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Mudança de Conceito: Considerações sobre a arte de escrever,de ler e de publicar.- Nilza Amaral-São Paulo- Brasil

Mudança de Conceito: Considerações sobre a arte de escrever, de ler e de publicar.

Nilza Amaral

Quando lancei o livro O Florista fui á TV Mulher, falar sobre ele, como manda o decálogo atual do escritor. Como mediadora da entrevista estava a Rosana Hermann, e os convidados, um publicitário, Luiz, dono da Agência Eco, um professor de teatro, o Clóvis Rossi, da ECA, a Rosemary, a bela cantora, e eu. Falamos sobre muitas coisas, mas a grande pauta das entrevistas acabou sendo a linguagem, a arte e a vida, pois afinal todos ali éramos do ramo. Comentamos sobre a tendência da dinâmica da linguagem, que derruba vocábulos do mesmo modo que a vida derruba seus ídolos dos pedestais. Lembramos (todos tinham idade para lembrar-se) das palavras, bacana, Clóvis Rossi, ainda lembrou-se de supimpa, contei que fiz uma pesquisa em meu tempo na faculdade sobre o tal de A a Z, e ainda sobre o XPTO, que significava o máximo, recordamos até dos produtos Coty, abordamos o pós-gue rra que trouxe a tecnologia e o progresso em vinte anos de alucinante progresso, discutimos esses modismos importados de idiomas estrangeiros, como esse antipático yea, que muitos apresentadores americanos usam e alguns daqui aderiram, e que talvez tenha vindo do rock, enfim a linguagem dominou a nossa fala.

Com o tempo as significações vão se enevoando e sendo substituídas, levando nessa névoa até mesmo os conceitos que passam a ser definições antigas. Uma das minhas filhas, há um tempo, criticou a caligrafia de uma das suas tias-avó, ao ler um bilhete esquecido no fundo de uma caixa de fotos, que também amarelaram com o tempo, onde aparecia a palavra pharmacia, e outras com ortografia antiga, dizendo que ela devia ser semi-analfabeta. Penso no que dirá ao ler o que se escreve atualmente alguma sobrinha-neta do futuro, que será o produto da era da cibernética, e terá ao seu dispor além do teclado tecnológico do computador, os programas de dicionários e revisores que jamais a deixarão errar.

Com as palavras vão-se também a ingenuidade, a infância passa mais rapidamente e aos doze anos, alguém que seria classificado como criança, e poderia ler um doce livro infanto juvenil, (classificação editorial) hoje empunha uma arma e atira em colegas na escola. Pensa-se em mudar a sociedade em função do progresso, em reformular o código do menor e do adolescente que não são apropriados á época, e infringem-se direitos tão arduamente conquistados em nome do devir.

A literatura encontra-se nessa confusão. Há escolas de escritores, virtuais e reais, e o que se ensina nessas escolas? Talvez a ter inspiração, sensibilidade, ensina-se a aumentar a riqueza verbal, se é que tais virtudes aprendem-se nas escolas sejam elas do que forem. Ou ensinam-se temas como os das redações escolares, faça-se um romance sobre a chuva, ou sobre o pingo que escorre na vidraça, ou sobre o diabo que o parta. E a crítica? Haverá aulas sobre como se debruçar sobre um poema ou um trecho em prosa, abrir o entendimento da visão para o trabalho alheio, buscar penetrar as razões para o reconhecimento do belo ou do novo, descobrir a essência do universo do texto, se ensinará a Heurística? Ou discorrerão os professores para os futuros escritores sobre a humildade e a lucidez necessárias para um bom autor?

Mas o que estou dizendo, estou tão doida quanto o Dom Quixote a lutar contra os exércitos imaginários, se hoje também a definição de escritor está alterada, e o escritor passou a ser aquela figura, triste figura, que precisa subir aos palcos, ser entrevistado, bancar o bobo da corte, enfeitar e valorizar reuniões sociais, e vender livros, ser o produto e o produtor, ter o seu livro resenhado, fabricar press releases convincentes, não mais atuar como os abnegados vendedores de livros, romanticamente aparecendo em portas de teatros e bares da boêmia, lendo seus trechos em prosa, ou declamando seus versos nas praças. Isso já caiu em desuso, a alteração promoveu o escrevinhador a escritor e hoje ele tem que estar nos cedês e na deusa fatal – atual mídia. E o sucesso da obra depende de quanto ela é criticada, admirada, ou debatida e quanto pior, melhor!

À glória sucede/O que sucede à água:/Por mais água que se beba, /Qual lhe sacia a sede? /Diverso o sucesso, /Basta-lhe um verso /Para essa desgraça /Que se chama dar certo. (Paulo Leminski, em Distraídos venceremos¨)

Nilza Amaral é contista e romancista urbana. Autora de “O dia das Lobas”, “Amor em campo de Açafrão”, “Modus Diabolicus”, “A balada de Estóica”, “O Florista”.A Prisioneira do Espelho, Expulsão do Paraíso, entre outros.Tem seus romances traduzidos para o inglês e espanhol. Consta de inúmeras coletâneas, tem verbetes em várias enciclopédias literárias. Piracicabana de nascimento e Paulistana de sofrimento.

www.aresemares.com

 http://www.hispanorama.net/profile/NilzaAmaral

 

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