, ele chama: Pai! O Pai levanta os olhos do livro e apavorado escuta a pergunta que temia e que em algum momento viria: Você vai morrer? Não vai dar pra mentir agora e, cauteloso, ele explica: vai morrer, sim. Mas vai demorar muito, muito tempo. Só vai acontecer quando estiver velho, muito velho e com vontade de descansar. Ele, o menino, vai estar velho também. Muito velho. Afirma categórico: você já vai ter filhos e muitos netos quando Papai morrer. Agora dorme. O menino se ajeita nas cobertas e fecha os olhos. O Pai aliviado volta à leitura. Deu certo! Passam-se alguns minutos e lá vem a voz trêmula de novo: Pai! Mamãe vai morrer? O Pai, agora mais seguro com o sucesso na primeira explicação, anima-se repetindo a história e animado, acrescenta bisnetos à descendência que se fará presente na época em que se der a morte da mãe. De novo, carinhoso, pede: agora dorme, meu filho. Comovido olha para o menino que obediente fecha os olhos e parece dormir. Volta ao livro e um longo tempo se passa até que volte a voz na pergunta que o deixa gelado: Pai! Eu vou morrer? Agora danou-se, pensa o Pai. Esquecido de todas as regras que sempre se impôs de bem informar o filho dizendo a verdade, não só repete a descrição da morte do menino rodeado de filhos, netos, bisnetos e tataranetos, como assegura que ele partirá radiante porque irá ao encontro dele Pai, da Mãe e, sobretudo, de Tupi que lá o aguarda saltitante. Os três o estarão esperando numa casa linda cheia de macacos nas árvores (o menino adora macacos). Perde-se numa descrição mirabolante desta moradia celeste. E ao terminar, censurando-se pela covardia e muito culpado, implora: agora dorme, meu filho. O silêncio agora se estabelece por muito tempo e o Pai consegue se desculpar: o importante agora era trazer a paz para aquela cabecinha atormentada. Mais tarde a verdade se instalará, naturalmente, em toda sua crueza. Mas não precisa ser agora. Ele é tão pequeno! Apaga a luz aliviado. Está exausto. Amanhã as coisas estarão mais diluídas e quem sabe o novo cachorrinho… e é ai que escuta a voz que agora vem carregada de espanto monumental: Pai! Que loucura, heim?!

Anna Maria Assis Ribeiro <annadeassis@gmail.com

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