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QUEDA DO MINISTRO EM TRÊS TEMPOS – POR ANNA MARIA A. RIBEIRO

 

Episódio 1

Foto do perfil de Anna Maria Assis RibeiroOrgulhosa, ela escutou o convite: o Ministro queria conhecê-la. Sua solução para a automação no tratamento das informações daquele importante projeto era uma inovação, na época. Merecia elogios. Aprontou-se, o mais executiva que conseguiu com seu guarda-roupa nada ortodoxo e mandou-se para o ministério. Ali sentada, frente ao Ministro emoldurado pela Bandeira e pelo retrato do Presidente, deitou falação. Às folhas tantas o Ministro embatucou diante de uma fórmula matemática. Ela levantou-se, rodeou a mesa e colocou-se em pé, a seu lado, curvando-se para melhor explicar. Foi neste exato momento que sentiu alguma coisa roçar no peito do pé, acondicionado numa meia Dior, como pedia a ocasião (naquele tempo os Ministros eram importantíssimos! Acreditem os mais jovens). Deus! Faça com que não tenha corrido um fio! Esta meia é caríssima! Um discreto olhar revelou o horror! Uma barata instalara-se ali! O mundo desabou. Tudo escureceu! Privação de sentidos total! Ao voltar a si, percebeu-se de quatro, em cima da mesa do Ministro, aos gritos: Mata! Mata! A Bandeira e o Presidente da República ainda ladeavam o Ministro que em pé, com uma frieza glacial, ordenou: a senhora desça! Procurando manter uma certa elegância, impossível pelo quadrúpede recuo, escorregou mesa abaixo, obedecendo à ordem severa: a senhora está dispensada.

Episódio 2

Alguns meses depois. No dia 29 de dezembro duas datilógrafas batiam furiosamente uma Instrução Especial que teria efeitos tributários e que deveria, depois de assinada pelo Ministro, ser publicada no DO, antes do dia 31. Naquele tempo não existia xerox e o raio da Instrução era em 8 vias. As máquinas não eram corretivas e as cópias eram feitas com carbono, naquelas folhas fininhas, fininhas. Um trabalho cão. Terminaram já tarde. Alguém graduado tinha que ir colher a assinatura do Ministro. Infelizmente o único alguém disponível era ela. Fazer o quê? Disfarçou-se o mais que pode. Mas não surtiu efeito. Ao entrar viu o horror do reconhecimento nos olhos do Ministro. Um olhar discreto para o chão garantiu a não existência de baratas por perto e ela postou-se ao lado do Ministro virando as páginas para que ele rubricasse cada uma daquelas malditas folhas de papel fino. A cada folha um sentimento de alívio. Nada iria acontecer. Foi aí que surgiu, sabe-se lá de onde, um copeiro com uma bandeja com xícaras de café. Cheias e pelando. Ao levantar o braço, alçando mais uma folha, foi-se a bandeja pelos ares. As xícaras derramaram-se sobre o Ministro e sobre a Instrução Especial, inundando-os de café. Em sua aflição ela tentou secá-lo com as próprias folhas da Instrução enquanto ele se debatia aos tapas, tentando dela se livrar. Escorraçada, ela retornou e confessou-se ao Presidente e ao Diretor que entre risos e censuras fizeram com que duas datilógrafas passassem a noite em claro (nunca mais falaram com ela, as duas).

 Episódio 3

Alguns meses mais se passaram e ela foi chamada ao Gabinete do Presidente. O Diretor também estava presente. Solenes eles informaram que a Missão Francesa viria visitar a instituição, a convite do Ministro. Ela, em hipótese alguma, deveria estar presente. Que fosse a praia, ao cinema, onde bem lhe desse na telha, mas sob pretexto algum deveria se fazer presente sequer nas imediações do prédio, no dia da visita. Enfim alguma coisa de bom havia resultado dos incidentes. O acúmulo de trabalho lhe tirava até os fins de semana. Uma trégua seria mais que bem vinda. No dia da visita arrebanhou os filhos: vamos à praia! Se eu vou faltar ao trabalho, vocês vão faltar colégio! Uma heresia nunca vista! Naquele tempo ela não tinha telefone. Era difícil conseguir. Era o número 1.144 da fila! A campainha da porta revelou um colega e o prenúncio de tragédia: o interprete havia quebrado a perna num acidente de carro. Que conhecesse o projeto e falasse francês corrente, só mesmo ela. Tremeu! Uma hora depois se viu numa sala, sentada como um suspeito em interrogatório, acuada pelo Diretor e pelo Presidente que de pé, ferozes, gritavam: fique o mais afastada possível! Imóvel. Aja como um robô!  O olhar do Ministro, ao vê-la, revelou pânico. Ela engoliu em seco e com uma voz trêmula começou a traduzir e verter as diversas manifestações. Aos poucos foi se acalmando. É claro que nada iria acontecer. Um idiota qualquer sugeriu que o Ministro mostrasse ao General Francês, o CPD. A escada que conduzia a este não tinha o espelho dos degraus. O Ministro, ao lado do General, começou a descida. Ela veio atrás, traduzindo, furiosamente. E… eis que o salto de seu sapato pisa fora do degrau e ela tomba para frente. Falta de outro apoio agarra-se às costas… do Ministro. Alguém que estava atrás impede sua queda. Mas ninguém, ninguém mesmo, impede a do Ministro que rola os felizmente poucos degraus que faltavam. Confusão total. Todos se precipitaram para ajudar o Ministro a recompor-se da queda. Ele levanta-se rubro de raiva gritando: Esta mulher é uma catástrofe!!! Demita-se!!!

Epílogo

O Diretor e o Presidente não cumpriram a ordem e ela ficou escondida, impedida de participar de qualquer evento em que o Ministro pudesse estar presente. Já se passaram anos, muitos anos. O trauma causado não a abandonou, nem com seis anos de análise. O Ministro, agora bem velhinho, às vezes vem ao Rio. Quando ela vê seu nome nos jornais recusa-se a sair de casa. Não importa o que tenha que fazer. Tranca-se no quarto enquanto ele permanece na cidade. Tem certeza que se pisar fora de casa, vai topar com ele e sabe-se lá o que poderá ocorrer! Pensa, às vezes, em se converter a alguma religião que, afirmando a existência de reencarnação, explique o que este Ministro lhe teria feito de terrível em outras vidas. Isto explicaria tudo e ela poderia se livrar, sem culpa, deste Carma.      

Anna Maria Assis Ribeiro <annadeassis@gmail.com>

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