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OA GALEGOS- Velha história

OS “GALEGOS”

No Brasil, chamar um português de galego pode ser tão ou mais depreciativo do que chamar um sírio ou um libanês de turco ou, ainda, um estadunidense de gringo. Aliás, os estrangeiros de países de línguas neolatinas raramente são considerados gringos, embora no Rio Grande do Sul os italianos — que, em São Paulo, são designados pejorativamente por carcamanos — sejam também assim chamados. Gringos são preferencialmente os de língua anglo-saxônica. Mas os gringos são assunto para outra história.

 

Galegos são de fato os espanhóis naturais da Galiza, região noroeste da Espanha. “O norte de Portugal é a Galiza”, diz-se com propriedade, pois ali se fala, além do castelhano (o espanhol oficial) o galego, idioma muito semelhante ao português, por terem ambos a mesma origem, o galáico-português.

 

Um parêntese: aqui, no Brasil, a Galiza é chamada de Galícia. Em espanhol se escreve Galicia, mas, como a pronúncia tem um som de zê, em Portugal se escreve Galiza, grafia que devemos preferir para evitar confusão com a Galícia, região situada na Europa central, ao norte dos Cárpatos, que foi objeto de disputas e teatro de combates nas duas grandes guerras e que, desde 1945, está dividida entre a Polônia e a Rússia.

 

Na idade média Santiago de Compostela, na Galiza, foi célebre centro de peregrinação católica cuja importância só era menor do que Roma e Jerusalém. A devoção a Tiago (ou Iago, Jacó e Jacques) pelos espanhóis deu origem a cinco cidades com seu nome nas Américas, a mais conhecida delas é a capital do Chile; uma —pouco conhecida —, na República Dominicana; outra, no Brasil, no Rio Grande do Sul; outra na Argentina e a quinta em Cuba. A propósito assinale-se que o pai de Fidel Castro era um pobre imigrante galego. Em contrapartida, um galego famoso foi o generalíssimo Francisco Franco que, apesar de sua origem, proibiu o uso da língua galega.

 

Fechado o parêntese. Mais recentemente e até o princípio deste século, a Galiza era uma das mais pobres regiões da Espanha, o que acarretou elevado índice de migração interna —motivo de discriminação para os galegos mesmo dentro da Espanha — e, principalmente, razão para emigração. Em 1920 havia mais galegos vivendo fora da Espanha do que na própria Galiza, o que é recorde mundial.

 

A emigração galega demandava até mesmo Portugal. Em “A Descoberta de Portugal” (1) lê-se: “Tipos Populares de Lisboa: Tipo pitoresco foi o galego simplório, vindo de sua terra, Tui ou Orense, vivendo aqui em “casa de malta”, avesso à higiene (sic) e gastando o mínimo; disposto a todo o trabalho (grifo nosso), na esperança de amealhar um pecúlio que lhe permitisse regressar com a velhice assegurada. Eles foram moços-de-frete, aguadeiros (conseqüentemente bombeiros, pois não havia corporações formadas) fiéis mensageiros de amor nas cartas dos namorados, e, quando em equipa de dois, até constituíram “ambulâncias” para levar doentes ao hospital, no seu curioso engenho de uma cadeira deitada, corda, dois chinguiços e um pau de surriola. Alguns ainda viriam a estabelecer-se com mercearia, talho de miudezas ou vinhos a retalho, negócios tanto do seu agrado” (página 325)

 

Esclarecido isso tudo, vamos adiante. Por que, no Brasil, chamamos de galegos os portugueses, se não o são? Uma primeira explicação, mais ou menos óbvia, está na maior proximidade lingüística do galego do que do castelhano com o português. Para o ouvido brasileiro o falar fechado, engolindo vogais e até sílabas, dos imigrantes portugueses e galegos era quase a mesma coisa. 

 

Bem, mas por que o português não gosta de ser designado por “galego”? Seria apenas por uma questão de patriotismo? (No caso do sírio e do libanês sabemos que chamá-los de “turcos” é depreciativo por ter sido toda a região dominada pelo Império Otomano, até o final da I Guerra, tendo vindo para o Brasil, portanto, os imigrantes sírios e libaneses com passaportes turcos). Seria só porque, já em Portugal, os galegos eram discriminados?

Vejamos.

 

Vamos agora focalizar o Brasil e a sua ex- capital.

 No Rio de Janeiro antigo os dejetos sanitários das habitações eram recolhidos em barris especiais, mantidos nos quintais, e transportados à noite pelos escravos, para determinadas praias, onde eram descarregados e lavados. O povo apelidou de “tigres” esses carregadores, sendo chamado “sangue de tigre” o conteúdo das barricas. Na medida em que a cidade cresceu, os barris passaram a ser transportados por carroças com tração animal, o que chegou a ser feito por empresas particulares, entretanto sem êxito comercial.

 

Quando capital do Império, o Rio de Janeiro já era uma moderna cidade do século XIX.  A “The Rio de Janeiro City Improvement Company Ltd”, de Londres, contratada em 1862 para fazer o serviço de limpeza das casas e do esgoto das águas pluviais, inaugurava, já em 1864, o serviço de esgotamento do distrito da Glória, tornando o Rio a segunda capital do mundo, depois de Londres, a possuir tais serviços. Entretanto, embora a área abrangida pelo sistema de esgotos fosse inicialmente de 424 ha, compreendendo também os distritos da Gamboa e do Arsenal de Marinha, o transporte por carroças abertas, de madeira, puxadas por burros, para conduzir lamas e detritos de esgotos da rede, de poços e de estações de tratamento, para embarcações que os recolhiam na enseada da Glória – atual Aterro do Flamengo – e no canal do Mangue, na avenida Francisco Bicalho, para posterior lançamento no mar, longe da costa, persistiu até 1915.

 

No fim do século XIX, com o fim da escravatura, aumentou a imigração européia para o Brasil, vinda principalmente da península ibérica, como mão-de-obra substitutiva para todos os trabalhos. Os imigrantes não qualificados que ficaram na cidade do Rio de Janeiro eram utilizados em trabalhos braçais tal como os ex-escravos, inclusive como “tigres”, designação adequada, pois era preciso ser uma “fera” para enfrentar trabalho sob todos os aspectos tão pesado. E muitos desses homens eram oriundos da Galiza, talvez até embarcados em Lisboa, junto com os portugueses.

 

Claro que não era agradável ser reconhecido ou identificado como um galego “tigre”. Ser pobre é mesmo uma…  desgraça.

 

Como o espírito brincalhão e irreverente do carioca vem de longe, quando um português era chamado de galego, ele se ofendia, fazendo imediata associação de idéias, achando que era uma gozação muito forte, e logo desafiava para “sair no braço.”

 

Virá daí o cunho pejorativo?  Pelos fatos narrados é uma hipótese possível.               

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(1) “A Descoberta de Portugal”, uma edição de Selecções do Reader’s Digest, S.A.R.L., Lisboa 1982, 552 p.

 (15 de fevereiro de

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