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OLIVEIRA – De CARLOS MAGNO DE MELO – SALVADOR – BAHIA – Brasil

Oliveira

Carlos Magno de Melo – Escritor e médico

Membro da AVELA – Academia Valenciana de Educação Letras e Artes.

Em Lisboa há uma praça, em frente à Casa dos Bicos, construída em 1523 por Brás Albuquerque, depois de voltar da Itália e que usou como modelo arquitetônico, o Palácio dos Diamantes. Trata-se, essa Casa dos Bicos, da sede da Fundação José Saramago, na beira do Tejo, próximo à Praça do Comércio, nos sopés da colina de Alfama, o bairro triste dos fados. É uma pequena praça quase totalmente inóspita. Não chega à inópia por precária salvação de uma oliveira em um canto, quase à margem da rua e de um simplório banco de cimento. Situa-se na Rua dos Bacalhoeiros.

            Ao pé da oliveira raquítica, verdeja um quadradinho de grama. O banco solitário ao lado recebe a parca sombra da arvorezinha. Pois naquele quadradinho estão as cinzas de Saramago. Àquela pobre e pasmada oliveira, que representa a mudinha da oliveira que Saramago levou no avião, protegendo-a com as próprias pernas, desde a aldeia de Azinhaga, sua aldeia natal, na província do Ribatejo, até Lanzarote, onde a plantou em sua casa. Aquela esquálida oliveira foi arrancada de sua cova nativa, de sua terra natal, também terra do maior escritor moderno de Portugal. E a ela deram-lhe a incumbência de se tornar um monumento. Solitária ali, nem pode viver com viço, pois de banzo deve sofrer e nem pode sequer morrer, pois é o monumento à simplicidade de um homem, maior de todos os que escreveram junto com ele a literatura da Língua Portuguesa, por um tempo na História. Um homem que não cria na alma, mas deram-lhe por epitáfio uma frase que afirma que ele não está ali, mas nas estrelas, contrariando-o. Ele está é ali, ao pé da raquítica oliveira – e na memória dos povos. Frutos se formam no meio das folhas de pálido verde. Frutos nutridos de cinzas.

            Agora, em julho, eu estava sentado no banco, bem aquele lá, quando dois homens chegaram com vasilhas d´água e jogaram na grama e ao pé da oliveira. Felizes os que dão de beber a quem tem sede. Todos os dias, jogamos água aqui. Trabalhamos na Fundação. Mais do que a grama e a oliveira, estão dando água a Saramago. Um deles parou e me olhou longamente. Volveu os olhos para o quadradinho mal molhado, pensou e pronunciou: as cinzas.

Ele jogará a água, daquela hora em diante, com outro sentido, imaginei.

 

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