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Cidade sitiada – De Carlos Magno de Melo – Médico e Escritor – Salvador – Bahia – Brasil

Cidade sitiada

carlosmagnodemelo@hotmail.com

Semana passada, escrevi uma crônica aqui no “Valença Agora”, assim como faço toda semana. Relatei que há sete anos cheguei à Bahia e cheguei por Valença. Morei e trabalhei aqui durante três anos. Agora, depois de quatro anos fora, regressei. O que vejo? Uma cidade amedrontada.

Logo que vim para Valença, fizeram uma fonte na Praça. As famílias acorriam para lá. Crianças brincavam, o cheiro de pipoca ficava no ar. Na orla, os quiosques, cheios. Música, cerveja e gente alegre. Os estudantes do turno noturno nas ruas.

Agora, a Praça fica vazia tão logo chega a noite. Na orla, o movimento é mínimo e os estudantes não andam, quase correm, aos grupos, tentando uma proteção. As ruas se despovoam muito cedo.

Sou médico. Na Santa Casa percebo os motivos da mudança de comportamento da população: em todos os plantões em que trabalhei, ou em quase todos,  eu e a equipe recebemos pessoas baleadas, esfaqueadas ou agredidas. Virou rotina o que há quatro anos era exceção.

Não há faixa etária protegida. Atendi duas meninas de quatorze anos feridas à bala. Balas perdidas. Cada uma em uma semana. Leitora ciosa, leitor cuidadoso, em quase todos os plantões a realidade feroz da violência pode ser vista na Santa Casa. Um saldo estarrecedor. Nos plantões dos demais colegas a sanha se repete. Tornou-se raro o plantão em que não há uma agressão consumada em ferimentos ou morte.

Os horrores acontecem na zona rural, na periferia e no centro da cidade. Ninguém está a salvo. Nas estradas, depois que o sol se põe, o movimento de veículos cessa: ninguém se aventura. Ir à Nazaré ou a Santo Antônio se transformou em aventura temerária. O medo viaja nas rodovias.

Não há mais hora para os assaltos e assassinatos. Antes, aconteciam na calada da noite. Agora se dão á luz inocente do sol. A população conta com a sorte. Não ser assaltado é uma questão de estrela que o indivíduo possa ter. Quem tem sorte, escapa. Os azarados se ferram.

Valença está com medo. Valença vive dias de terror. O horror anda pelas ruas. Obriga a que lojas coloquem grades nas portas. Os assaltos são cada vez mais ousados e violentos. O cidadão se fecha entre muros: os marginais estão soltos.

Não é só um fenômeno isolado o que acontece em Valença. É generalizado no País. Mas se há de se melhorar este quadro, há de se começar pela cidade de cada um e a nossa cidade é Valença. Portanto, há de se começar o processo de devolução de Valença ao povo de Valença, agora. Penso que está na hora de a prefeita decretar estado de calamidade pública. Pedir socorro ao Estado. Solicitar reforço Federal. Sei lá o quê, mas há de ser feito algo com urgência. Ou até quando a sorte vai nos favorecer ainda, nós, os sobreviventes?  É uma questão de tempo. Um de nós será a próxima vítima. Toc-toc. Bato na madeira três vezes. Por mim e por vós.

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