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O capitalismo de cassino de Wall Street – de Márcia Denser – Rio de Janeiro – Brasil

O capitalismo de cassino de Wall Street

Rifando as cidades norte-americanas

por Márcia Denser | 14/09/2012 07:00

CATEGORIA(s): Colunistas, Outros destaques


Um excelente ensaio de Michael Hudson,professor de Economia na Universidade do Missouri, autor de The Bubble and Beyond, obra que coloca os setores financeiro e imobiliário na raiz da crise fiscal urbana mundial, fornece os fundamentos deste nosso artigo. Segundo ele, A marcha de Wall Street contra os 99% está se acelerando. É a mesma filosofia de austeridade imposta à Grécia e à Espanha, e a mesma que leva o presidente Obama e Mitt Romney a insistirem na redução de custos com o Medicare (assistência de saúde pública) e com a Previdência Social.

Diferentemente do governo federal dos EUA, a maioria das cidades e estados possuem constituições que previnem déficits orçamentários. Isso significa que ao suprimirem impostos sobre imóveis, as cidades e estados devem pegar dinheiro emprestado dos ricos ou cortar serviços públicos.

Em tese.

Mas agora isso dançou e se tornou arriscado porque a economia afunda com a queda dos valores das dívidas. Da Califórnia ao Alabama, as cidades estão se tornando inadimplentes. Já não conseguem restabelecer impostos sobre proprietários sem causar mais inadimplência hipotecária e abandonos. Mas alguém tem que ceder. De forma que então as cidades reduzem gastos públicos, encolhem seus sistemas educacionais e forças policiais, e vendem seus ativos para pagar detentores de títulos.

E isto se tornou a causa principal do crescente desemprego nos Estados Unidos que, obviamente, diminui a demanda de consumo. É um pesadelo keynesiano. Menos óbvios são os cortes devastadores ocorrendo na saúde, no treinamento de mão-de-obra e outros serviços, enquanto taxas de matrícula para colégios públicos e as “taxas de participação” no ensino médio sobem. Sistemas escolares estão se desfazendo e professores são abandonados numa escala nunca vista desde a Grande Depressão.

Todavia, estrategistas de Wall Street enxergam essa situação e os “espremidos orçamentos locais” como dádivas. Como disse Rahm Emanuel (além, é claro, de Murdoch, Bush, Rumsfeld, Chaney, Soros & banqueiros ilimitados, aficcionados do Capitalismo de Desastre mixado ao Cassino) afinal, uma crise é uma oportunidade boa demais para se desperdiçar – e a crise fiscal alavanca os credores financeiramente para empurrarem políticas anti-trabalhistas e privatizações.

O terreno está sendo preparado para uma “cura” neoliberal: cortar pensões e assistência médica, negligenciar promessas de reformas trabalhistas e rifar o setor público, deixando os novos proprietários cobrarem pedágios sobre tudo, desde avenidas a escolas. O termo do momento é “extração de rendas”. Tendo causado a crise financeira, o legado de décadas de cortes sobre a propriedade, financiado pelo endividamento sem limites, agora deve ser pago vendendo-se ativos públicos.

Chicago arrendou sua Skyway por 99 anos e seus estacionamentos por 75 anos. O prefeito Emanuel contratou os gerentes de ativos do JP Morgan para dar “conselhos” sobre como vender a privatizadores o direito de cobrar taxas sobre serviços que eram gratuitos (ou seja, como construir uma ratoeira mais eficiente).

Por retratar os servidores locais como inimigos públicos número 1, a crise urbana está fazendo com que a luta de classes volte à ordem do dia. O setor financeiro argumenta que pagar pensões (ou até um salário mínimo) absorve a receita a ser usada no pagamento de títulos podres. A cidade de Scranton na Pensilvânia reduziu os salários do setor público para o mínimo, enquanto outras procuram romper com planos de pensão e contratos salariais – e depois vão atrás de jogos de azar em Wall Street, numa tentativa desesperada de cobrir suas obrigações estimadas em 3 trilhões de dólares, mais 1 trilhão em cuidados de saúde.

Embora Wall Street tenha engendrado a economia-bolha cuja explosão engatilhou a crise fiscal urbana, seus lobistas e suas teorias econômicas absurdas não são responsabilizados. Melhor do que culpar os que cortaram impostos e deram uma herança inesperada aos banqueiros e aos magnatas do setor imobiliário, é obrigar professores e outros empregados do serviço público a devolverem seus salários e aposentadorias. Contudo, para os predadores financeiros não existem devoluções de espécie alguma, ao contrário.

Em vez disso, chegará o momento em que as cidades serão forçadas a fazer o que fez Nova Iorque para evitar a bancarrota em 1974: entregar a gestão para quem Wall Street determinar. Os políticos eleitos serão substituídos por “tecnocratas” que irão fazer o mesmo que Margaret Thatcher e Tony Blair fizeram na Inglaterra: vender o que resta do setor público e levar cada programa social para a mesa de “negociações”.

O plano é atingir algumas metas. Como por exemplo, dar aos privatizadores o direito de cobrar pedágio sobre a infraestrutura pública. A ideia é forçar cidades a equilibrar o orçamento, arrendando ou vendendo suas avenidas e sistemas de transporte público, escolas e prisões. Isso promete criar um novo mercado para os bancos: empréstimos a abutres que comprarão os direitos de instalar pedágios na infraestrutura básica da economia. Como oficiais públicos eleitos não podem engajar-se em políticas tão predatórias e anti-trabalhistas, resta a “magia do mercado” para dissolver sindicatos, diminuir serviços públicos, taxar sistemas de água e esgoto, cortar linhas de ônibus e aumentar tarifas.

Para realizar esse plano financeiro, é necessário emoldurar o problema de tal maneira que as alternativas anti-sociais sejam excluídas. Como bem sabia Margaret Thatcher, deve-se pregar a falta de alternativas (there is no alternative ou TINA). Não há alternativas senão vender o transporte público, o setor imobiliário e até sistemas educacionais e prisões.

Para os neoliberais, a beleza disso tudo é que o rebaixamento da educação torna os cidadãos mais suscetíveis à falsa consciência do Tea Party. Esse é o significado de livre-mercado hoje: renda criada por investimentos no setor público “livre” para ser paga aos bancos como juros em vez de ser recuperada pelo governo. A maior parte da receita urbana são rodovias, escolas e sistemas de água e esgoto financiados pelo contribuinte.

O miolo da “falsa consciência” dos banqueiros – a matéria de capa com a qual os lobistas do Tea Party estão procurando doutrinar os eleitores norte-americanos – é que os impostos sobre a terra e os ativos financeiros punem os “criadores de emprego”. Os beneficiários desse gasto público dizem que precisam ser mimados com preferências fiscais para investir e empregar, enquanto os 99% devem ser chutados e incitados a trabalhar mais por menores salários. Essa falsa narrativa ignora que os maiores períodos de crescimento norte-americano foram aqueles em que os impostos individuais e corporativos eram também maiores. O mesmo é verdadeiro na maioria dos países. O que está sufocando o crescimento econômico são as elevadas dívidas – devidas a 1% da população – e cortes de impostos sobre grandes riquezas.

O arrocho nas aposentadorias públicas é parte da crise geral. Aliás, Paul Ryan, candidato indicado a vice-presidente pelo Partido Republicano, e Rick Perry, governador do Texas, caracterizaram a Previdência Social norte-americana como um esquema a la Charles Ponzi do dias atuais.

O fato é que o sistema financeiro está podre. Isso transformou a atual luta de classes numa guerra financeira na qual o fator principal é moldar a forma como os eleitores enxergam o problema. O truque é fazê-los pensar que cortar impostos barateará o custo de vida e a habitação, quando o entendimento que deve ser propagado é o seguinte: cortar impostos só faz com que mais renda para empréstimos caia no colo dos banqueiros, o que afundará mais ainda a economia.

Políticos democratas ou republicanos não querem taxar mais as finanças, os seguros ou o setor imobiliário. A postura deles está alinhada com o que querem os financiadores de suas campanhas: deixar Wall Street mais rica. É o velho problema das prioridades. As dívidas não podem ser pagas e não serão pagas. Então, a questão é quem deve ser priorizado: o 1% ou o 99%? Insiste-se que a austeridade e a redução do Estado são inevitáveis, não uma escolha política que privilegia os credores públicos e o 1% aos 99%, ou uma retribuição do dinheiro gasto comprando políticos e fazendo eleitores acreditarem que “cortar impostos sobre a propriedade e sobre os ricos ajudará a economia”.

Se os Estados Unidos continuarem a permitir que o 1% legisle e dê as cartas, a economia será esfacelada em pouco tempo. A era do crescimento ianque chegará ao fim. Mas, repetimos: alguém tem que ceder. Ou seja, é hora de dar calote. Caso contrário, Wall Street transformará os EUA na Grécia. Esse é o plano financeiro – a estratégia da atual guerra financeira contra a própria sociedade.

Um tiro, não no pé, mas no próprio coração do sistema.

 

 

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