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PASSATEMPOS – De MIA COUTO – Escritor Moçambicano

Pensatempos

Mia Couto

            500.000 crianças vietnamitas nasceram deformadas em consequência da guerra química das forças norte-americanas.

 

            Senhor Presidente:

            Sua Excelência parece não necessitar que uma instituição internacional legitime o seu direito de intervenção militar. Ao menos que possamos nós encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e mais milhões de cidadãos não ficamos convencidos quando o vimos justificar a guerra. Nós preferíamos vê-lo assinar a Convenção de Kioto para conter o efeito de estufa.

            Não se preocupe, Senhor Presidente. A nós, nações pequenas deste mundo, não nos passa pela cabeça exigir a sua demissão por causa desse apoio que as vossas sucessivas administrações concederam a não menos sucessivos ditadores. A maior ameaça que pesa sobre a América não são armamentos de outros. É o universo de mentira que se criou em redor dos vossos cidadãos.

            O maior perigo não é o regime de Saddam, nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida pelos próprios americanos. Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação para consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar.

 

(Carta “enviada” ao Presidente George W. Bush em 2003, que poderia ser enviada agora ao Obama.)

 

            O cenário que se abriu no Iraque não foi o de uma nova página. Foi a de um livro contaminado. Mais do que isso, foi um livro armadilhado. A intervenção americana fabricou apenas num ano mais fundamentalismo do que os teólogos radicais fizeram durante décadas.

 

 

            A aversão pelo erro é o mais grave dos erros. Devemos manter o gosto por experimentar, mesmo cometendo falhas. Não podemos ter medo de não saber. O que devemos recear é o não termos inquietação para passarmos a saber.

 

            Quando falamos de mestiçagem falamos com algum receio como se o produto híbrido fosse qualquer coisa menos pura. Mas não existe pureza quando se fala da espécie humana. E se nos mestiçamos significa que alguém mais, do outro lado, recebeu algo que era nosso.

            Defensores da pureza africana multiplicam esforços para encontrar essa essência. Alguns vão garimpando no passado. Outros tentam localizar o autenticamente africano na tradição rural. Como se a modernidade que os africanos estão inventando nas zonas urbanas não fosse ela própria igualmente africana.

 

 

            O escritor não é apenas aquele que escreve. É aquele que é capaz de engravidar os outros de sentimentos e de encantamento.

            Passamos de um período em que os nossos heróis acabam sempre mortos para outro tempo em que os heróis já nem sequer nascem. O que queremos e sonhamos é uma pátria que já não precise de heróis.

 

 

            A web é uma rede mas também uma teia. Nessa teia a que voluntariamente aderimos seremos a aranha se tivermos estratégia. Seremos a mosca se nos mantivermos pensando com a cabeça dos outros.

 

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            O pescador trabalhava o vento, afeiçoando as brisas aos panos brancos. O vento assobiava entre as velas. Eu preparava-me para fotografar quando ele me advertiu:

            Não fotografe agora que está um vento muito assobioso, me deixe virar um pouco a canoa.

            Obedeci como se outra racionalidade fizesse de suas palavras uma verdade inquestionável. A mesma verdade atravessa este conjunto de fotos: cada uma delas tem que ser ouvida, tanto quanto olhada.  E é esta capacidade de evocar músicas, risos, choros que transforma estas fotos em lugares.

            A primeira tentação do fotógrafo profissional que faz uma excursão à África é a mesma dos caçadores: capturar exotismos como se fossem seres. Os ingleses dizem mesmo to shoot para dizer fotografar. Uma sublimação da caça com outros alvos, a foto prolonga esse desejo de domínio de algo que tende a escapar?  

            Contemplam-se estas fotografias como se olha uma janela: vendo-se para além delas, num sem-fim de horizontes que hesitam entre morar dentro ou fora de nós.

            O fotógrafo desembarca em qualquer povoação do continente africano e aí está a instantânea multidão reclamando querer “sair” na foto.

            A expressão é apropriada; “saindo” na foto, aquela gente emigra da sua solidão histórica. É como se visitasse outros mundos por via do papelinho impresso. Como designar, então, a profissão destes caçadores de fascínio? Fotógrafo é um termo que não basta. Melhor seria chamá-los de imaginógrafos. Esse trabalho, me seja perdoado, é obra divina. Daqui que estas palavras toquem seu joelho no chão do papel. Sinal de gratidão para com esses que rascunharam com luz, cor e sombra a História de um continente tão cheio de estórias.  Que estas palavras sejam lidas como o insuficiente reconhecimento para com esses que nos doaram um outro olhar e nos facultaram a descoberta de fascinantes mundos que tão perto estavam mas que não sabíamos ver.

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            As palavras e os conceitos são vivos, escapam escorregadios como peixes entre as mãos do pensamento. E como peixes movem-se ao longo do rio da História. Há quem pense que pode pescar e congelar conceitos. Essa pessoa será quanto muito um colecionador de ideias mortas.

 

            Podemos ser diversas coisas. O erro é quando queremos ser apenas uma. O erro é quando queremos negar que somos diversas coisas ao mesmo tempo.

             A verdade é que não existe ninguém que seja “puro”. A nossa espécie humana é toda ela feita de mestiçagens. Há milhões de anos que nos andamos cruzando, trocando genes, traficando valores. As identidades são como os dedos da mão. De quando em quando, há um desses dedos que incha e não deixa ver os restantes dedos. Cada um de nós, em certo momento da vida, já sentiu esse inchaço na sua alma. Houve dias que fomos mais de uma etnia, de uma religião, de um clube. Mas a mão continua sedo composta por múltiplos dedos.

            Certa vez, alguém perguntou a Bem Harper, um famoso músico americano:

            Ouvimos dizer que você tem agora um novo baterista na sua banda. Diga-me uma coisa; ele é negro?

            E Harper respondeu: Não sei, nunca lhe perguntei.

            Temos que ter cautela sobre a facilidade com que invadimos a alma dos outros.

            Se existem brancos que são africanos, se existem negros que são americanos, por que os pretos não podem ser europeus? Existem hoje centenas de milhares de pretos que nasceram na Europa. Estudaram, cresceram, absorveram valores. Converteram-se em cidadãos dos países em que nasceram. A grande maioria vai viver para sempre nesses países. Terão filhos e netos europeus. E não podem cair na armadilha de reivindicar um gueto, uma espécie de cidadania de segunda classe que toma o nome de “afro-europeu”. São europeus por direito inteiro e próprio, são europeus sem nenhum favor ou condescendência.

            Tudo isso para dizer o seguinte: um homem não é uma margem que apenas existe de um ou de outro lado. Um homem é uma ponte ligando as diversas margens.

            O debate da dupla nacionalidade em Moçambique sempre ficou muito contaminado pelo fato de se pensar que se está a debater a acumulação da nacionalidade portuguesa e moçambicana. Quantos milhares de moçambicanos têm a sua história divididos entre o serem moçambicanos e zimabweanos, sul-africanos, tanzanianos, swazis? Eles terão para sempre fidelidades “divididas”. O que não quer dizer que sejam menos moçambicanos ou que se sintam menos moçambicanos que qualquer outro cidadão nacional.

            Escrevi “divididas” de propósito. É um erro intencional. Recordo a lição do poeta Craveirinha quando ele se referia à sua origem mestiça: “sou um homem repartido, não sou um homem dividido.” É assim, repartidos e não divididos, que todos nós aqui nos apresentamos. Não há nenhum de nós que seja cidadão de uma só nação. Repartimo-nos por universos vários. Somos cidadãos da oralidade mas também da escrita. Somos urbanos e rurais. Somos da nação da tradição e da modernidade. Sentamo-nos ao computador e na esteira, sem nos sentirmos estranhos em nenhum dos assentos.

            Moçambique é uma nação de muitas nações. E isso deve conviver perfeitamente dentro do espaço moçambicano. Como deve conviver dentro de cada um de nós. Teremos , sim que desconfiar de certos políticos que tentarão converter as nossas diferenças em alavancas de divisão. Desconfiemos, sim, dos que sugerem cruzadas à procura da pureza ou da autenticidade.

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            O que um escritor nos dá não são livros. O que ele nos dá, por via da escrita, é um mundo.

            Guimarães Rosa, médico e diplomata, não aceitou fazer da literatura uma carreira. Interessava-o sim a intensidade, a experiência quase religiosa. A maior parte dos seus nove livros foi publicada postumamente.

 

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            A biologia é para mim uma indisciplina científica, um modo de estar mais perto das perguntas do que das respostas. Acredito na ciência mas apenas como um dos caminhos. Sei que há outros. E assim como a ciência se foi, às vezes, tornando muito pouco científica, também as outras sabedorias foram ganhando terreno na minha relação com o mundo.

            É igualmente um risco terem dado a palavra a um moçambicano. Em Moçambique, nós levantamo-nos sempre com um ar humilde, anunciando-nos com modos tímidos e dizemos “tenho pouca coisa a dizer, no entanto, vou tentar dizer qualquer coisinha…” e, depois falamos durante horas sem parar.

            Eu já tinha escrito e reescrito um texto para esta comunicação (palestra) e, como sempre me acontece, na véspera da viagem ainda me encontrava perdido nos meus próprios meandros.  Foi então que, como por acaso, uma frase de Mahatma Gandhi me sugeriu como que uma espécie de mote. Disse Gandhi: “A política sem princípios, o comércio sem moral, a riqueza sem trabalho, a ciência sem humanidade, a educação sem caráter, a religião sem sacrifício, o prazer sem consciência: estes são os sete pecados que estão na base da degeneração das sociedades.”

            Com ironia se diz que hoje os sete pecados capitais passaram a ser os sete pecados do capital. Mas falarei, aqui, dos sete inventados pecados da Biologia. A verdade é que já fomos mais comportados, sobretudo quando a Biologia ainda era chamada de História Natural. Mas depois fomos resvalando, caídos em tentação. A Biologia, parecendo íntegra e casada com o racionalismo científico não consegue, afinal, desligar-se dessa companhia que se chama o Poder. E o Poder move-se por razões que a própria Razão bem conhece.

            Digamos que a vaidade seja o primeiro dos sete pecados. E para falar na vaidade relembro aqui um episódio recente. Há pouco tempo ia lançar um livro na Inglaterra e os editores telefonaram e perguntaram-me: “como é que vamos apresentá-lo a um público que não o conhece? Envie-nos mais informações sobre si”. Pedido impossível. O que eu poderia eu dizer sobre mim mesmo? Como poderia eu tornar-me mais vendável? Enviei novos detalhes sobre os meus livros, o meu percurso literário. Mas não parecia suficiente. Pediam-me mais. O que queriam saber? Detalhes escabrosos, escândalos privados? Ora eu nunca estive preso, não apanho cobras venenosas com a mão. Que poderia invocar para satisfazer esse rastilho de curiosidade? Até que, num dado momento, ao telefone, me escapou dizer que era biólogo. “É biólogo?”, perguntaram com estranho entusiasmo. “Ótimo, ótimo. E o que faz?” “Trabalho como ecologista.” “Melhor ainda”, responderam com crescente animação. “E está ligado mais concretamente a quê? Respondi que estava ligado à criação de uma reserva faunística, um parque fronteiriço unindo Moçambique à África do Sul. Não tive tempo de terminar. Exclamações efusivas me interromperam do outro lado da linha. “Fantástico, envie-nos toda a informação sobre isso.” E foi assim que indo a Londres, como escritor, fiz apenas um encontro literário e dez sessões de debate sobre conservação da fauna.

Relato essa experiência para falar de certa mistificação que se foi criando em nosso redor. Ser-se biólogo é hoje não apenas uma profissão, mas uma condição romantizada. É aqui que surge a tentação da vaidade.

Os biólogos são tidos como seres exóticos que justificam a produção dos documentários televisivos da National Geographic . Mas a Natureza que surge nos documentários tem pouco a ver com a Natureza com que nós realmente trabalhamos.

Essa romantização pode ter efeitos positivos. Foi ela, por exemplo, que me fez escolher caminhos. Desde menino eu sonhava trabalhar com bichos, ser parceiro de Noé na salvação dos seres vivos. Inscrevi-me no curso, já homem feito, mas ainda embalado nessa ilusão de que iria salvar o mundo. Mesmo que o mundo ingrato não mostrasse reconhecimento.

Aconteceu, entretanto, que os relatórios médicos sobre o nosso planeta se foram agravando, rabiscados em pinceladas cada vez mais trágicas, os desertos amarelecendo a paisagem, o verde, o azul e as espécies em extinção, buracos no teto do firmamento, o universo como um micro-ondas descontrolado. Neste cenário apocalíptico se reclamava com urgência por um novo messianismo, autenticado pela autoridade da ciência.

Estamos perante uma encenação: o fazermos crer que a ciência biológica pode ser esse Messias. O anúncio parece ter credibilidade: já lemos os genes e lá está o segredo de toda a alquimia. Controlando esse alfabeto, seremos não os leitores da criação, seremos nós os seus novos autores. Deus escreveu a ovelha, nós publicamos a Dolly.

Generalizou-se a ideia de que estamos perto do fim da doença, de que estamos perto da eternidade. Esse anunciar do paraíso só pode ser alimentado pelo pecado da soberba.

Isto é tanto mais grave quanto a arrogância da espécie humana coexiste com um sentimento de desproteção total. Há anos que o fogo, e a água não povoavam tanto o nosso imaginário. Os temas dos filmes e dos livros traduzem o reacender desses receios atávicos: meteoritos, maremotos, sismos, secas, vulcões, tufões e ciclones. A lista de catástrofes naturais parece não ter fim. A própria doença reganhou o estatuto de um território movediço e demoníaco. A doença ressurge como punição celestial provocada pelos desmandos morais. Nem no espaço amuralhado dos nossos gabinetes estamos livres dessa perniciosa invasão. Mesmo na intimidade do computador se reconfirma a nossa fragilidade mundana, cercados por seres virtuais a que curiosamente chamamos de “vírus”.

Os biólogos e a biologia tornaram-se o tema mais sexy das páginas de divulgação. É aqui que se pode falar no pecado da luxúria.

            O jogo de sedução é este: pedem-nos que avancemos explicações simplistas e soluções totais. Do gênero: comer ao ar livre previne o cancro da próstata, as loiras são mais propícias a desenvolver atitudes mais ciumentas, foi descoberto o genes do fundamentalismo religioso. Em troca desse aval ficamos nós, biólogos, mais visíveis, mais apetecíveis em termos de investimentos políticos e apostas financeiras. Antes era a cobra que providenciava a banha miraculosa. Agora, essa banha é a caução “científica” que embrulha um produto chamado sensação.

            A imprensa não concede espaço a um cientista que diga que as coisas não são tão fáceis, e que não é possível anunciar respostas salvadoras. Essa honestidade não vende.

            Estamos lidando com uma biologia de tipo novo a que poderíamos chamar biologia pop, ou biologia light.

Podemos também estar cedendo à tentação de outro pecado: o da inveja. Ficamos corroídos por uma insuportável inveja da onipotência e da onisciência. A verdade é que nossos poderes são enormes, mas teremos ainda que nos interrogar sobre os limites e os usos indevidos dessa sabedoria. Foi ainda este mês que se desvendou o caso do temível polvo gigante que deu à praia no Chile. A criatura das profundezas pesava mais de sete toneladas. Um colega nosso, prestigiado especialista em cefalópodes identificou a espécie desconhecida e a batizou de Octopus giganteus .                                                                                                                                                Pois aconteceu o seguinte: pedaços dessa massa informe foram agora analisados em laboratório e o resultado foi este: tratava-se pura e simplesmente de gordura de baleia em decomposição.

Falta-nos rir saudavelmente de nós mesmos. O não nos levarmos tão a sério pode ser a melhor cura para o pecado da soberba.

Relembro a ingenuidade que há muitos anos me fez sonhar em ser biólogo, essa vontade de levar o mundo ao colo ante um mundo em chamas . Hoje a pergunta com que nos confrontamos é simples: estamos nós realmente salvando o mundo? Não me parece que a resposta possa ser aquela que gostaríamos. O mundo só pode ser salvo se for outro, se esse outro mundo nascer em nós e os fizer nascer nele.

E é aqui que o pecado da preguiça pode estar ganhando corpo. Aos poucos cedemos ao convite de não mais colocarmos em causa quem somos, o que sabemos, o que fazemos. Insistem conosco em que as soluções virão de sofisticadas tecnologias e de que pouco vale questionarmos os desafios políticos e sociais de nosso tempo. A ideia de que não vale a pena tentar outra utopia conduz à acomodação e ao conformismo intelectual.

A própria ideia de Ciência – que nos parece isenta e acima de toda a suspeita – é uma ideia tão exclusivista que pode ser entendida como uma ideia gulosa. Engorda não por comer, mas por fazer dieta. E essa dieta consiste em ignorar outras sabedorias, outros sistemas de conhecimento.

Há mais que se pode dizer sobre o pecado da gula. É que fomos igualmente deglutindo o sentido de algumas das nossas descobertas. Mastigamos as implicações das nossas conclusões. Guardamos na caixa da Ciência tesouros que tanto podem ajudar na busca de valores morais. E aqui poderá residir o pecado da avareza.

Durante mito tempo dissemos que a competição e a eliminação dos mais fracos eram o motor da evolução natural. Sem querer, demos crédito à chamada lei do mais forte. Sancionamos o pecado da ira dos poderosos no extermínio dos chamados fracos.

Sabemos hoje que a simbiose é um dos mecanismos mais poderosos da evolução. Mas deixamos que isso ficasse no esquecimento.  Sabemos hoje que a capacidade de criar diversidade foi o mais importante segredo da nossa época como espécie que se adaptou e sobreviveu. No entanto, vamo-nos contentando com o estatuto que a nós mesmos conferimos: o sermos a espécie “sabedora”.

Os avanços no domínio do conhecimento fazem-se através de caminhos paradoxais. A nossa ciência, sendo da vida, fez-se também por estradas da morte: a biologia sacrificou a planta para a herborizar, matou o bicho para o dissecar, laminou a célula para a mergulhar nos solventes e espreitá-la sob a lente do microscópio. Mas há outros modos de matar. Não matar o objeto do conhecimento mas o próprio conhecimento. Um desses modos de aniquilar é aprisionar em conceitos estreitos essa infinita complexidade a que damos o nome de Vida.

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Falei dos pecados da Biologia. Mas não trocaria essa janela por nenhuma outra. A Biologia ensinou-me coisas fundamentais. Uma delas foi a humildade. Esta nova ciência me ajudou a entender outras linguagens, a fala das árvores, a fala dos que não falam. A Biologia me serviu de ponte para outros saberes. Com elas entendi a Vida como uma história, uma narrativa perpétua que se escreve não em letras, mas em vidas.

A Biologia me alimentou a escrita literária como se fosse um desses velhos contadores não de histórias mas de sabedorias. E reconheci lições que a nós tinham sido passadas quando ainda não tínhamos sido dados à luz. No redondo do ventre materno, já ali aprendíamos o ritmo e os ciclos do tempo. Essa foi a nossa primeira lição de música. O coração é o primeiro órgão a formar-se na morfogênese. Ao vigésimo segundo dia da nossa existência esse músculo começa a bater. É o primeiro som que produzimos. Com vinte e dois dias, aprendemos que essa dança a que chamamos Vida se fará ao compasso de um tambor feito da nossa própria carne.

 

Águas do meu princípio                                                                 A cidade não é um lugar. É a moldura de uma vida. A moldura à procura de retrato.                                                                                  Falo da minha Beira, pequena cidade em que nasci, localizada no centro de Moçambique. A Beira é um sítio roubado às águas de um estuário. Cidade líquida, num chão fluvial. Tanto que, para falar dela, digo: a Beira, minha água natal, um lugar acanhado, aonde o mundo chegava em segunda mão. O Índico ficou margem da minha alma. Nesse “lá” eu nasci. Tanto que , agora, os meus sonhos são anfíbios. O passado é um litoral onde tudo se converte em espuma. E a minha cidade, cordão umbilical que criamos depois de nascermos, é feita de maresia e espuma.

 

 

 

Todos os cidadãos moçambicanos partilham a mesma condição: navegadores entre culturas, inventando permanentemente modos de adaptação que dão vantagem às trocas politicamente mais eficazes, ideologicamente mais convincentes, tecnologicamente mais apuradas e socialmente mais promissoras. Hoje, nenhuma cidade ambiciono. Enche-me de saudade é um bairro, um simples muro onde me possa sentar com meus amigos de infância.

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