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Uma história de Natal – De Carlos Magno de Melo

Uma história de Natal

Carlos Magno de Melo – escritor e médico

carlosmagnodemelo@hotmail.com

 

Eu o encontrei sentado sob uma jaqueira. Uma leve brisa vinha do sul. Ele vestia uma camisa de linho branca e calças jeans. Sorriu e me convidou a estar com ele.

                Conversamos algum tempo. Dei-lhe o presente que há muito pretendia levar e nunca encontrava tempo. Era um livro. O meu terceiro livro. O velho médico tirou os óculos e se emocionou com a dedicatória.

                Quando saía, ele me pegou a mão e me pediu para que me sentasse. Disse-me que me contaria uma história e que eu, como escritor, poderia aproveitá-la.

                Era dia de Natal. Ele não conseguia sair da sala de partos. Já realizara onze partos aquele dia. E ainda havia mais dois. O último foi muito difícil. Saiu exausto e viu que já passava das vinte e uma horas. Morava no subúrbio. Em uma lojinha, comprou um cachorrinho de pelúcia. O presente do filho. De última hora. Tantos plantões. Tanto trabalho. Para a esposa, não levaria nada. Esforçava-se para se livrar do trânsito. Chegaria para a ceia. Ceia que ele prometera ao filho e à mulher que ajudaria a preparar. Não conseguiu. Os partos. O atraso do colega para substituí-lo no plantão.

                Resolveu entrar por uma estrada secundária. Encurtaria caminho. Era um lugar deserto. Logo os postes da iluminação pública desapareceram. Sem uma única casa. Mato. Ele conhecia bem aquele atalho. Porém, nunca passara por ali à noite. Começou a chover. A chuva forte. Sem aviso.  A rua se transformou em um córrego. Os limpadores do para-brisa não suportavam a água. Quase sem visão. Uma surpresa. O bueiro à frente transbordava. Não havia como passar. Fez manobra para voltar. Não andou cem metros. Um barranco rolara para a rua momentos depois que ele passara por ali. Ficou preso. A chuva, a noite escura e a tempestade que caía. Vergasta de ventos e relâmpagos. Desespero. Perderia o Natal com a família. E o terror de ficar naquele ermo. Deu ré. Foi quando avistou um homem acenando. Teve um calafrio. Um assalto.

O homem veio nervoso, gesticulando. O doutor abaixou o vidro até a uma abertura de segurança. Coração aos pulos. O homem pediu socorro. A mulher dele estava em um pequeno curral. Ela estava parindo. Sem outra alternativa, o médico, temendo tudo, pegou a maleta e acompanhou o homem. O coração aos pulos. Em pouco ficou empapado. Os pés atolavam no barro. A vegetação era áspera. Fria.

                Um cercado. Um puxado de telhas Eternit. Uma lanterna acessa. A mulher estava escornada sobre uma sacaria de ração. O médico se aproximou. Apalpou o ventre da mulher, quase uma menina. Subiu-lhe o vestido. A cabeça da criança já se insinuara. Havia um cocho de madeira.  Um burro estava com pescoço por cima da precária cerca, para debaixo do telhado, protegendo a cabeça da chuva. Uma vaca berrou. O doutor, com a ajuda do homem, colocou a mulher dentro do cocho e em um tempo muito curto já aparava a criança, que nasceu esperneando e chorando forte. Um menino. O rosto do homem se iluminou. A mulher gemeu e a placenta acabou de ser expulsa. O homem tirou a camisa e o doutor embrulhou nela o recém-nascido. Parto rápido.

                Para se proteger do frio, o doutor voltou ao carro. Cansado. Dormiu. Acordou. Bela manhã. Sobre o painel do carro estava uma sacola. Dentro, três caixas. Uma com mirra, outra com incenso e, na terceira, três barrinhas de ouro. Cinquenta gramas cada.

                Após ouvir a história, despedi-me de meu amigo e mestre. Foi a derradeira vez que o vi. Quando regressei da viagem de férias, soube que ele havia morrido serenamente em seu quarto. Na noite de Natal.

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