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(DES)ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA

A R E S   E   M A R E S   

RECOMENDA ESTA LEITURA PELA IMPORTÂNCIA QUE ELA REPRESENTA E PELO PERIGO QUE VISUALIZA PARA O FUTURO DO NOSSO IDIOMA

LÍNGUA PORTUGUESA : ÚLTIMA FLOR DE LÁCIO

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“Restaurar é Preciso – Reformar Não é Preciso”

 

Para título desta análise eu tenho que confessar aos(às) prezados(as) leitores(as) que não encontrei melhor do que o título do artigo publicado em 12 de Setembro de 2007 pelo sr. Reinaldo Azevedo na Revista Veja. Título esse que de forma muito sucinta põe a actual reforma ortográfica na perspectiva correcta.

Também quero advertir que esta análise é um breve resumo (dado, neste texto, não explanar todas as consequências deste acordo) da realidade e dos aspectos práticos da implementação deste nefasto acordo ortográfico, que não faz com que o Idioma Lusitano seja Honrado, Respeitado e Considerado, algo que este acordo nem sequer preconiza.

Em face disto e por estar contra este acordo (tal como está elaborado), não por razões económicas nem políticas, pois foram estes os grandes motivos apresentados em todos os debates a que assisti para a aprovação deste acordo, quer dum lado, quer do outro do Atlântico. A mim só me interessam as verdadeiras razões que deveriam motivar este acordo: filológicas, linguísticas, etimológicas, ortográficas, ortoépicas, gramaticais, históricas, vocabulares e de unidade.

Eu não sou especialista em Língua Portuguesa, mas um humilde autodidacta que muito preza e venera a beleza e importância da Língua Portuguesa (escrevo “Língua Portuguesa” com iniciais maiúsculas como preconiza o Formulário Ortográfico de 1943 no 6º ponto da sua Base XVI, bem como o Acordo Ortográfico de 1945 na sua Base XLII para a enobrecer e engrandecer, e não com reducentes iniciais minúsculas como defende o acordo de 1990 para a desprestigiar e nivelar por baixo). Num tempo em que os nossos governantes tanto propagam que devemos cultivar a Excelência, a Qualidade, a Exigência e o Conhecimento, este acordo vem deitar por terra e contrariar tais afirmações.

Assim sendo vou aqui explanar alguns dos motivos pelos quais este acordo não deverá ser posto em prática:

        1 – o primeiro motivo é que a redacção original, e oficial, deste acordo tinha vinte e três erros ortográficos (aos quais se devem juntar outros de outra natureza) e assim foram publicados em Diário da República, algo inadmissível num documento importantíssimo, internacional e preparado por pessoas supostamente especialistas em Língua Portuguesa. Isto apenas vem confirmar o antigo provérbio: “O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. Mas eu ainda espero que tal provérbio não se venha a concretizar, a bem da Língua Portuguesa no Mundo;

        2 – no Artigo 2º deste Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa lê-se, e passo a citar: «Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas.»

Passados vinte e um(!!!) anos, onde está esse vocabulário??? Ainda no que respeita a vocabulários, sei que no Brasil foi publicado o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, editado em 2009, o qual viola inúmeras vezes o próprio acordo no qual se baseia. Sem comentários… Como disse uma defensora do acordo num programa televisivo, e passo a citar, “Este acordo foi feito para que todos os Lusófonos passem a escrever da mesma maneira.”, eu apenas tenho uma pergunta a fazer: será que está a ser elaborado um vocabulário único da Língua Portuguesa e, se está, será que prevê a resolução de vocábulos que se referem à mesma coisa, mas que são escritos (e falados) de forma diferente em ambos os lados do Atlântico???

Dou apenas alguns, poucos, exemplos: enfarte/infarto; planear/planejar, camião/caminhão, maquilhagem/maquiagem; bilião/bilhão; quotidiano/cotidiano; hidroeléctrica/hidrelétrica; maioritário/majoritário; champô/champú; golo/gol; fato/terno; hormonas/hormônios; Irão/Irã; desporto/esporte; Checo/Tcheco; câmara/câmera (máquina fotográfica); alforge/alforje; beringela/berinjela; missanga/miçanga.

Isto já para não falar nas enormes discrepâncias entre termos científicos e técnicos existentes entre os dois lados do Atlântico, particularmente no que respeita à Informática;

       3 – na Base IV, no ponto 1.º, fala-se da conservação ou eliminação das consoantes mudas c e p, conforme são proferidas ou não na pronúncia das palavras. Aqui começam as grandes contradições deste Acordo:

1ª – de unificador nada tem, pois deixa ao critério de cada um a sua prolação, grafia ou não, o que, juntamente com o exposto no ponto 2, vai aumentar exponencialmente o número de casos de múltiplas grafias;

2ª – a sua eliminação entra em contradição com o que foi escrito anteriormente na Base II, 1.º a);

3ª – estas consoantes eram mantidas não só por força da etimologia, mas, na esmagadora maioria dos casos, para acentuar a tonicidade da vogal anterior, ou seja: se a sua eliminação não for substituída por acento (como tem vindo a acontecer no nome Victor/Vítor), na prática o que está/vai acontecer é que muitas das palavras, além de serem escritas de forma diferente (o que contraria mais uma vez a finalidade unificadora deste acordo, pois algumas dessas consoantes são pronunciadas deste lado do Atlântico e não do outro lado e vice-versa), estão a ser/vão passar a ser pronunciadas de forma diferente em ambos os lados do Atlântico… ou então, a exemplo do que sucedeu do outro lado do Atlântico, com o tempo iremos passar a pronunciar essas vogais fechadas e não abertas como actualmente. Damos alguns exemplos de pronúncias: diréctor(e aberto)/dirêtor(e fechado); séctor(e aberto)/sêtor(e fechado); connosco/conosco; omnipotente/onipotente; amnistia/anistia. Aliás, o caso destas últimas palavras nem sequer é referido em todo o dito Acordo. E depois há o seguinte caso caricato: os vocábulos “recessão” e “rece(p)ção”. Em pouco tempo, dando exemplos deste lado do Atlântico, o segundo “e” da palavra “receção” irá perdendo a sua ênfase e ler-se-á tal e qual o vocábulo “recessão”… isto para não falar nas palavras “espetador” e “espe(c)tador” (como exemplo prático, deliciem-se apenas e só ortograficamente com o texto “Conceição Lino esclarece polémica”)…;

       4 – o ponto 2.º da mesma Base IV apenas e só vem reforçar o que anteriormente escrevi acerca do contínuo afastamento entre o Português de ambos os lados do Atlântico, não só graficamente como também foneticamente. Isto fará com que brevemente este acordo esteja total e completamente obsoleto e também é bem provável que o Português se cinda definitivamente se nada de concreto for feito para a sua real unificação, não só gráfica, mas também fonética;

       5 – na Obs. à alínea a) do ponto 1.º da Base VIII está escrito o seguinte, e passo a citar: “Em algumas (poucas) palavras…”. Bem… “poucas” oxítonas, mas, como fazem em todo o acordo para minimizar o seu real impacto, “esquecem-se” de referir que no contexto geral ainda há a somar as paroxítonas que constam nas Obs. às alíneas a) e b) do ponto 2.º da Base IX e as proparoxítonas que constam no ponto 3.º da Base XI. Tudo isto faz com que as palavras grafadas de forma diferente não sejam assim tão “poucas”, como nos querem fazer crer, mas muitas, pois nestas Obs. e pontos apenas estão alguns exemplos, não toda a extensão da diferença. Um dos exemplos deste descredibilizante acordo é o que eu li há pouco tempo numa notícia editada em Portugal: era sobre alimentos transgénicos… estava escrito: “transgênicos”… Escusado será dizer que aqui está mais uma “machadada” no dito acordo ortográfico que se quer unificador;

       6 – se se puser em prática o que está no ponto 3.º da base IX, o que vai acontecer é o desvirtuamento fonético dos ditongos representados por oi, pois temos o exemplo em que o acento foi retirado dos ditongos representados por ei, em que essas palavras passaram a ser pronunciadas êi em vez de éi. Exemplo disso são também os vocábulos “acerca” e “inclusive” que muitas pessoas já pronunciam “acerca”(a fechado) em vez de “àcerca”(a aberto) e “inclusive“(e fechado) em vez de “inclusivè“(e aberto). Também por causa da abolição do acento na palavra “Guiana” já ninguém pronuncia “iana”, que é a pronúncia correcta, mas pronunciam “Guiana”. Isto para ficarmos só por aqui, pois muitos outros exemplos haveria…;

       7 – com base no ponto 9.º da mesma base IX como vamos interpretar, e ler, a seguinte frase, título que há algum tempo atrás um jornal trazia na sua primeira página: “Falta de seguros pára transplantes em hospital”? Não nos esqueçamos de que com este acordo o acento agudo é retirado do vocábulo “para”… Mas ainda há o exemplo dado pelo professor Claudio Cezar Henriques[sic] no artigo “Senhor Norma Culta”: “Entretanto, o acento de “pára”, que também tem preposição e verbo homónimos, caiu. “O jornais nunca mais poderão dar a manchete ‘Justiça para o Brasil’, pois a frase fica ambígua”, constatou.”… sem mais comentários…;

       8 – na Obs. ao ponto 1.º da Base XV vamos começar a ver os primeiros “resultados” práticos deste  acordo no que respeita, por exemplo, à palavra “pára-quedas”. Para começar direi o que vi em dois dicionários de diferentes editoras: num aparecia escrito “paraquedas” enquanto noutro estava grafado “para quedas”… Bem… em que ficamos??? E este é apenas um de muitos exemplos… Depois gostaria de dizer que esta palavra, por exemplo, com o tempo irá querer dizer “aparelho para provocar quedas” em vez do actual “aparelho em forma de guarda-chuva destinado a diminuir a velocidade de queda de um objecto ou de uma pessoa despenhada de grande altura”. Só não sei é quando é que lá se chegará, mas que chegará, chegará, pois já temos o exemplo histórico de outros vocábulos em que devido a alterações neles introduzias o seu significado original foi desvirtuado. A enorme diferença é que estes vocábulos se foram alterado naturalmente pela passagem do tempo enquanto que agora aqueles são alterados artificialmente por via deste acordo… Além do mais, esta supressão do hífen nalgumas palavras, bem como a supressão das consoantes mudas e de muitos vocábulos deixarem de ter acentuação gráfica, fará com que o Português perca alguma da sua beleza estética, o que o empobrecerá ainda mais com este acordo simplista;

       9 – relativamente à Base XVI o que acontece na prática é, em vez da tão almejada simplificação, apenas e tão só a substituição dumas regras por outras…;

     10 – o ponto 2.º da Base XVII diz o seguinte: «Não se emprega o hífen nas ligações da preposição de às formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver: hei de, hás de, hão de, etc.». Porquê esta excepção??? Para não haver excepções não seria melhor acabar com os hífens nos verbos compostos??? “Facilitaria” muita coisa… ou complicaria??? Além do mais, esta regra vem contradizer completamente o objectivo deste acordo de aproximar a grafia da pronúncia, pois esta, no vertente caso, implica a junção das duas palavras, não a sua separação. Mas o que mais me impressiona é que a explicação para a abolição do hífen nestas palavras é… uma mentira…;

     11 – o parágrafo 4 do capítulo 2 do Anexo II é falacioso no que respeita à não-aceitação do acordo de 1945 por parte dos brasileiros, pois não diz que tal acordo não foi aprovado por motivos políticos e não por motivos culturais, pois a Academia Brasileira de Letras, além de ter aprovado o acordo, ficou incumbida de elaborar o Vocabulário Resumido da Língua Portuguesa. Ora neste caso deve ser a cultura a impor-se e não os políticos…;

     12 – no parágrafo 7 do capítulo 2 do Anexo II falam na “tradição ortográfica portuguesa”… só não falam é no porquê da diferença da pronúncia… a qual se deve ao não intercâmbio linguístico e cultural entre ambos os lados do Atlântico bem como ao distanciamento da pronúncia original de um dos lados pelo factor atrás aduzido;

     13 – em relação ao parágrafo 4 do capítulo 3 do Anexo II, se é o critério da pronúncia que determina a supressão das consoantes surdas, então estas, para manterem a pronúncia correcta deveriam passar a ser acentuadas na vogal anterior, mas nisso este dito acordo não fala…;

     14 – sobre os parágrafos 5 e 6 deste mesmo capítulo 3, eles apenas e só vêm reforçar o que acima disse acerca das incongruências deste acordo dito “unificador”…;

     15 – relativamente ao que consta no parágrafo 2 da alínea a) do subcapítulo 4.2 do Anexo II apenas posso dizer que as comparações que se fazem é apenas e só para fazer o nivelamento do Português por baixo, a par do que se tem feito noutras áreas da vida social e económica de Portugal e do Brasil… e podemos constatar os resultados de, em vez de melhorarmos o nosso nível de vida, deteriorarmos a cada ano que passa o mesmo… com as devidas consequências sociais e económicas que daí têm advido;

     16 – na alínea b) do subcapítulo 4.2 do Anexo II é é de muito mau tom quando se tenta justificar uma regra com exemplos que são a excepção. Melhor dizendo: a excepção passa a regra…;

     17 – no que respeita ao que está escrito no 2.º parágrafo da alínea c) do subcapítulo 4.2 do Anexo II eu apenas tenho quatro perguntas a fazer: 1ª – Como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que o plural, por exemplo, de “mão” é “mãos” e o plural de “pão” é “pães”?; 2ª – Como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que, no interior duma palavra, a letra “n” antes dum “b” ou dum “p” tem que se transformar num “m”?; Como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que a letra “x” pode ser pronunciada com o som de “ch”, “is”, “s” ou “z”, por exemplo, dependendo da palavra onde se encontra? Porque é que este acordo “unificador” não resolve também estes “problemas”?;

     18 – o que está escrito na alínea d) do subcapítulo 4.2 do Anexo II nem sequer merece comentário pois, como é óbvio, os lusitanistas estrangeiros vão continuar com os mesmos problemas (isto para não dizer mais nada) que têm até agora, pois apesar deste “acordo”, dito unificador, vão continuar a existir duas, ou mais, ortografias. Por exemplo: apesar de no Português padrão se pronunciar “contacto”, há publicações que grafam este vocábulo sem a consoante “c”, ou, como no livro “100 Datas Que Fizeram a História de Portugal” na sua página 197, em que a palavra “facto” está impressa sem o necessário “c”…;

     19 – em relação à alínea e) do subcapítulo 4.2 do Anexo II, não entendo como se poderá falar de “unificação ortográfica da língua Portuguesa” (mesmo com “P” maiúsculo, para dar a importância devida ao idioma, e não um redutor “p” minúsculo como este acordo faz ao idioma) se o próprio acordo não prevê essa tão propalada unificação, como acontece com o que está escrito na Base IV, ponto 1º, alíneas c) e d), no ponto 2º, na Base VIII, Obs. ao ponto 1º, na Base IX, Obs. às alíneas a) e b) do ponto 2º, na Base XI, ponto 3º, o capítulo 4.4 do Anexo II, além do que está escrito no fim do ponto 2 destes motivos que aduzo para a não-aceitação deste acordo;

     20 – relativamente ao capítulo 4.3 do Anexo II, e para não dizer mais nada em relação aos parágrafos 1 e 2, remeto a minha resposta para o artigo em anexo. Já no que respeita ao parágrafo 3, é outra das coisas que este acordo prevê: fazer das excepções regra, a par do que está escrito no subcapítulo 4.2… ora como todos bem sabemos, na esmagadora maioria das vezes, quando as excepções se tornam regra, a decadência entra em acção;

     21 – por tudo aquilo que já escrevi, o subcapítulo 4.4 do Anexo II nem sequer merece comentário…;

     22 – no que respeita ao que está escrito no 9.º parágrafo do subcapítulo 5.1 do Anexo II, é de muito mau tom (para não dizer parcialidade) referir que apenas “o facto de a língua oral preceder a língua escrita,…”, pois pelos poucos exemplos que já dei no ponto 2, no ponto 3, 3ª, e no ponto 6 podemos ver que não é só a língua oral precede a língua escrita, mas que o inverso também acontece(u) em muitos casos. Mas se de facto fosse este o fundamento do presente acordo (em vez do Formulário Ortográfico de 1943), a seguinte exposição seria uma excelente base de trabalho:

 

“REPREZENTAÇÃO Á ACADEMIA REAL DAS CIÊNCIAS SOBRE A REFÓRMA DA ORTOGRAFIA

 

Senhores.

Os abaixo assinados dirijem-se á Academia Real das Ciências em cumprimento de um dever.

Numa reunião pública, celebrada nésta cidade em 23 do corrente, fôrão encarregados de, em comissão, pedir a éssa real academia que ocorra a uma necessidade que quázi só d’éla póde esperar satisfação; e vem dezempenhar-se do onrozo encargo.

Paréce-lhes ociozo aduzir argumentos para justificar o pedido. Não tendo a língua uma gramática e um dicionário que póssão dizer-se oficiais, não avendo nórma para a ortografia, nem para a pronúncia, e sendo isso o que se péde á academia, déve considerar-se desnecessária qualquer justificação.

O parecer de que ésta reprezentação vai acompanhada, contém um sistema de ortografia e um método de o pôr em prática, os quais avaliareis como merecêrem. Os abaixo assinados apenas esprímem o dezejo e a esperança de que julgueis dever adòtá-los.

Dando pois ezecução á primeira parte da propósta que termina esse parecer, e que a mencionada reunião aprovou com escluzão das palavras – ou outro que julgue melhór, no cazo de rejeitar este -, os abaixo assinados pédem á Academia Real das Ciências que, publicando uma gramática e um dicionário ao mesmo tempo ortográfico e prozódico ou ao menos um vocabulário, se digne preenxer éssa lacuna e satisfazer essa necessidade que todos reconhécem e sentem: a de uma ortografia nòrmal.

Não pódem porem deixar de xamar a vóssa atenção para a alteração aludida, que a reunião onde fôrão eleitos, fês no parecer da comissão. Por éla vê-se que a opinião d’aquéla assembleia é, que a refórma a realizar na ortografia déve ser em sentido sónico.

Dignai-vos acreditar, senhores académicos, em nóssos sentimentos de consideração e respeito.

 

Porto, 26 de dezembro de 1878.

Adriano de Abreu Cardoso Machado, Prezidente

Conde de Samodães

Manuel Felippe Coelho

Agostinho da Silva Vieira

Jozé Barbóza Leão.”;

     23 – em relação ao subcapítulo 5.2 do Anexo II, este apenas vem reforçar o que já foi dito acerca da dupla grafia. No que respeita ao sub-subcapítulo 5.2.4 só se pode considerar, no mínimo, o argumento aqui aduzido como falacioso. É que separadamente até parecem poucas palavras, mas juntando este exemplo ao que está no subcapítulo 4.1 e ao que eu exponho no ponto 2 são muito mais de 2.000 vocábulos. Outro dos factos que os autores do acordo omitem é que um falante médio utiliza cerca de 10.000 palavras e não o corpus de 110.000 aqui aduzido. Ou seja: na prática o que vai acontecer é que muito mais de 20% dos vocábulos usados no dia-a-dia da esmagadora maioria dos falantes de Português vão ter dupla grafia;

     24 – relativamente ao argumento utilizado na alínea b) do subcapítulo 5.3 do Anexo II, “Eventual influência da língua escrita sobre a língua oral, …”, já é interessante a conveniência da utilização deste argumento. Mas nem mesmo com os exemplos que vêm do outro lado do Atlântico, a alteração fonética da esmagadora maioria das palavras às quais retiraram as consoantes mudas não proferidas, os supostos eruditos em Língua Portuguesa aprenderam que não é benéfico para o idioma a supressão das consoantes mudas. Conveniências…;

     25 – na alínea c) do mesmo subcapítulo 5.3 do Anexo II está mais um motivo para a não supressão de acentos gráficos ou consoantes mudas, como são palavras (termos médicos ou científicos) que um falante médio rarissimamente irá ler e/ou pronunciar ao longo da sua vida, decerto que as vai ler e/ou pronunciar incorrectamente…;

     26 – é duma insensatez tal (para não utilizar outro adjectivo) aduzir o argumento que está na alínea d) do subcapítulo 5.3 do Anexo II quando quase tudo o que está neste acordo vem prejudicar essa aprendizagem. É precisamente por este motivo (entre outros) que no Brasil já quase ninguém pronuncia (ou escreve) a conjunção “mas”, mas usa o advérbio “mais”… isto para não falar nas formas pronominais e reflexivas… alguém pensou nisto???;

     27 – o pôr em prática a alteração que é comentada no sub-subcapítulo 5.4.1 do Anexo II apenas e só vem agravar o que referi nos três pontos anteriores;

     28 – no ponto 24 falei do exemplo que vem do outro lado do Atlântico. No sub-subcapítulo 5.4.2 do Anexo II vou falar do exemplo Português, em que a supressão do acento agudo do ditongo ei fez com que todas as palavras singulares contendo aquele ditongo se pronunciassem com a vogal “e” fechada. Não saberão os ditos peritos em Língua Portuguesa que, se tivessem aprendido com o passado, num futuro breve a esmagadora maioria dos vocábulos com o ditongo oi passarão a ser pronunciados com o timbre fechado e não aberto como o são actualmente???;

     29 – em relação ao capítulo 6, apenas tenho a reforçar o que aduzi no ponto 8 em que apenas há a substituição dumas regras por outras, as quais, apesar de pretenderem ser “claras, sucintas e simples”, apenas e só provocam os problemas de que dei um pequeno exemplo no já referido ponto 8.

Como considerações finais, tenho a dizer que não é mau, mas sim péssimo para o Idioma Lusitano que este tenha sofrido três grandes alterações ortográficas a par de outras tantas mais reduzidas em menos de um século. Melhor dizendo: os bisavós escreveram duma maneira, os avós de outra, os filhos de outra e os netos ainda vão escrever de outra… e, sem grande esperança, espero que fiquemos por aqui neste afã que tem vindo a ser feito para nivelar a Língua Portuguesa por baixo… Além disso, e como ficou provado, mais de 20% (contas por baixo) dos vocábulos usados por um falante médio vão poder ser grafados à vontade de cada qual, o que absolutamente em nada abona o Português junto da Comunidade Internacional, antes pelo contrário, contribui para o seu descrédito. Este descrédito é tanto mais evidente quanto em lado nenhum leio que este acordo é produzido para honrar “o esplendor literário e à política de expansão e prestígio do Idioma” Lusitano, como preconizava a reforma ortográfica de 1945

Por JOÃO CARLOS REIS

 

A T E NÇ Ã O

 

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RECOMENDA-SE QUE SEJA LIDA A MATÉRIA DA ” REVISTA VEJA”  DE AUTORIA DE REINALDO DE AZEVEDO, PUBLICADA  EM 12 DE SETEMBRO DE 2007, SOB O TÍTULO “Restaurar é preciso ;  reformar não é  preciso “

Artigo: Reinaldo Azevedo
Restaurar é preciso;
reformar não é preciso.

Flavio Rossi
A reforma ortográfica que se pretende é um pequeno passo (atrás) para os países lusófonos e um grande salto para quem vai lucrar com ela. O assunto me enche, a um só tempo, de indignação e preguiça. O Brasil está na vanguarda dessa militância estúpida. Por que estamos sempre fazendo tudo pelo avesso? Não precisamos de reforma nenhuma. Precisamos é de restauração. Explico-me.

A moda chegou por aqui na década de 70, espalhou-se como praga divina e contribuiu para formar gerações de analfabetos funcionais: as escolas renunciaram à gramática e, em seu lugar, passaram a ensinar uma certa “Comunicação e Expressão”, pouco importando o que isso significasse conceitualmente em sua grosseira redundância. Na prática, o aluno não precisava mais saber o que era um substantivo; bastava, dizia-se, que soubesse empregá-lo com eficiência e, atenção para a palavra mágica, “criatividade”. As aulas de sintaxe – sim, leitor, a tal “análise sintática”, lembra-se? – cederam espaço à “interpretação de texto”, exercício energúmeno que consiste em submeter o que se leu a perífrases – reescrever o mesmo, mas com excesso de palavras, sempre mais imprecisas. O ensino crítico do português foi assaltado pelo chamado “uso criativo” da língua. Para ser didático: se ela fosse pintura, em vez de ensinar o estudante a ver um quadro, o professor se esforçaria para torná-lo um Rafael ou um Picasso. Se fosse música, em vez de treinar o seu ouvido, tentaria transformá-lo num Mozart ou num Beethoven. Como se vê, era o anúncio de um desastre.

Os nossos Machados de Assis, Drummonds e Padres Vieiras “do povo” não apareceram. Em contrapartida, o analfabetismo funcional expandiu-se célere. Se fosse pintura, seria garrancho. Se fosse música, seria a do Bonde do Tigrão. É só gramática o que falta às nossas escolas? Ora, é certo que não. O país fez uma opção – ainda em curso e atravessando vários governos, em várias esferas – pela massificação de ensino, num entendimento muito particular de democratização: em vez de se criarem as condições para que, vá lá, as massas tivessem acesso ao conhecimento superior, rebaixaram-se as exigências para atingir índices robustos de escolarização. Na prova do Enem aplicada no mês passado, havia uma miserável questão próxima da gramática. Se Lula tivesse feito o exame, teria chegado à conclusão de que a escola, de fato, não lhe fez nenhuma falta. Isso não é democracia, mas vulgaridade, populismo e má-fé.

Não é só a Língua Portuguesa que está submetida a esse vexame, é claro. As demais disciplinas passaram e passam pela mesma depredação. A escola brasileira é uma lástima. Mas é nessa área, sem dúvida, que a mistificação atingiu o estado de arte. Literalmente. Aulas de Português transformam-se em debates, em que o aluno é convidado (santo Deus!) a fazer, como eles dizem, “colocações” e a “se expressar”. Que diabo! Há gente que não tem inclinação para a pintura, para a música e para a literatura. Na verdade, os talentos artísticos são a exceção, não a regra. Os nossos estudantes têm de ser bons leitores e bons usuários da língua formal. E isso se consegue com o ensino de uma técnica, que passa, sim, pela conceituação, pela famigerada Gramática. Precisamos dela até para entender o “Virundum”. Veja só:

“Ouviram do Ipiranga
as margens plácidas /
De um povo heróico
o brado retumbante”

Quem ouviu o quê e onde, santo Deus? É “as margens plácidas” ou “às margens plácidas”? É perfeitamente possível ser feliz, é certo, sem saber que foram as margens plácidas do Rio Ipiranga que ouviram o brado retumbante de um povo heróico. Mas a felicidade, convenham, é um estado que pode ser atingido ignorando muito mais do que o hino. À medida que se renuncia às chaves e aos instrumentos que abrem as portas da dificuldade, faz-se a opção pelo mesquinho, pelo medíocre, pelo simplório.

As escolas brasileiras, deformadas por teorias avessas à cobrança de resultados – e o esquerdista Paulo Freire (1921-1997) prestou um desserviço gigantesco à causa –, perdem-se no proselitismo e na exaltação do chamado “universo do educando”. Meu micro ameaçou travar em sinal de protesto por escrever essa expressão máxima da empulhação pedagógica. A origem da palavra “educação” é o verbo latino “duco”, que significa “conduzir”, “guiar” por um caminho. Com o acréscimo do prefixo “se”, que significa afastamento, temos “seduco”, origem de “seduzir”, ou seja, “desviar” do caminho. A “educação”, ao contrário do que prega certa pedagogia do miolo mole, é o contrário da “sedução”. Quem nos seduz é a vida, são as suas exigências da hora, são as suas causas contingentes, passageiras, sem importância. É a disciplina que nos devolve ao caminho, à educação.

Professores de Português e Literatura vivem hoje pressionados pela idéia de “seduzir”, não de “educar”. Em vez de destrincharem o objeto direto dos catorze primeiros versos que abrem Os Lusíadas, apenas o texto mais importante da Língua Portuguesa, dão um pé no traseiro de Camões (1524-1580), mandam o poeta caolho cantar sua namoradinha chinesa em outra barcarola e oferecem, sei lá, facilidades da MPB – como se a própria MPB já não fosse, em nossa esplêndida decadência, um registro também distante das “massas”. Mas nunca deixem de contar com a astúcia do governo Lula. Na citada prova do Enem, houve uma “modernização” das referências: em vez de Chico Buarque, Engenheiros do Hawaii; em vez de Caetano Veloso, Titãs. Na próxima, é o caso de recorrer ao funk de MC Catra: “O bagulho tá sério / vai rolar o adultério / paran, paran, paran / paran, paran…”.

Precisamos de restauração, não de mais mudanças. Veja acima, no par de palavras “educação/sedução”, quanto o aluno perde ao ser privado da etimologia, um conhecimento fascinante. As reformas ortográficas, acreditem, empobrecem a língua. Não democratizam, só obscurecem o sentido. Uma coisa boba como cassar o “p” de “exce(p)ção” cria ao leitor comum dificuldades para que perceba que ali está a raiz de “excepcional”; quantos são os brasileiros que relacionam “caráter” a “característica” – por que deveriam os portugueses abrir mão do seu “carácter”? O que um usuário da nossa língua perderia se, em vez de “ciência”, escrevesse “sciência”, o que lhe permitiria reconhecer na palavra “consciência” aquela mesma raiz?

Veja o caso do francês, uma língua que prima não por letras, mas por sílabas “inúteis”, não pronunciadas. E, no entanto, os sempre revolucionários franceses fizeram a opção pela conservação. Uma proposta recente de reforma foi unanimemente rejeitada, à direita e à esquerda. Foi mais fácil cortar cabeças no país do que letras. A ortografia de Voltaire (1694-1778) está mais próxima do francês contemporâneo do que está Machado de Assis do português vigente no Brasil. O ditador soviético Stálin (1879-1953) era metido a Lingüista. Num rasgo de consciência sobre o mal que os comunistas fizeram, é dono de uma frase interessante: “Fizemos a revolução, mas preservamos a bela língua russa”. Ora, dirão: este senhor é um mau exemplo. Também acho. O diabo é que ele se tornou referência de política, não de conservação da Língua…

Já que uma restauração eficaz é, eu sei, inviável, optemos ao menos pela educação, não por uma nova e inútil reforma. O pretexto, ademais, é energúmeno. Como escreveu magnificamente o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), houve o tempo em que a terra surgiu, redonda, do azul profundo, unida pelo mar das grandes navegações. Um mar “portuguez” (ele grafou com “z”). Hoje, os países lusófonos estão separados pela mesma Língua, que foi se fazendo história. A unidade só tem passado. E nenhum futuro.

(Revista Veja, 12/09/2007)

 

Recomenda-se também que seja lida a matéria abaixo, extraída do GOOGLE

“Última flor do Lácio,
Inculta e bela,
És, a um tempo,
Esplendor e sepultura
[…]”.
(Bilac, Olavo)
No poema Língua Portuguesa, o autor parnasiano Olavo Bilac faz uma abordagem sobre o histórico da Língua Portuguesa.
 
Lácio é uma região na Itália central onde se falava Latim, a língua do Império Romano. Muitas línguas derivaram do Latim, como o francês, o espanhol e o italiano; a última delas foi o Português. Com a metáfora “Última flor do Lácio, inculta e bela”, Olavo Bilac refere-se ao fato de que a Língua Portuguesa foi a última língua neolatina descendente do latim vulgar, falado pelos soldados da região italiana do Lácio.
 
A Língua Portuguesa é a Língua que reflete nossa cultura, a Língua na qual nós construímos nossas identidades, com a qual nós nos manifestamos. Por isso Bilac, lá no finalzinho do século XIX dizia que a Língua Portuguesa é nosso esplendor, é nossa glória; sem a nossa Língua nós não seríamos o que somos. Na América do Sul o Brasil é o único país que fala Português. Por isso, o Português tem um certo aspecto de isolamento, daí a razão de o poeta chamá-lo de sepultura.
 
Podemos também entender que no segundo verso, há um paradoxo: “És a um tempo, esplendor e sepultura”. “Esplendor”, porque uma nova língua estava nascendo, ascendendo, dando continuidade ao latim. “Sepultura” porque, a partir do momento em que a Língua Portuguesa vai sendo usada e se expandindo pelo mundo, o latim vai caindo em desuso, morrendo. História da Língua Portuguesa
“À medida que Roma conquistava novos povos, obrigava o uso do latim como língua oficial por toda a extensão do Império Romano. Havia duas espécies de latim: o clássico, falado e escrito pelas pessoas cultas, e o vulgar, apenas falado pelo povo. A modalidade imposta aos vencidos era o latim vulgar e, como os povos vencidos eram diversos e falavam línguas diferenciadas, o latim sofreu alterações distintas em toda região, o que resultou no surgimento dos diferentes romanços e posteriormente nas diferentes línguas neolatinas.  Após as invasões, com as influência e modificações do latim, diversa línguas e dialetos foram constituídos, como o catalão o castelhano e o galego-português. O galego-português, resultante do romanço, era uma língua falada na faixa ocidental da Península Ibérica (atual território da Galícia e do norte de Portugal), mas, à medida que as suas fronteiras adentravam o sul, esse dialeto alterou-se e acabou predominando. Assim, o galego desenvolveu-se como variante do espanhol, e o Português, como a língua de uma nova nação (com os primeiros documentos redigidos nessa língua).”¹ O Português se difundiu pelo mundo no período das navegações, período em que Portugal vivia um tempo de proeminência na política e na economia européia, no século XVI, XVII, os navios portugueses singraram os mares levando consigo a Língua Portuguesa.  “A Língua Portuguesa chega ao Brasil com a colonização, o tupi foi usado como língua geral na colônia, ao lado do `Português, graças aos jesuítas que estudaram e difundiram a língua. Em 1757, o tupi foi proibido por uma Provisão Real. Com a expulsão dos jesuítas, em 1759, o Português fixou-se definitivamente como língua no Brasil.”² Atualmente, a Língua Portuguesa é falada por mais de 250 milhões de pessoas em todo o mundo, a grande maioria – quase 200 milhões – no Brasil. Falado nos cinco continentes, o Português é a língua oficial de dez países: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, Ilha da Madeira, Arquipélago de Açores, São Tomé e Príncipe e Timor. O Português é conhecido como “a língua de Camões” (em homenagem ao poeta português Luís Vaz de Camões, autor de Os Lusíadas) e “A última flor do Lácio” (expressão usada no soneto Língua Portuguesa, de Olavo Bilac.
Miguel de Cervantes, o célebre autor espanhol, considerava o idioma “doce e agradável”². Em março de 2006, foi fundado o Museu da Língua Portuguesa¹, em São Paulo, a cidade com o maior número de falantes do Português em todo o mundo.
RESSALVA:
A ARES E MARES esclarece:

O autor desta publicação no GOOGLE, apontou  a ILHA DA MADEIRA e o ARQUIPÉLAGO DOS AÇORES como dois países, mas está totalmente equivocado por pertencerem, em realidade , a PORTUGAL, embora lhes tenha sido concedido o ESTATUTO de  Estados Autónomos de PORTUGAL

 

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