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CASA CHEIA – POR Anna Maria A. RIBEIRO

Foto do perfil de Anna Maria Assis Ribeiro“Olha! Presta atenção! Uma nota blue!” Ela fala sorrindo para o Homem. Ele não responde. Nunca responde. Mas sorri. Vai ver escutou. A poltrona onde ele deveria estar havia sido comprada depois, muito depois que ele se foi. Mas, tem certeza: ele havia de sentar-se nela, ao lado do som, ouvindo atento a harmonia requintada de Joe Pass. Ele e os outros. Quer dizer, alguns não escolheriam aquela cadeira. Iriam preferir o sofá ou, quem sabe até, iriam sentar-se em uma das cadeiras da mesa de jantar, espalhando jornais. Ou, ainda, disputariam com ela a espreguiçadeira. O Pai, com certeza faria isto. Iria usar da prerrogativa de mais velho. Logo ele. Tão moço. Mais moço do que ela é agora. São tantos os que se foram. Foi triste, muito triste, quando aconteceu. Depois, aos poucos, foram voltando. Assim, sem aviso. E as conversas continuaram do ponto em que haviam parado. E, mais que isso – ela percebia – lá no dentro dela, entendiam e se interessavam pelo que contava. Vai daí que contava. Nem tudo, pra todos. Para alguns o que tinha para contar nem ia interessar. Então selecionava. Mas às vezes era uma festa porque o que havia acontecido era tão importante que todos apareciam, distribuindo-se pela sala, atentos ao relato emocionado do acontecido. Foi assim quando nasceu a segunda neta. Contou tudo: desde a hora em que chegou esbaforida, vinda de uma reunião de trabalho, até o momento em a pegou nos braços. “Vocês não podem nem imaginar! É linda! Quer dizer é feia como todos os recém-nascidos. Mas é linda! E eu, gente! Sou bis-avó”. Pergunta curiosa para a Avó: “O que foi que você sentiu quando eu nasci?”. Claro que ela não respondeu. Nem precisava. Perguntou só por perguntar por que muitas e muitas vezes a Avó contara. O sorriso do Pai é de orgulho. Pudera! Ele sim! Bisavô duas vezes! Neste dia o Homem não estava. Quer dizer, estava. Havia presenciado tudo, junto a ela. Depois, muito depois, quando passou a aparecer como os outros ele, num sorriso mudo, perguntou e ela informou: “está com 22 anos! Uma bela moça. Estuda medicina”. Viu admiração nos olhos dele e ficou orgulhosa da neta. Uma vez ele ficou zangado e ela percebeu por que. Se ele falasse teria dito: “você desmanchou o meu estúdio”. É verdade. Ela fez isto, sim. Agora é um quarto de hóspedes. Responde sorrindo: “logo você vai me dizer isto! Aprendi com você a dar um fim no que tem fim. Não tinha mais sentido. E eu nunca vou tocar como você. Pra que gravar?” Ele se rende e a expressão significa: “Gostaria de dizer o contrário. Mas você nunca vai tocar bem.” O Filho intervém, mudamente: “você teria tocado bem se não fosse tão preguiçosa. Afinal aprendi meus primeiros acordes com você.” Curiosa ela pergunta: “vocês, por aí, tocam juntos?” O Homem e o Filho olham para ela espantados e ela se dá conta: eles não se conhecem. Nem mesmo se escutam. Que coisa! O Pai também toca violão. Como ela. Assim, descuidadamente. Mas ele não faz qualquer comentário. Está olhando com estranheza para o micro. Ela sorri: como ele ficaria encantado em ter um. Quando se foi, ainda se usava régua de cálculo. Até para calcular logarítmo! Não se usa mais isto, não, Pai. A sua, a régua, onde anda? Sumiu como tantas outras coisas ou será que você levou quando foi? O Pai apenas sorri. Mas ela desconfia que sim. Ele não largava aquela régua. Ela volta-se para o Tio. Ele está de botas de montaria. Hermès. São botas Hermès! Lindo como sempre foi, encarrapitado no braço do sofá, implicando com a Mãe que lhe dá um piparote na cabeça. Eles nem parecem perceber a Avó, que ao lado, lê Proust e que de longe, de muito longe, fala: “há que se ter vivido para ler Proust”. De hoje ela responde: “sabe, vó, eu hoje leio Proust. Estou mais velha do que você, não é incrível?”

 

O telefone toca. É um amigo: “vem pra cá. O que é que você está fazendo, nesta hora, nesta casa vazia?” Ela sorri. Ele não sabe de nada!                

                

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