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TERROR NOTURNO – De ANNA MARIA A. RIBEIRO

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro

TERROR  NOTURNO

 

Por mais de uma vez estas crônicas falaram de Fräulein Grete. Até mesmo num pedido de desculpas pelo ódio infantil que lhe tinha, já que na provecta idade em que me encontro entendi que sua intenção era das melhores ao tentar me educar com rigidez militar. Tinha eu apenas quatro anos e uma de minhas queixas era a diferença que havia entre o trato dispensado a mim e aquele de que era alvo meu irmão de dois anos. Ele entregue aos exclusivos e ternos cuidados de Babá, maravilhoso ser humano de quem tenho até hoje enorme saudade. Até mesmo de Fräulein ele recebia carinhoso tratamento: meine schöne (meu lindo) enquanto eu ouvia um ríspido: richten sie (endireite-se!) destinado a garantir um futuro saudável para minha coluna. O que, diga-se de passagem, não aconteceu ou porque eu não obedecia ou porque a postura correta na infância em nada garante a higidez na velhice. Outra queixa, mais que justificada, era a confusão que se estabelecia para o ato de falar. Morávamos em São Paulo, numa chácara linda e, sei lá por que razões Mamãe decidiu que além da Governanta alemã eu deveria ir para o colégio francês L’Assomption. Isto misturado ao linguajar do choffeur italiano (não se dizia motorista naquela época) complicou muito a forma de me expressar. Eu era acordada em português por Babá, tomava café em alemão com Fräulein, ia para o colégio ouvindo Seu Anselmo cantar a plenos pulmões em italiano antes de ingressar num mundo francês! Inexplicável também era o fato de que, acordada por Babá, eu era posta para dormir por Fraulein. E é ai que entra o terror noturno. Fräulein me fazia rezar em alemão, ajoelhada ao lado da cama, uma oração que para mim tinha um significado muito desagradável. Hoje, totalmente esquecida deste idioma, sou capaz de como um papagaio repeti-la sem entender o que estou dizendo.  Ich bin kein, soll niemand drin wohnen als Jesus allein. Amen. Fui conferir no Google a grafia e se a tradução correspondia à exortação marcada para sempre em minha memória: unicamente Jesus deveria habitar meu coração! E meu irmão, e meu cachorro, e meus pais, e minha irmã recém-nascida? Que droga, eu pensava! Tudo bem que Jesus também lá estivesse, mas só Ele?! Tentei discutir isto com Fräulein. De nada adiantou. Ou melhor, ela me fez alguma reprimenda pelo que julgou ser uma blasfêmia. Não deve ter usado esta palavra, mas pelo enfático tom do qual me lembro devia significar isto ou coisa pior. Mas o terror vinha depois desta afirmação de exclusiva moradia cardíaca. Já eu na cama, Fräulein sentava-se ao lado e começava a cantar! A intenção devia ser, é claro, dar-me o carinho de uma canção de ninar. Mas o fato é que a cantoria soava como uma terrível ameaça que se repetia noite após noite. E as palavras que também papagueio agora sem ter ideia do que significam (também transcritas e traduzidas com auxilio do Google) eram, naquela época, por mim compreendidas e vaticinavam algo terrível:

Guten Abend, gut’ Nacht!
Mit Rosen bedacht,
mit Näglein besteckt,
schlupf unter die Deck’!
Morgen früh, wenn Gott will,
wirst du wieder geweckt.

A última frase significa: amanhã se Deus quiser você vai acordar! E se Deus não quisesse? Eu podia morrer durante a noite! Um horror! Pior é que esta possibilidade me parecia bem provável como castigo por minha recusa de manter somente Jesus no coração teimando em povoá-lo com seres humanos!  Noite após noite esta ameaça se renovava e ao ser acordada a cada manhã por um anjo terreno (Babá) eu respirava aliviada. O mais apavorante é que esta mesma canção em português era cantada por Babá para meu irmão tendo na última frase o desejo de que uma bela musica embalasse seu sono. Ou seja, a ameaça era mesmo só a mim dirigida. Não mais podendo aguentar o horror perguntei a Papai se de fato eu poderia não acordar. Ele riu e disse que era maluquice e que eu não deveria me impressionar com isto. Estabeleceu-se então uma discussão teológica, totalmente incompreensível para mim, entre Mamãe (muito devota) e Papai (nem tanto) que longe de me esclarecer provocou duvidas muito serias. Reivindiquei então ser posta na cama por Babá. Era uma solução e me foi concedida esta benção, com uma condição: Fräulein se encarregaria do preparar para cama e Babá me garantiria bons sonhos! Vai daí que eu continuaria a ouvir a voz de comando dada sempre à mesma hora e da mesma forma: zähne putzen (escovar os dentes). Esta é uma das raras frases que ainda digo em alemão sabendo o que estou falando. E certamente a que me credenciará como idiota se algum dia me for necessário mostrar proficiência neste idioma!

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