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ROTA DE COLISÃO – Por Anna Maria A. Ribeiro

Foto do perfil de Anna Maria Assis RibeiroEm rota de colisão, o velocípede aproxima-se rápido. Ela dá um pulo para traz e o veículo passa raspando. O menino freia abrupto. Objetivo não atingido ele a observa com um olhar de censura: “se você não pulasse eu te pegava!” Toda semana a cena se repete: a saída para a fisioterapia coincide com o treino do piloto, no pilotis do prédio. A relação dos dois, da velha e do menino, é um misto de amor e ódio. Adoram-se e agridem-se, faz tempo. Um terço da vidinha dele foi ocupada pela atividade semanal de tentar derrubá-la, sob o olhar distraído da mãe que conversa com as outras, no banco do jardim. Ela provoca: “você nunca vai me pegar!” A afirmação dispara a raiva. Muita raiva. “Quando eu ficar grande vou pegar você com carro. Com um caminhão. Você vai ver!”.  Muda o tom como só as crianças sabem fazer: “eu tenho um caminhão que tem dentro um balde e uma porção de coisas para brincar na praia”.  Ela sorri: “eu, quando era pequena, tinha um caminhão assim”. Os olhos do menino demonstram espanto: “você era pequena?” Custa a responder: já faz tanto tempo que ela mesma duvida. O menino insiste noutra direção: “você é pouco velha ou muito velha?”. Entre as duas opções decide-se pela menos traumática: “Pouco velha”. O tom vem carregado de censura: “Você tá dizendo mentira. Minha mãe disse que você é muito velha”. “Minha mãe” dá um pulo do banco: “Que é isso, Ricardinho! Mamãe nunca disse isso!” Volta-se para ela: “Essas crianças! A senhora desculpe, não sei de onde ele tirou isto”. Ricardinho reafirma: “Ela é muito velha, sim. Você falou pro papai. Você até falou…” Ricardinho é arrancado do velocípede, e “minha mãe” some com ele em direção ao elevador, deixando o veículo abandonado. Ela fica matutando, curiosa pela frase sem fim: “papai até falou…” O que seria? Vai pela rua pensando: coitada de “minha mãe”, mas ela deveria ter deixado o menino contar. Hoje em dia as informações, preciosas, sobre seu envelhecimento, são sempre fornecidas por outros. Ela mesma não tem muitas referências. Quer dizer, não sente nada muito diferente digamos, nos dez últimos anos. Existiram muito “turnning points” e, acredita e espera, existirão outros. Mas vieram ao longo da vida inteira. Há 10 anos atrás foi a aposentadoria. Este foi um dos mais notáveis. Claro que ligado à idade, em termos legais. Mas para ela havia sido outro recomeço. Mudou tudo. E, muito mais importante que os cabelos brancos foi o cartão de visitas: Consultora! Os cartões de visita sempre haviam sido fornecidos pela empresa e – é justo – o destaque era para o logotipo e o nome da dita. O nome dela mesma era apenas uma informação que a colocava entre centenas. Centenas, sim! Era uma grande empresa! Depois da aposentadoria adquiriu direito ao título que lhe valia o destaque do nome. Foi legal. Agora, sem o respaldo da empresa, era ela a única responsável pelos erros e acertos profissionais. Sentiu o peso, mas gostou. O que não havia sequer imaginado é que havia se transformado numa espécie de elefante branco, causando estranheza nas reuniões em que aparecia pela primeira vez. Velocípedes pilotados por jovens executivos e colegas de profissão passariam a tentar derrubá-la de várias formas: algumas polidas e até carinhosas que se manifestavam pelo sorriso tolerante que lhes emoldurava o olhar, significando: vamos escutar com paciência o que esta velha tem a dizer; outras, agressivas na menção de alguma tecnologia nova que – imaginavam – não seriam suas sequer conhecidas.  Verdadeiramente um saco! Viu-se em situações que o próprio Deus, com um gancho não conseguiria resolver. Não sabe de onde tirou esta expressão. Mas Deus, que já pode tudo, com um gancho, fica imbatível, não é? Mas o fato é que deu conta. É… foi um senhor “turning point”.  E, agora, “minha mãe” disse alguma coisa pro papai. O que seria? Resolve deixar pra lá. Nunca vai saber. Os velocípedes do casal partiram para uma colisão virtual. E destas, não há como escapar. Melhor que faz é se manter ágil para desviar da sólida rota de Ricardinho. Se ele consegue atingir o alvo pode fazer um belo estrago e não vai haver fisioterapia que dê jeito.

  Anna Maria Assis Ribeiro <annadeassis@gmail.com>      

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