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Surrealismo no Planalto Central – De Anna Maria Assis Ribeiro

 

 SURREALISMO NO PLANALTO CENTRAL

Anna Maria Assis Ribeiro

 
Hospedou-se esta semana aqui em casa um colega com quem trabalhei nos idos de 1998, em Brasília. E, como sempre acontece quando velhos colegas se encontram, a conversa foi alimentada pela memória. Às gargalhadas recordamos um episódio que ficou nos anais do Nead – Núcleo de Estudos e Desenvolvimento Agrário. Por lá era comum a presença de consultores de outras nacionalidades. Entre estes um agrônomo chileno, extremamente simpático e competente. Desrespeitosamente o chamávamos “Cucaracha”, evidentemente não em sua presença.

 

Teria sido impossível contar esta história não fosse a prodigiosa memória de meu ex-colega responsável pela reprodução de todas as falas: uma bela manhã, na sala onde quatro de nós estávamos trabalhando, me vi sem grafite para a lapiseira. Nenhum dos presentes tinha para emprestar. Lembrei-me de ter visto o Cucaracha  reabastecer a sua. Levanto-me, falando alto: vou pedir grafite ao Cu… e apavorada interrompo a frase nesta trágica sílaba ao ver que o próprio entrava na sala. Marotamente um dos colegas presentes dá início ao absurdo diálogo que se seguiu:

 

Colega 1      Vai pedir a quem?!

 

Em desespero rezo para que o Cucaracha que nunca conseguiu se expressar em português ignore a grafia correta da primeira palavra que me vem à cabeça para completar a maldita frase:

 

Eu:               Ao “cuzinheiro”.

 

Colega 1:     Cuzinheiro?!
Cucaracha:  De que cocinero habla usted?

 

Agora preciso encontrar alguma explicação que possa justificar o absurdo “cuzinheiro”.

        Eu :              A gente estava falando de comida. É que eu estou morta de fome.

        Cucaracha:  Estas sin desayuno desde quando desperto? Pobrecita!

 

Colega 2:     A pobrecita tá é doida e sem grafite.

 

Cucaracha:  E por eso tiene hambre?!

 

Colega 2:     Tudo indica…
Cucaracha:  Curioso!
Colega 3:     Põe curioso nisto!

 

Eu:               Você tem grafite que possa me emprestar?

Cucaracha:  Si, por supusto. (rindo) Pero no lo vas a comer!

 

Colega 3:    Com ela tudo é possível!

 

Eu:              (furiosa) Muito engraçadinho!

 

Cucaracha:  Y por qué están todos riendo?

        Colega 1:     Olha só: é quando você entrou na sala ela ia pedir grafite ao “cu… zinheiro”.

 

Cucaracha:  Al cocinero. Pero…
 

Eu:              (gritando) Que droga, gente, vamos parar  com isto.

 

 

Cucaracha:  Usted no está bien! Que sucedió?

 

Eu:              (em desespero) Não aconteceu nada.Eu só preciso…

 

 

Colega 2:     …procurar o “cuzinheiro”. 

 

Cucaracha:  Y donde se encontra esse cocinero?

 

Colega 1:     Vai ver tá na cozinha.
Cucaracha:  Pero si no hay cocina aca!
Colega 2:     Este é o grande problema. Insolúvel.
Cucaracha desistindo de entender o que se passa sai da sala em busca do grafite e gargalhadas estouram. Retorna, segundo depois com o grafite e uma maçã (fruta que detesto) e me estende sorrindo.

        Cucaracha: Grafite para escribir y uma manzana para solucionar tu hambre.

        Eu:              Obrigada. Obrigada mesmo. Mas a fome passou.

 

Colega 2:     A fome dela passa quando tem grafite.

 

Novas gargalhadas explodem.

 

Cucaracha:  Están todos bromeando, verdad?

        Eu:               Não liga, não, Olha! Eu vou comer a maçã, tá?

 

Estômago revirado pego a maçã. Voltamos todos ao trabalho e de repente o silêncio é cortado:

        Colega 1:     Alguém tem ai à mão a rotina de cálculo do DV, módulo 11?

        Colega 2:     Pede ao “Cu…zinheiro”.

 

2011

 

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