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Guiné Bissau: Entre o Paraíso e as saudades de Portugal

Guiné: entre o paraíso e as saudades de Portugal

 

 

Alguns chegaram à Guiné-Bissau ainda antes da independência, outros à procura de uma oportunidade. São cerca de quatro mil os portugueses que escolheram viver num dos países mais pobres do mundo.

 

 

 

 

Dinis e Célia são mais guineenses que portugueses. Susana e David não têm, pela primeira vez na vida, de “contar os tostões”. Lurdes só pede que a enterrem em Portugal e Carlos encontrou o “paraíso”. O PÚBLICO foi conhecer alguns dos portugueses que vivem na Guiné-Bissau.

 

João e Célia Dinis
“Portugal era um atraso de vida em comparação com a Guiné”

Na casa de João e de Célia nunca faltava fruta enlatada, vinho Casal Garcia e pelo menos dez garrafas de whisky “do bom” para receber as visitas. Durante anos, puderam ter na Guiné-Bissau uma série de luxos que na chamada “metrópole” eram ainda uma miragem. Esses foram outros tempos. Hoje todos os gastos são controlados. Bebem vinho do mais barato e só comem bacalhau ou queijo quando algum amigo os visita. A vida obrigou-os a uma cambalhota do 80 para o oito, mas nem por isso deixam de falar com alegria, com um brilho nos olhos e esperança no futuro. A bola é para chutar para a frente e apesar de Célia ter 58 anos e João 71, não duvidam que ainda vão conseguir marcar golo.

João e Célia Dinis são dos portugueses que há mais tempo vivem na Guiné, chegaram numa altura em que “tudo era bonito, não havia falta de trabalho e tinham uma vida mais que boa”. João foi o primeiro. Chegou em 1963 como militar. Gostou tanto que ficou e já como funcionário da administração do porto de Bissau acenou aos colegas da Companhia 496, Batalhão 513, que viu partir num navio. “Não troque os números, são muito importantes para se algum amigo dessa altura me quiser telefonar”, pede ao PÚBLICO.

Só voltaria a Portugal em Setembro de 1971. “Estava há nove anos sozinho e ia com o objectivo de casar, mas não podia ficar muito tempo. Tinha de resolver o problema rapidamente e graças a Deus consegui”. Conheceu Célia num baile e meteu logo conversa. “Ó menina, não se importa que a gente vá bailar um bocadinho? Mas olhe que eu vivo em África há muitos anos, já não sei bem dançar as músicas de cá…”, perguntou-lhe. A resposta foi afirmativa. Casaram no dia 9 de Janeiro e dia 20 vieram juntos para a Guiné. Célia tinha 18 anos e Dinis 31.

Nessa altura, tudo lhes corria bem. Dinis era dono de duas escolas de condução e, alguns anos mais tarde, Célia decidiu abrir o restaurante Ponto de Encontro, que mantém até hoje em Bafatá (no centro-norte do país). “Era uma cidade espectacular, estava tudo pintadinho, arranjadinho. Se vissem esta avenida e aquela ali em baixo. Lindas, lindas. As pessoas juntavam-se para fazer piqueniques, remo, ir ao cinema. E as lojas? Tinhas de entrar só para ver, mesmo que não comprasses. Era uma coisa que atraía. Portugal era um atraso de vida em comparação com a Guiné”, descreve Célia.

O Ponto de Encontro servia mais de 70 almoços por dia e Célia chegou a ter de pedir aos tropas para tomarem conta da filha enquanto despachava o mais depressa possível os almoços. Não tinha mãos a medir. Agora há dias em que não faz cinco mil francos CFA (7,50 euros). De 17 empregados passou para dois e mesmo assim queixa-se que a receita não cobre as despesas. Podiam-se ter ido embora depois do 25 de Abril de 1974. Chegaram a vender tudo, mas os guineenses não os deixaram partir: “Não, não se vão embora porque ninguém vos vai fazer mal. Vocês também não fizeram mal a ninguém.”

“Se eu tenho ido depois da independência, era um senhor em Portugal. O meu cunhado ainda me disse para montarmos uma escola de condução, se eu o tenho ouvido… Teria muito mais dinheiro, mas não tinha esta terra”, projecta Dinis. É um apaixonado pela Guiné. Quando ia a Portugal de férias, não queria ficar mais de 15 dias, “chegava para ver a família”. “Só desejava voltar àquelas pessoas que me conheciam e, do mais pequeno ao maior, me chamavam pelo nome. Nem sequer consigo dizer o que menos gosto neste país porque gosto de tudo. Até das faltas, fomo-nos habituando a elas”.

Foi depois de 1974 que tudo piorou. Durante dez anos ainda viveram bem mas, pouco a pouco, as coisas começaram a escassear. Primeiro faltaram o queijo, as batatas e os chocolates. Até que acabou tudo. “Foi um processo: apetecia-me beber uma garrafa de vinho Casal Garcia e não havia, mas ainda se podia comprar Dão. Quando o Dão acabou, tínhamos o Pias…”, recorda Dinis.

Às vezes perguntam-lhe como consegue viver assim. Ri-se e responde: “Tu também cá estarias se tivesses vivido o que eu vivi. Tínhamos uma vida mesmo bonita. Luz 24 horas por dia, boas estradas, tudo limpo. Onde é que os portugueses comiam pêra enlatada? A nossa bebida era whisky com água das pedras, a cerveja era só para acompanhar as ostras e os camarões”.

A Guerra Civil, em 1998, foi o golpe fatal para a Guiné: “Foi desde aí que deixámos de viver como portugueses na Guiné e passámos a ter condições de vida semelhantes à de um guineense: a ter de carregar água, andar a pé…”, conta Célia.

Apesar do Ponto de Encontro estar quase sempre vazio e dos poucos alunos da escola de condução demorarem mais de dois anos a pagar (a carta custa menos de 150 euros), apesar de dizer que agora já estava na altura de voltar a Portugal, não é isso que Dinis sente. Quando fala das suas dezenas de projectos, quando diz que as coisas vão melhorar – e di-lo muitas vezes como se a sua vida pudesse durar o dobro da do comum dos mortais –, a Guiné é sempre o palco principal da sua felicidade.

As saudades das duas filhas são mesmo o que mais pesa a Célia e Dinis. Há oito anos que não as vêem e há netos que ainda nem conhecem. Mas já lá vai o tempo em que uma viagem a Portugal custava cinco mil francos CFA e a família se juntava toda para passar as férias grandes.

Custas-lhes terem trabalhado a vida toda e não terem nada. “Nem cá nem lá”.  Entregaram-se à  Guiné e é a ela que pertencem. Por isso, sempre que pensam regressar perguntam “para fazer o quê”. “Tenho direito à reforma porque fui militar e funcionário público de Bissau, mas na altura que a porta estava aberta não pude ir a Lisboa e agora está fechada a cadeado. Lá as pessoas vivem lado a lado, mas não se conhecem. Aqui sou o professor, dou cartas de condução desde 1968, ensinei pessoas que já morreram”, gaba-se Dinis.

Célia também tem medo do regresso mas confessa já estar cansada de levar a casa e o restaurante às costas. “Dizem que Portugal está mau mas para nós é um mundo de rosas. Não há dinheiro, é verdade, mas aqui também não há. Lá não se compra mais, compra-se menos, mas não sentes saudades de comer. Abres a torneira e tomas banho de chuveiro. E aquelas auto-estradas todas direitinhas? É uma alegria”, diz num português que já mistura com sotaque crioulo.

Por agora, só têm uma solução: aguentar. “Ando há muitos anos com a palavra esperança na ponta da língua mas ainda não a encontrei. Penso vir a ter uma vida boa na Guiné. Hoje não temos, não saímos de Bafatá há anos. Mas se calhar ainda vamos conseguir ter um carrinho melhor para ir a Bissau dar o nosso passeio. Dançamos, ao toque da música. Se a música saltar, também saltamos. E bem alto”,  deseja Dinis.

Susana Gomes e David Afonso
“A Guiné teria tudo para ser um país deprimido mas as pessoas não se deixam dominar por isso”

O almoço com Susana Gomes e David Afonso estava marcado para as 13h00 na esplanada de uma barraca improvisada no centro de Bissau. Chegaram com mais de meia-hora de atraso. Pouco para a Guiné. David, 35 anos, levou mais de duas horas na visita ao barbeiro. “Ou te habituas ou não duras cá muito tempo. Por um lado irrita-me o ritmo lento, por outro acho piada: meti conversa com as outras pessoas, fiquei à porta a ver a vida de bairro… Quem está mal sou eu, porque é que hei-de ter pressa? Hoje é domingo, não há  mesmo nada para fazer”, justifica-se.

“Ó filho, mas o que é que vais fazer para a Guiné? Porque é que não vais antes para França?”, perguntou-lhe em lágrimas a mãe já quando se despedia, depois de David lhe ter anunciado que iria trabalhar para a Guiné-Bissau. Ao contrário da emigração portuguesa da década de 1960, França, Alemanha ou Suiça eram países que pouco diziam a David Afonso e a Susana Gomes, 30 anos. “Nem sequer cidades como Londres, Barcelona ou São Paulo”, destinos tão na moda para a nova vaga de jovens emigrantes. Com um trabalho estável e uma vida cómoda, os motivos que os levaram a sair são diferentes dos da maioria. Cansados da vida monótona, de estar há quatro anos a viver no centro de Lisboa a fazer a mesma coisa, da falta de oportunidades e do discurso da crise, quiseram mudar completamente.

Foram as férias que passaram juntos em Moçambique, em 2010, que talharam essa vontade e os fizeram pensar a sério no assunto. “Quando percebi que realmente era capaz de viver ali, que quando saía de casa não tinha de puxar da faca para andar à luta com um crocodilo ou uma cobra, nem caçar para comer, todos os terrores desapareceram”, revela Susana ao mesmo tempo que tenta ilustrar com gestos as aventuras de que fala.

A decisão foi tomada em 2011. Ficar a assistir a um país a “definhar”, a “andar para trás”, não era para eles. Quando Susana, que é arquitecta paisagista, soube de uma vaga para trabalhar na reserva da biosfera do Arquipélago das Bijagós não pensou duas vezes. Não foi escolhida, mas a partir daí “mudaram o chip” e a Guiné-Bissau tornou-se no destino alvo. Acabaria por ser David o primeiro a conseguir. Em Outubro passou a ser o responsável da organização não governamental (ONG) portuguesa TESE, onde já trabalhava: “Na prática vim para o meu contexto de todos os dias, que antes se reduzia a um ecrã de computador”.

Do centro de Lisboa para Bafatá, uma pequena cidade no norte da Guiné, a segunda mais importante durante o colonialismo mas que hoje parece fantasma e se reduz a meia dúzia de lojas, uma discoteca, um hotel, um mercado e casas  descascadas, quase sem tinta. Mudança mais brusca seria quase impossível. Ao início, Susana encarregava-se das lides domésticas: “Ia ao mercado, falava com as pessoas, tratava da casa, fazia o almoço… Acabou por ser uma inversão de papéis porque geralmente é o David quem cozinha”, conta.

Aprenderam a ser menos exigentes, a depender menos do consumo e da oferta cultural. Passaram a conhecer todos os vizinhos e a ter tempo para pensar pela própria cabeça. “És obrigado a estar mais contigo, não dependente do que te sugerem porque os estímulos externos quase não existem. És tu quem decide o que queres fazer. A vida é muito mais simples e também bastante dedicada ao trabalho, que te ocupa a maior parte do tempo”, explica David.

Não ter luz e água canalizada em casa foi um assunto que os incomodou mais em Portugal, quando se punham a pensar como seria do que agora, que têm de tomar banho com um cântaro e, muitas vezes, substituir a luz das lâmpadas por velas. “São coisas que no teu dia-a-dia acabam por não ter peso nenhum. Chegas e é quase por osmose. Vives assim. Este tipo de constrangimentos podem ser mais cansativos a longo prazo do que no início”, avalia Susana que quatro meses depois de ter chegado começou a coordenar um projecto de transformação de caju pelo qual está “perdidamente apaixonada”.

Aquilo de que mais gostam na Guiné? “As pessoas”. A resposta sai sem pensar no mesmo segundo em que a pergunta é colocada. Susana explica: “Há um interesse genuíno em ti, ninguém te mede pelo que fazes, ninguém te pergunta para quem trabalhas, se estás desempregada ou quem são os teus pais. Toda a gente quer saber o teu nome, quanto tempo vais ficar, te diz que és bem-vindo e que estão muito contentes por cá estares. E não é da boca para fora porque se for preciso encontram-te na semana seguinte e fazem-te a mesma festa. É uma coisa sentida. E recíproca, eu também me sinto realmente contente porque as pessoas me tratam bem”.

“E não digam que é uma coisa africana porque não é, chegas ao Senegal e tudo muda. Esta simpatia, esta facilidade de comunicar, de conversar sobre os temas mais triviais é uma característica dos guineenses. Os guineenses são curiosos relativamente ao outro, entras num táxi e tens tema para a viagem toda”, acrescenta David que antes já tinha vivido em Moçambique e passado várias férias no continente.

Apesar da Guiné-Bissau estar entre os 15 países mais pobres do mundo, de acordo com Relatório de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o casal diz não  ter perdido qualidade de vida. Quase todos os fins-de-semana viajam para algum lado e, pela primeira vez, sentem que não têm de “contar os tostões”. Depois, o facto de não estarem rodeados por pessoas queixosas fá-los automaticamente mais felizes. “A Guiné teria tudo para ser um país deprimido, visto que está em crise política quase desde a independência, e as pessoas não se deixam dominar por isso, continuam as suas vidas”, descreve David.

Não se imaginam a viver mais cinco anos entre Bafatá e Bissau mas também não querem voltar à Europa. Têm saudades, claro. De Portugal, das pessoas que deixaram, da oferta cultural. E medo. De perder as referências, que as coisas mudem mais depressa do que aquilo que conseguem acompanhar.  “Quando moras em Lisboa, no meio dos teus amigos, há um conjunto de assuntos comuns. O vídeo no Youtube, a última banda do momento, o [ex-ministro Miguel] Relvas. Assuntos sobre os quais já não estás a par. Quer dizer, ao Relvas tens sempre acesso…”, brinca Susana.

Querem ficar na Guiné até se sentirem bem. Não existem datas marcadas, apenas desejos: “Gostava de terminar o projecto de energia em Bambadinca [a vila onde está a ser implementado um sistema de energia acessível à população], gostava de ter esta vontade e entusiasmo até ao fim, em 2015”, antecipa David.  Susana não faz planos. Para ela, a Guiné é o que é porque veio com David, alguém que realmente a conhece e com que pode falar de tudo. É também com ele que pretende, num dia que não sabe qual, voltar.

Lurdes Loureiro
“A Guiné podia ser uma Suíça em termos de dinheiro e um Brasil em turismo”

Chegou à Guiné com a cerveja Cristal. Lurdes Loureiro, 60 anos, é dona da Adega do Loureiro, um restaurante no centro de Bissau. “Trouxe quatro contentores que desapareceram em dois meses. Antes disso, só vendiam Super Bock e Carlesberg”, conta. Tanto Lurdes como a Cristal pisaram pela primeira vez solo guineense a 5 de Julho de 1993 e ambas fazem sucesso até hoje, ainda que por motivos diferentes – a Cristal é uma das cervejas mais vendidas no país e o restaurante de Lurdes uma referência para os que não se importam de pagar mais caro para comer comida típica portuguesa.

Há um ditado que diz que a magia da Guiné está na água do Pidjiguiti (porto de Bissau onde atracam os barcos de pesca): todos os portugueses que vêm e bebem dessa água, não voltam para Portugal. “Eu devo ter bebido um garrafão, não foi uma garrafa nem um copo, foi um garrafão!”, brinca.

Lurdes diz que o chão da Guiné tem algo que a cativa mas rejeita a visão romântica de África. “Por vezes desesperamos e ficamos muito tristes: ou não há água, ou não há luz… Não são os buracos na estrada que nos chateiam, é a falta de serviços mínimos. Só com um gerador é que consigo garantir o funcionamento do restaurante e o combustível é muito caro. Sem luz 24 horas por dia não se pode falar em desenvolvimento.”

Foi em 1996 que percebeu que a sua estadia poderia estar para durar. Trouxe os dois filhos e abriu o Adega do Loureiro. Dois anos depois, quando eclodiu a guerra civil, deixou a Guiné debaixo de bombas. “Só houve tempo de apanhar o ouro e o passaporte que estavam dentro do cofre”, recorda.

Ficou a viver em Portugal durante dois anos, mas decidiu voltar, reconstruir o restaurante “que estava irreconhecível” e montar uma empresa de limpezas.

Apesar das dificuldades, Lurdes Loureiro não se arrepende da decisão. “O que  revolta é que isto podia ser uma Suíça em termos de dinheiro e um Brasil em turismo. Temos as ilhas, temos gente capaz… Sim, não pensem que aqui só há soclata [em crioulo “porcaria”], como eles dizem, há pessoas muito inteligentes, guineenses que foram estudar para a Europa e voltaram por amor ao país”.

Lurdes gere, com a ajuda dos filhos, os dois negócios, que não dão para enriquecer mas lhe permitem ter uma vida confortável. “Aqui na Adega, tentamos fazer tudo o mais caseiro possível e os clientes habituam-se. Vêm cá muitos guineenses e pessoas que trabalham em organismos internacionais”, descreve.

Mesmo quando a maioria dos restaurantes de Bissau está às moscas, no Adega do Loureiro é raro sobrarem mesas. Ali, ouve-se fado, vê-se o Benfica e come-se bacalhau. Quando vai a Portugal, é com o “seu menino” que mais se preocupa: traz queijos, chouriços, grelos, salsichas frescas e até caracóis para poder inovar na ementa. Tudo produtos que não se encontram nos supermercados guineenses.

E é esta escassez que a deixa cansada: “Os clientes habituam-se a uma certa comida e às vezes falha porque queremos frango, não há frango. Faço as compras para o restaurante como se fosse para a minha casa, não dá para encomendar nada a fornecedores porque estraga-se tudo”, queixa-se.

Lurdes gosta muito da Guiné, mas diz que quem lhe tira o seu Portugal, lhe tira tudo. Por isso, é com mágoa que vê a língua portuguesa ser esquecida, ultrapassada pelo francês, num país lusófono. ”Maltratamos o que é nosso, não cuidamos. Ninguém olha pelos portugueses que aqui estão. Só houve um ministro que se importou com a Guiné, foi o Luís Amado [ministro dos Negócios Estrangeiros entre 2006 e 2009], de resto fomos completamente esquecidos. O Paulo Portas quando era ministro das Forças Armadas veio às águas da Guiné-Bissau mas nem pôs cá os pés. Agora que é ministro dos Negócios Estrangeiros já foi a Angola, a Moçambique, mas aqui… E olhe que estou a dizer mal do meu partido. Sou do CDS”, critica. 

Aquilo que mais quer é voltar. “Quando for mais velha…”, antecipa. “Todos os que emigram sonham um dia o quê? Todo o emigrante sonha voltar à sua terra. Se um dia morrer na Guiné, só peço aos meus filhos que que me enterrem em Portugal. Há uma quadra de um fado que diz o que sinto: ‘Talvez que eu morra no leito onde a morte é natural com as mãos em cruz sobre o peito, das mãos de Deus tudo aceito, mas que eu morra em Portugal”.

Carlos Alves
“Para a Guiné ser o paraíso só tinha de ter aqui os meus filhos e netos”

Quando se passa à porta do Jordani, é raro não encontrar Carlos Alves e o seu sorriso grande. Está sempre ali: sentado numa das mesas de madeira do restaurante, encostado ao balcão, ou na rua – entre uma loja e outra a comprar o que falta para poder servir os almoços. Trata  toda a gente por tu e passa grande parte do dia a estender a mão (forma de cumprimento na Guiné) a amigos e conhecidos. “Não encontra outros portugueses? Tenho mesmo de ser eu?”, pergunta. Foi fácil convencê-lo. “Bom, então passe cá amanhã ao meio-dia”.

O amanhã foi uma quarta-feira. Mesmo de costas, é inconfundível: cabelo comprido e pouco farto apanhado num rabo de cavalo, cotovelo assente em cima da mesa, corpo relaxado a assistir à RTP África. Carlos Alves chegou à Guiné-Bissau há dois anos e nunca mais saiu. Não tem “saudadinhas” nenhumas de Portugal, “aqui é tudo mais fácil, alegre, natural…”. 

Não esclarece o motivo que o trouxe, mas fala de um grande desgosto de amor, daqueles que fazem doer e nos deixam sem norte: “Marquei a minha mulher quando ela tinha 12 anos e eu 16.  Soube nesse momento que seria a mãe dos meus filhos. Nunca lhe perdi o rasto, conheci todos os seus namorados, ela conheceu todos os meus casos. Quando achei que era altura de atacar, deixei-me daquela vida. Aos 28 anos começámos a namorar, passado um ano casámos. Criámos dois filhos, estivemos juntos durante mais de duas décadas. Tivemos um problema, divorciámo-nos e ficámos dois anos separados. Recomeçámos tudo de novo, perdidamente apaixonados, com o grande amor que sempre nos uniu. Passado um ano ela morreu. A Nita será sempre o amor da minha vida, a dona da grande paixão que sei nunca mais voltar a sentir. Já voltei a gostar de outras pessoas, mas nunca a amar.”

De repente, aos 55 anos, a vida deixou de lhe fazer sentido. Os filhos estavam formados e as lembranças tinham excesso de peso. Porque não aceitar o desafio de um amigo que o convidou para gerir um hotel e restaurante em Bissau? O que ganha não dá para juntar dinheiro mas permite-lhe viver.

Come e dorme no Jordani e os seus luxos não vão além de uns camarões com os amigos quando há jogos de futebol, de umas minis “aqui ou ali” e de umas idas à discoteca “para abanar o capacete”. “Como dizem os guineenses na passa [vive-se]. Para mim, o dinheiro sempre teve um sentido muito prático: é para gastar”, conta.

Carlos adverte que o melhor a fazer quando se chega é esquecer as “tretas que nos põem na cabeça”, contadas por quem não conhece verdadeiramente a Guiné. E destrói todas as ideias feitas do país: “Criminalidade? Sinto que ando mais à vontade em Bissau à noite do que em Lisboa”. Gosta das ilhas do Arquipélago das Bijagós e das suas águas quentes, do calor e das pessoas, “sempre bem-dispostas, simpáticas e pacíficas”.

Não esconde que também existem coisas más como a pobreza da população, a prostituição – “sobretudo feminina, miúdas que se oferecem a troco de quase nada porque precisam do dinheiro” – e até racismo “para com o branco que está mais ou menos bem”. Há certos sítios a que evita ir para não ouvir frases como “isto um dia há-de mudar e os brancos vão sair todos daqui”.

A deficiência dos serviços de saúde, uma das lacunas que mais assusta os ex-patriados, não tira o sono a Carlos que até agora só teve malária, “uma doença banal”. E depois, diz, “quem vai para o mar avia-se em terra. Faço prevenção, tento não comer gorduras, ter um estilo de vida saudável. Se tiver uma coisa mais séria, há sempre um médico amigo que vem aqui ao restaurante”.

Também não o chateia a monotomia que se vai apoderando dos dias numa capital com poucas iniciativas lúdicas e culturais. Até gosta que a sua vida gire sempre da mesma maneira, como os ponteiros afinados de um relógio: “Levanto-me às oito da manhã e deito-me por volta da meia-noite. Só nos dias em que vou à discoteca é que me estico”, descreve. O Jordani está aberto toda a semana e há que dar sempre uma resposta afirmativa à pergunta que quase todos os seus clientes fazem: “Há sopa de legumes, Carlos?”

E depois os sonhos, que como diz o poema comandam a vida e a de Carlos não foge à regra: “Ainda hei-de pôr a funcionar um Jordani em Bolama”, a ilha dos Bijagós mais próxima de Bissau e a antiga capital da Guiné até 1941, uma cidade em decadência, que muitos consideram de uma beleza natural inigualável. “Adoro aquilo, acho lindo, lindo, e dá-me pena ver tudo abandonado. Gostava de abrir lá um hotel e restaurante porque não há nenhum sítio onde as pessoas possam ficar. Já começámos as obras mas temos medo que não seja um negócio rentável”, confessa.

A Guiné-Bissau é o sítio onde Carlos se imagina a viver para sempre. Um quase-paraíso que para ser perfeito só lhe faltam duas coisas: os filhos e os netos. “Só tenho saudades de abraçar os meus filhos. Estou a tentar que eles cá venham… De resto, tenho aqui tudo.”

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