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Médico itinerante – Crónica de Carlos Magno de Melo – Salvador – Bahia – Brasil

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Esta matéria também foi publicada originalmente na Coluna Semanal ” O canto da crónica ”  do Jornal ” Valença Agora ” da BAHIA e no Jornal “Diário da Manhã” de Goiânia.

Médico itinerante.

Carlos Magno de Melo. Escritor e médico

 

carlosmagnodemelo@hotmail.com

O tempo nos percorre. Quando damos conta, tanta areia já escorreu na ampulheta. Tempo de Bahia. Desde um dia de junho, quando cheguei ,embarcado em Salvador, vindo do açoite do mar, na casquinha de um catamarã que me deixou no píer do Morro de São Paulo. Sete anos.

            Cheguei a Valença com duas malas. Fui para Guaibim. Lá comecei meu trabalho de médico de Posto de Saúde. Visitei, a trabalho, comunidades da zona rural. Jequiriçá, Cajaíba, Quebra-Machado, Orobó, Almesca e outras. Mudei-me para Nilo Peçanha. Depois voltei a Valença.  Daí, fui trabalhar e morar em Vera Cruz, na ilha encantada de Itaparica. Lá morei em Cacha Pregos, Condomínio Arauá, Lagoa Dourada, onde tinha como vizinho de cerca o Club Med. Trabalhei nos povoados de Jeribatuba, Matarandiba e Aratuba. Também em São Roque e nas cidades de Maragogipe e Itaparica. Dei plantão em Santo Antônio de Jesus.

Nova mudança: Ibotirama. Fui como plantonista e diretor de hospital. Além, tive o privilégio de atravessar, ida e volta, quatro dias por semana, o São Francisco velho de guerra. Era médico de em pequeno ambulatório no povoado da Passagem. Assisti  pacientes na cidade de Muquém de São Francisco.

Embarquei pensando em regressar. Destino: Goiás. Parei em Luís Eduardo Magalhães. Fiquei como plantonista no Hospital Gileno Sá. Dois anos ou um e meio, nem sei. De Luís Eduardo Magalhães para Barreiras, onde morei para atender no povoado de Várzea e dar plantão no hospital municipal de Baianópolis. Atendi no povoado de Bracinho e outras localidades da zona rural. Todo dia, uma viagem de 66 quilômetros – ida e volta – e mais onze quilômetros em estrada de terra no carro precário da prefeitura. Dei plantão no hospital geral de Barreiras.

Fui para Amargosa. Plantões no hospital e atendimento no ambulatório que atende o pessoal da zona rural. Mais uma vez arribação. Itatim. Morando em uma pousada de posto de gasolina. Plantões em Castro Alves, Elísio Medrado, Tanquinho, Valente, Santo Estevão e Mutuípe. Mais uma vez em Valença. Com plantões na vizinha Nazaré e na Santa Casa. Posto de Saúde de Guaibim. Onde hoje respiro o mar.

Sete anos. Dei palestras sobre literatura em escolas. Falei sobre cuidados com as crianças, com os velhos, com a saúde e com a vida, frágil e única. Preguei e sei que muito do que falei não caiu no deserto, tal atenção dos que me ouviam.

Sete anos de Bahia. Conheci a exuberância do Recôncavo com lavouras de cravo, coco, graviola, pimenta, guaraná, mandioca e pesca. Vi a labuta dos pescadores. As heróicas marisqueiras, os colhedores de dendê, com as mãos feridas de espinhos; vi o trabalho desvalorizado dos trabalhadores da piaçava.  Vi também a brutalidade da seca. Senti o hálito da caatinga ressequida oferecendo o que pode oferecer: o sisal, o sol e a pedra. Notei o desvalimento de gente que ganha R$ 20,00 por dia e gente que não ganha nada.  Notei a ausência de organismos governamentais de pesquisas no sentido de se agregar valores ao produto regional.  Vi que um fio de sisal é resistente. É maleável. Poderia servir para sutura? Presenciei o bruto trabalho dos homens que arrancam pedras e esculpem paralelepípedos das serras de granito. Vi porque “o sertanejo é antes de tudo um forte” e abandonado. Chorei ao ver uma mulher tentar um resto de água em um açude seco que lhe oferecia lama.

Fartura. Vi o Oeste Baiano. O trabalho de mulheres e de homens que fazem o celeiro do Brasil. Desbravadores que levam atrás de si o governo, sempre a cobrar impostos. Vi cidades que há dez anos eram povoados e vi povoados que em dez anos serão cidades.

Sete anos de Bahia. Sete anos de muito aprendizado com o povo. Sete anos fazendo amigos. Gente maravilhosa que levo no peito como medalhas de honra ao mérito. Sete anos de trabalho, alegrias, aprendizado e tristezas. Ah, sim, uma decepção: a ninguém é dado o direito de andar ao sol sem a companhia da sobra.  Valeu a pena. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Começaria tudo de novo. E acreditaria, assim como acredito, nas pessoas, em todas as pessoas. É minha índole. Só tenho a agradecer. Estou pronto para mais sete anos na Bahia e mais e mais se mais anos houvera.

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