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Os animais que levam os cães soltos De Carlos Magno de Melo

Os animais que levam os cães soltos

Carlos Magno de Melo. Integrante da AVELA e médico do Posto de Saúde de Guaibim.

carlosmagnodemelo@hotmail.com

 

Saí de casa. Abri o portão. Atravessei a faixa de vegetação rasteira. A praia. Tempo cinzento. Corri. O mar. Mergulhar, apesar do friozinho. Fui atacado por um cão.

                Sim, a praia estava deserta. Ao longe, alguns pescadores puxavam rede. Um casal de animais bípedes, desprovidos de penas e munidos de suposta inteligência, que diferencia os humanos dos demais animais, caminhava com três cães negros. Um preso pela coleira, os outros dois, soltos. Ao ver-me correndo para o mar, um dos cachorros se arremessou do grupo de animais e veio, pelos erriçados e dentes à mostra. Corria. Ameaçador.

                Minha única salvação seria tentar o mar. O portão já estava longe. Oo meu anjo da guarda me colocou duas metades de coco seco ao lado, na areia. Peguei as casacas. Afastava-me. Gritava com o cachorro, que se aproximava rapidamente, fera, disposto a mostrar que quem mandava no pedaço eram eles, os cães e o casal de animais bípedes, desprovidos de penas e possuidores de suposta inteligência, donos da matilha.

                Peguei as cascas do coco. Gesticulei. Gritei. O cão se lhe arrefeceu o ímpeto, covarde, vendo que eu poderia me defender. Mas por pouco tempo. Retomou o ataque. Joguei-lhe uma das metades do coco e, de costas, tentava chegar ao mar, minha única salvação. O anjo da guarda do cachorro desviou a metade do coco que atirei, na falta de ter um fuzil. Eu gesticulava e gritava com a besta. O cachorro em volta de mim tentava achar uma melhor oportunidade para consumar o ataque. Afastava-me e gesticulava. Casca de coco na mão, na falta de uma Mauser. Entrei na água e a fera chegou ao meu círculo de proteção individual. Minha áurea. Seria mordido. Afastava-me e ralhava com a besta. Uma onda me desequilibrou. Caí. Pensei que estaria perdido. O horror de ser estraçalhado por mandíbulas raivosas. Caído de costa, joguei a ultima bala, digo, casca de coco. A fera como que sorriu. Eu estava à mercê. Jogava água. Tentava me levantar.

                A bípede despenada fêmea segurou o outro cão que o bípede macho despenado estava segurando e ele, o bípede despenado macho, veio às carreiras gritando com o seu cachorro. A fera desistiu. Por pouco. Levantei-me, molhado, sujo de areia e totalmente humilhado. Um passeio na praia se transformara um constrangimento.

                Fico imaginando: se fosse uma mãe com crianças. Um idoso, mais idoso do que eu, menos ágil do que eu. Teríamos uma tragédia. Fico imaginando o que faz uma pessoa sair com cães soltos pela praia. Desapego pelas outras pessoas, que têm o pleno direito de caminhar pela orla do mar sem se preocupar com cães bravios ou sem nenhum treino para o convívio. Pessoa que não devem ser obrigadas a caminhar carregando pedaços de paus para se defender de ataques caninos. Pessoas que merecem respeito.

                Ah, sim, os bípedes depenados não carregavam pá e nem sacos para recolher as fezes que a matilha poderia deixar na areia. No Posto de Saúde eu me deparo com inúmeros casos de “bicho geográfico”. Penso que em uma manifestação pacífica, bípedes como os que levam cães soltos pelas praias, praças e jardins seriam os mascarados.

 

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