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SER MÃE… – Por Anna Maria A. Ribeiro

Foto do perfil de Anna Maria Assis RibeiroSerá que há algo de errado comigo-mãe? Jamais consegui me enquadrar em qualquer das manifestações de escritores, poetas e compositores infinitamente mais importantes e mais sábios do que eu, quando completam com belas frases as reticências do título. No meu “ser mãe” sou bem diferente do que descrevem. Isto me aflige. O que me embatuca é o “desdobrar fibra por fibra”. Nunca fui capaz deste desdobramento. Que tipo de mãe sou eu? Só mesmo meus filhos podem dizer e eles não disseram nada, até hoje. Vai ver até comentam isto com alguém ou mesmo entre eles. Mas não me informaram, não. Como são muito legais comigo acredito que não tenha sido catastrófica como mãe. A memória acaba de fazer das suas: uma vez me foi dito, sim. E por escrito!! Tinha meu filho mais velho uns cindo anos e orgulhosamente chegou do colégio com o primeiro “dever de casa”. Não aceitou ajuda e trancou-se no quarto para responder, entre outras, uma importante questão: cite três objetos úteis. Aguardei ansiosa, o resultado. Afinal era um marco em sua vida. Sua primeira tarefa profissional. Radiante, ele veio me mostrar o caderno. E lá estavam, relacionados com a enorme letra redonda, os três objetos úteis: mãe – faca – pote. Passado o primeiro espanto me veio um monumental alívio: o medo de não estar à altura para conduzi-lo vida afora, que eu havia sentido no dia de seu nascimento e que ainda permanecia, não era justificado. Eu, num honroso primeiro lugar antecedendo faca e pote, era útil para ser acionada sempre que necessário. Disponível para pegar e usar! Era assim que ele sentia e era e é assim que eu me queria como mãe. Acho que a professora corrigiu com aquele X vermelho. Eu não o teria feito. Senti-me muito confortável e orgulhosa precedendo a faca e o pote. Os outros dois filhos nunca me deram pistas como estas. Vai ver o mais velho avisou: usem e abusem que ela gosta. Mas voltando ao “desdobrar” que desemboca no “sofrer num paraíso”. Nunca estive lá nem cá: ou seja, nunca sofri ou me vi no céu por conta deles. Todas as vezes que estou lá ou cá – e acontece – é por minhas próprias artes. O que eles me dão é prazer. Muito. Sinto-me como uma galinha que botou um ovo de pato. As criaturas suplantaram a criadora e não a devoraram. As fibras, se é que se desdobraram, o fizeram para gerar uma melhor forma e dar um melhor conteúdo ao que foi criado. Neste sentido concordo com a frase. Foi um senhor desdobramento. Houve aflições é claro. Não por “causa” deles. Ou seja, eles não foram os “causadores”. Que culpa teriam de febres, cólicas, dor de ouvido, tombos, momentos difíceis que passaram e ainda passam, nos quais minha utilidade nem sempre foi ou é competente para socorrer na medida que precisam? Nenhuma. Sobressaltos também houve. Sobretudo com o mais moço. Fazer o quê? Lembro-me de um dia em que comprava peixe fresco na porta de casa: aos dois anos, encarrapitado no muro, ele observava, sabe-se lá maquinando o quê. O peixeiro depois de olhá-lo com atenção disse: Dona, eu tenho um russinho desses lá em casa. Isto não vale nada! O “russinho” é hoje um homem na casa dos quarenta. Sobrevivemos às suas peripécias. Era como viver perigosamente entre duas facções inimigas em constante litígio: ele de um lado e os irmãos mais velhos do outro ameaçando escalpelá-lo. Convenho que tinham uma certa razão. Hoje, até os sobressaltos me dão saudade. Mas não havia “padecimento”. Os espectadores de suas aventuras, na época, afirmavam que era eu a causadora de tantos episódios emocionantes. Temporão é assim. Você está criando como um filho único. Que bobagem! Os três sempre foram únicos. O pescador tinha razão. Russinhos são assim mesmo: tornam qualquer início de dia uma expectativa emocionante do que vai ocorrer. Era lá o jeito dele e torcer pepino nunca foi minha especialidade. Sempre achei que filhos têm personalidades bem marcadas desde que nascem e que me foram dados em consignação para cuidar, tratar, mostrar o que existe de bom neste mundo. Coisas para se fazer, curtir e aprender, até que pudessem se cuidar sozinhos. Ai eles mesmos escolheriam o que lhes serviria, o que lhes daria prazer. Não eram, nunca foram meus. Pertenciam a si mesmos e, até que pudessem entender isto para viver com um mínimo de perigo (porque perigo sempre haveria) e com um máximo de integridade, eu teria que me ocupar deles. E um belo dia isto aconteceu com cada um deles. A hora de se mandar. Então foi deixar ir. E não é que foram voltando?! Bem diferentes no diálogo quando passam para um cafezinho ou vêm jantar, se eu me disponho a ir para cozinha e fazer o que gostavam no tempo em que comiam às minhas custas. Por vezes saio com eles e me comove o braço generoso que me dão em escadas, do mesmo modo que eu segurava as mãozinhas, às vezes geladas pela emoção, na saída de um cinema, de um teatro ou do parque. Ainda sou um objeto útil quando precisam dele. Mas hoje, eu acho, usam mais a faca e talvez até mesmo o pote. Que bom que é assim!   

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